Nathallia Protazio
Nathallia Protazio, escritora
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Diário da inundação III – O sonho

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Diário da inundação III – O sonho Douglas Fischer/Divulgação

Tudo começa com uma autoestima baixa. Todo cronista acredita que sua vida não tem graça alguma. Os romances dos romancistas são mais românticos. Os causos dos contistas são mais intrigantes. A poesia da vida do poeta é bem mais empolgante. À cronista só lhe resta este mal de achar graça na vida dos outros. Eu não fujo à regra. Como boa cronista que sou, acho minha vida sempre péssima. Olho pros meus dias e não vejo ritmo, rimas ou arco dramático, apenas a mediocridade do cotidiano mal regrado.

A verdade é que eu só queria sumir. Escafeder-me. Saí de Porto Alegre na primeira oportunidade que tive. Estou em São Paulo há uns vinte dias, porém não cheguei em lugar algum. Estou em trânsito. E não há nada mais cansativo para alguém sem casa do que não ter uma casa para ficar. Deitar e dormir meses. Não seguidos, mas continuados. Nas últimas semanas eu dormi em tanta cama, colchão e sofá que tô pensando em criar uma nova categoria de turismo: as possibilidades de sonhos intranquilos na casa de amigos. Familiares também podem entrar no itinerário, até crush(s) e possíveis colegas de trabalho. O turismo do sono vai te levar a intranquilidades jamais imaginadas.

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Quando a gente dorme na casa de outra pessoa, nós acessamos o mundo imaginário íntimo daquele espaço. Não sei se você é o tipo de pessoa que sonha bastante, se sim, eu sinto muito por nós duas, mas se ao contrário, você não seja uma grande sonhadora, relaxe, pessoas comuns podem ativar sua capacidade de sonhar ao quebrar a rotina noturna.

O que nos acontece é exatamente isso: rotina. Ao termos uma casa, uma referência de segurança, o nosso cérebro se adequa ao ambiente e pode entrar em muitos estados de economia de energia. Um deles é este onde muita gente se encontra: dormir, acordar e não se lembrar dos seus próprios sonhos. Ao praticar o turismo do sono, se infringindo noites de desconforto, qualquer pessoa é impelida aos sonhos, especialmente os intranquilos.

Quando Kafka relatou o profícuo caso dos sonhos intranquilos de Gregor Samsa, a primeira coisa que nos deveria ter saltado aos olhos era ele se encontrar em sua casa, dormindo na sua própria cama. O detalhe de seu formato corporal alterado era secundário, afinal, que grande capacidade teve este personagem de praticar o turismo do sono em seu ambiente caseiro. Um vanguardista.

Além dele, temos um exemplo literário importantíssimo, apenas insinuado, jamais confirmado, n’O quarto de Jacob. Mais criteriosamente o título seria Os quartos de Jacob, pois foram alguns, marcando as fases de sua vida. O protagonista divide ao longo do relato de sua vida, não só a atenção da leitora com diversas mil outras personagens com nome e sobrenome, como também seu corpo migra de um quarto a outro sem que saibamos quais sonhos lhe são atribuídos. Muito cruel da parte de Virginia Woolf.

O turismo do sono é citado em muitas obras literárias clássicas, nas contemporâneas podemos citar: Nossa parte de noite da Mariana Enriquez, Os ratos de Dyonelio Machado e Contos ordinários de melancolia de Ruth Ducaso.

Não sei como tem sido nestes tempos inóspitos os romances, os contos, a poesia e as crônicas, porém espero que não percamos a oportunidade de sonhar, nem que seja intranquilamente. 


Nathallia Protazio é escritora e farmacêutica. Autora de Aqui dentro (Venas Abiertas, 2020) e Pela hora da morte (Jandaíra. 2022). Clique aqui e adquira seu exemplar direto com a autora.

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