Carta da Editora, Matinal

Há esperança

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Há esperança

Olá, caros leitores e caras leitoras! Escrevo essa carta emocionada depois de assistir ao vídeo da equipe do Instituto Butantan comemorando a eficácia da vacina contra a Covid-19. Notícias como essa nos devolvem, aos poucos, a fé em dias melhores, ainda que alguns acontecimentos deste início de 2021 tentem nos sugar para direção contrária. Estou aqui para desejar a vocês um ano novo capaz de renovar nossas esperanças uns nos outros e na nossa cidade querida.

Motivados por esse clima de reinício, renovamos com vocês nossa missão de olhar para Porto Alegre como quem acredita no potencial da cidade, dos seus trabalhadores e trabalhadoras das mais diversas áreas, da sua riqueza natural, das inteligências das suas universidades. Reafirmamos nossa confiança na ciência e no papel do jornalismo para o fortalecimento da democracia e nosso compromisso com a defesa dos direitos humanos.

Como exemplo desse comprometimento, publicamos, nesta semana, uma reportagem que revela casos de agressões e racismo em grandes redes de supermercado no Rio Grande do Sul. Na mesma edição, tratamos, pela segunda vez, da repercussão em torno do debate sobre o hino rio-grandense. Por uma falta de alinhamento entre os editores da newsletter, a nota destoava do texto que abria o boletim e apresentava a reportagem.

Em nome da transparência que tanto prezamos – e provocados por uma mensagem que chegou à redação –, queremos deixar claro que, para o Matinal, são racistas os versos “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Entendemos que, mais do que uma “polêmica”, existe um incômodo por parte de alguns vereadores brancos incapazes de perceber o que significa essa frase para o povo preto. Vou me valer das palavras da professora do Departamento de História da UFRGS e Coordenadora Nacional do GT Emancipações e Pós abolição da Associação Nacional de História, Fernanda Oliveira, que, em entrevista ao Sul21, disse que, na estrofe citada, parece claro que os farrapos se referem à sua própria condição na disputa com as tropas imperiais. Contudo – e é aqui que queremos jogar luz –, isso não invalida a percepção de que se trata de um trecho com teor racista. A professora observa ainda que “trazer essa discussão para o campo das ideias, para o campo filosófico, é perder a materialidade do que significou a escravidão no Brasil, é perder a materialidade do que significou a escravidão no território sul rio-grandense”.

Para o Matinal, portanto, é perfeitamente compreensível a indignação da bancada negra da Câmara Municipal e sua recusa em se levantar e cantar versos que, em outras palavras, afirmam que só é escravo quem não tem virtude. A atitude dos parlamentares, aliás, não é inédita no movimento negro da Capital. A cena já foi vista repetidas vezes em cerimônias de formatura da UFRGS – tantas que já não tocam mais o hino nessas ocasiões.

Por tudo isso, recebemos com preocupação a notícia de um projeto que altera o regimento interno da Câmara de Porto Alegre e propõe que todos devem se “postar de pé e em posição de respeito durante a execução dos Hino Nacional e do Hino do Estado do Rio Grande do Sul”. Para além do que determina a proposta, já garantida em uma lei federal em relação ao hino nacional, o que lamentamos é começar uma nova legislatura em que alguns parlamentares se mostrem incapazes de evoluir no diálogo sobre o racismo, tema que, talvez pela primeira vez, pode ser discutido de forma mais equilibrada na Casa do Povo, que agora conta com uma bancada que representa parte da população porto-alegrense até então quase invisibilizada naquele espaço. 

Sublinhamos que nossa posição sobre o hino do RS não significa que não daremos espaço para o contraditório, com o cuidado de evitar falsas simetrias. Porque justamente estamos interessados no diálogo respeitoso e baseado em argumentos, e não na imposição de opiniões e comportamentos que ferem a dignidade do outro.

Apesar desse início conturbado, acreditamos que a maior diversidade na Câmara Municipal seja um dos tantos motivos a serem celebrados neste ano. Uma esperança de que é possível oxigenar a velha política com novas ideias, ainda que nascidas de antigas lutas. Não tentemos controlar o vento, como sugeriu Chico César nesta semana em resposta a um fã que pediu que ele evitasse músicas de “cunho político-ideológico”. E completou: “Não pense que a fúria da luta contra as opressões pode ser controlada. Eu sou parte dessa fúria. Não sou seu entretenimento, sou o fio da espada da história feito música no pescoço dos fascistas. E dos neutros. Não conte comigo para niná-lo. Não vim botar você pra dormir, aqui estou para acordar os dormentes”.

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