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A dimensão social da pandemia

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A dimensão social da pandemia

No livro Como e por que as desigualdades fazem mal à saúde, Rita Barradas Barata observa que, hoje em dia, praticamente ninguém discorda que desigualdades sociais tenham repercussão nos processos de saúde e doença dos indivíduos. No entanto, observa a epidemiologista, a grande questão recai sobre entender como isso ocorre: quais são essas desigualdades e de que modo elas repercutem nas chances de ser e se manter saudável?

Embora grande parte das atenções atuais estejam voltadas para questões essencialmente técnicas da pandemia (como se dá o processo de imunização, se determinado medicamento ajuda a reduzir a gravidade de um quadro de Covid-19, etc), há também muitos estudos voltados para o que pode ser chamado de dimensão social da doença. São estudos que compartilham a premissa de Barata sobre a desigualdade e procuram entender de que maneira a pandemia se reflete de maneira desigual na sociedade, e não raro agravando quadros já existentes de injustiça.

Em busca dos fatores da desigualdade

Olhemos dois exemplos de pesquisas publicadas nos Estados Unidos. Em artigo divulgado no dia 18 de junho no Journal of the American Medical Association, os autores discutem um estudo que mediu o avanço da pandemia em diferentes comunidades na região de Washington. A conclusão foi de que a população de ascendência latino-america estava sendo infectada em uma proporção maior do que outros grupos (42,6% de resultados positivos contra 8,8% da população branca, por exemplo).

Outro exemplo é um estudo, publicado na mesma edição do JAMA, que avaliou de que modo o ambiente e o status socioeconômico impactaram na prevalência da Covid-19 em mulheres grávidas na cidade de Nova York. A conclusão é de que a prevalência da infecção pelo SARS-CoV-2 era diretamente proporcional ao número de pessoas vivendo em um mesmo ambiente, e inversamente proporcional ao status socioeconômico destes grupos.

Talvez os resultados destes estudos não sejam surpreendentes. Indivíduos e famílias em situação econômica informal e insegura se veem frequentemente forçados a se expor a riscos, assumindo trabalhos precários e enfrentando jornadas extenuantes, e não há nada que nos leve a crer que isso mudaria durante a pandemia.

Entretanto, como nos ensina a premissa de Barata, estudos deste tipo são necessários para que se consiga identificar quais são os fatores de desigualdade que mais conduzem a situações de maior risco de doença. O que está em jogo, afinal, é a tarefa da ciência em não apenas mostrar de que modo uma doença se desenvolve em um corpo, mas também a de indicar como desigualdades sociais impedem que se busque a saúde não apenas ao nível individual, mas também coletivo.

Coletividade e vulnerabilidade

Isso não é simples retórica humanitária. Embora possa haver vertentes políticas atuais que minimizem as desigualdades e injustiças presentes na nossa sociedade, o fato é que a saúde é, em grande parte, um conceito coletivo. Isso fica ainda mais evidente quando o foco em questão é uma doença infecciosa. Como tem se falado algumas vezes ao longo dos últimos meses: ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo.

Os dois estudos citados acima foram feitos nos Estados Unidos, mas a realidade brasileira fornece diariamente exemplos de como diferentes populações podem ser distintivamente afetadas pela pandemia. Há muitos casos de avanço da doença em populações indígenas, o que aumenta os desafios da saúde pública para encontrar alternativas para garantir que populações com acesso restrito à saúde não sejam ainda mais impactadas por uma doença importada.

Outro exemplo brasileiro foi uma pesquisa publicada no domingo, 28 de junho, sobre vulnerabilidade da população LGBTQ+. Os dados apontam transexuais e travestis, seguidos por bissexuais, como grupos especialmente vulneráveis aos impactos da pandemia e da necessidade de isolamento social. Entram aí fatores de ordem econômica, assistencial e saúde mental.

Desafios a longo prazo

Todos os exemplos citados neste texto, aos quais poderíamos acrescentar muitos outros, se concentram na tentativa de compreensão do modo pelo qual diferentes condições sociais repercutem em diferentes possibilidades de ser e se manter sadio durante a pandemia. De fato, à medida que a pandemia avança das capitais ao interior do Brasil, tentar entender de que modo as desigualdades facilitam o contágio é um imperativo à saúde pública.

Porém, é provável que em breve as autoridades tenham também que confrontar com os desafios a longo prazo. É razoável supor que períodos alongados de isolamento social e de restrição da atividade econômica impactem de modo desigual populações com diferentes redes de apoio. Além disso, será também necessário observar o impacto das sequelas em pacientes graves da Covid-19, bem como o impacto disso na saúde pública.

Como diz Barata em seu livro, talvez as desigualdades sociais sejam inevitáveis. Porém, o que sistemas políticos e sanitários podem fazer é trabalhar para garantir que estas desigualdades impactem o mínimo possível nas condições de cada um em ser e se manter saudável. Dito de outra forma, as instituições públicas devem ser motor de redução das injustiças, e não de seu agravamento.

*Felipe é jornalista e estudante de Medicina na UFRGS

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