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30 mil bases, 29 proteínas e inúmeros desafios: um perfil do SARS-CoV-2

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30 mil bases, 29 proteínas e inúmeros desafios: um perfil do SARS-CoV-2 Por Felipe Schroeder Franke* Em Introdução à filosofia da matemática, Bertrand Russel sugere que há dois tipos de problemas na Matemática: aqueles que vão do número 1 ao infinito, e aqueles que vão do número 1 ao zero. A ideia é, mais que uma teoria em si, uma provocação ao leitor. Já que nós, seres cotidianos, estamos acostumados a lidar com números relativamente grandes (a conta da luz, os quilômetros até a praia), Russel tenta chamar atenção para o fato de que, no pequeno espaço entre o nada e a unidade, há todo um universo igualmente imenso. Nas Ciências da Saúde, o estudo dos vírus tem um pouco disso de que Russel fala. Bioquimicamente falando, os vírus não são muito mais que pequenas estruturas proteicas abrigando um pequeno material genético. Classicamente, nem são considerados seres vivos, devido ao fato de não terem a capacidade de viver e se reproduzir independentemente. São menores que todos os seres vivos (ainda que alguns vírus possam se aproximar do tamanho de algumas bactérias), e muito menores que a maioria das nossas células animais. Ainda assim, em seus microcosmos próprios, os vírus carregam um universo de complexidade e diversidade que perpassa virtualmente toda a natureza. Há vírus para todas as formas de vida: plantas, animais, fungos, bactérias. Calcula-se que haja mais vírus na Terra do que estrelas no universo, seja lá qual for esse número. Descendo um pouca na escala, estima-se que, em um corpo humano, haja 100 vezes mais vírus que células. E, para além de infecções que vêm e vão a cada inverno ou comida estranha, o fato é que somos feitos, também, de vírus (há cerca de 100 mil pedaços virais no nosso DNA). Às vezes, o mais simples é o mais difícil de ser compreendido. Talvez por isso haja tantas teorias e confabulações acerca dos vírus. Por serem menores e mais simples que as mais elementares formas de vida, já se propôs que os vírus seriam anteriores à primeira bactéria. Porém, por não termos notícia de nenhum vírus que consiga viver sem depender de uma célula, também se argumenta que os vírus necessariamente teriam surgido mais tarde. Uma teoria especialmente curiosa defende que, para cada célula viva, há um vírus correspondente. Os vírus teriam se originado de uma porção desertora da célula, e por essa razão seriam capazes de infectá-la (e dela depender). Nessa visão, os vírus seriam uma espécie de defeito dos seres vivos, um tipo de falha em sua programação ou execução. O SARS-CoV-2 é resultado da mutação de um coronavírus em harmonia com a natureza Com essas questões em mente, uma pergunta inquietante que podemos nos fazer é a seguinte: se há tantos vírus no mundo (e inclusive tantos vírus em cada um de nós, neste exato momento), por que somente uma parcela relativamente pequena deles nos causa problema? Há muitas respostas possíveis, mas quase todas giram em torno do balanço encontrado, evolutivamente, entre os vírus e as células (e seres) que infectam. E isso faz parte do […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Em Introdução à filosofia da matemática, Bertrand Russel sugere que há dois tipos de problemas na Matemática: aqueles que vão do número 1 ao infinito, e aqueles que vão do número 1 ao zero. A ideia é, mais que uma teoria em si, uma provocação ao leitor. Já que nós, seres cotidianos, estamos acostumados a lidar com números relativamente grandes (a conta da luz, os quilômetros até a praia), Russel tenta chamar atenção para o fato de que, no pequeno espaço entre o nada e a unidade, há todo um universo igualmente imenso. Nas Ciências da Saúde, o estudo dos vírus tem um pouco disso de que Russel fala. Bioquimicamente falando, os vírus não são muito mais que pequenas estruturas proteicas abrigando um pequeno material genético. Classicamente, nem são considerados seres vivos, devido ao fato de não terem a capacidade de viver e se reproduzir independentemente. São menores que todos os seres vivos (ainda que alguns vírus possam se aproximar do tamanho de algumas bactérias), e muito menores que a maioria das nossas células animais. Ainda assim, em seus microcosmos próprios, os vírus carregam um universo de complexidade e diversidade que perpassa virtualmente toda a natureza. Há vírus para todas as formas de vida: plantas, animais, fungos, bactérias. Calcula-se que haja mais vírus na Terra do que estrelas no universo, seja lá qual for esse número. Descendo um pouca na escala, estima-se que, em um corpo humano, haja 100 vezes mais vírus que células. E, para além de infecções que vêm e vão a cada inverno ou comida estranha, o fato é que somos feitos, também, de vírus (há cerca de 100 mil pedaços virais no nosso DNA). Às vezes, o mais simples é o mais difícil de ser compreendido. Talvez por isso haja tantas teorias e confabulações acerca dos vírus. Por serem menores e mais simples que as mais elementares formas de vida, já se propôs que os vírus seriam anteriores à primeira bactéria. Porém, por não termos notícia de nenhum vírus que consiga viver sem depender de uma célula, também se argumenta que os vírus necessariamente teriam surgido mais tarde. Uma teoria especialmente curiosa defende que, para cada célula viva, há um vírus correspondente. Os vírus teriam se originado de uma porção desertora da célula, e por essa razão seriam capazes de infectá-la (e dela depender). Nessa visão, os vírus seriam uma espécie de defeito dos seres vivos, um tipo de falha em sua programação ou execução. O SARS-CoV-2 é resultado da mutação de um coronavírus em harmonia com a natureza Com essas questões em mente, uma pergunta inquietante que podemos nos fazer é a seguinte: se há tantos vírus no mundo (e inclusive tantos vírus em cada um de nós, neste exato momento), por que somente uma parcela relativamente pequena deles nos causa problema? Há muitas respostas possíveis, mas quase todas giram em torno do balanço encontrado, evolutivamente, entre os vírus e as células (e seres) que infectam. E isso faz parte do […]

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