Nathallia Protazio
Nathallia Protazio, escritora
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Diário da inundação IV – Livros

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Diário da inundação IV – Livros Foto: Eduardo Aigner

Os livros não são a minha vida, fazem parte dela. Tenho livro amuleto (Baratas, Scholastique Mukasonga); livro pet (Flush: Uma biografia, Virginia Woolf); livro sagrado (Tudo sobre o amor: novas perspectivas, bell hooks); livro decorativo (O poço das Marianas, Eliane Marques – tudo nele é lindo, até a crítica em forma de caderno extra); livro lembrança (Aqui dentro, Nathallia Protazio – sou eu mesma); livro didático (Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles); livro reencontro (Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez).

Nunca parei pra classificar todos que eu tinha na estante. Comecei 2024 com um intuito: ler o máximo de romances possível. É que nos últimos anos, à força de estudo e gosto, devorei muitos contos e crônicas. Narrativas curtas em geral. Este ano eu queria passar um tempo no universo romanesco.

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Assim se fez, depois da defesa da minha dissertação – meu ano novo em pleno abril – comecei a pôr em prática meu plano, que àquela altura já estava encharcado de desejo. Li Ruína y leveza, da amiga Julia Dantas. Nossa parte de noite, da futuro prêmio Nobel, Mariana Enriquez. Saí um pouco da nossa América e adentrei a Nigéria da Buchi Emecheta em As alegrias da maternidade. Voltei a Porto Alegre por indicação de um amigo ao ler o lançamento do Anderson Coelho: Batuques e Romances. Estava imersa no sexto capítulo d’O quarto de Jacob, de minha querida amiga Virginia Woolf, quando as águas foram anunciadas.

Antes das águas anunciadas da inundação

A espera das águas anunciadas da inundação

À vista das águas anunciadas da inundação

Aguardo as águas anunciadas da inundação

Sinto as águas anunciadas da inundação

Fujo das águas anunciadas da inundação

Amaldiçôo as águas anunciadas da inundação

até amar as águas anunciadas da inundação

e ser também água anunciada de inundação

As bombas de escoamento da DMAE foram desligadas e águas de recuo do esgoto inundaram os territórios onde se encontram a casa da Julia e a minha. No Menino Deus e na Cidade Baixa. Minha vida mudou bastante desde então, como a de quase todo mundo que mora no Rio Grande do Sul. Saí de casa carregando só o — já mencionado — Baratas da Mukasonga e, por alguma razão, um lampejo brilhou na mente: daqui a pouco volto pra pegar O quarto de Jacob.

Eu, que por pura paranoia, havia suspendido a casa até onde pude desde o dia anterior. Eu me achando muito desapegada, prática, fria. A pessoa que acha ser possível se preparar para uma enchente, para uma pandemia, para a vida. Eu, a negadora do fim do mundo – em todas as vezes – se enganando que voltaria buscar o livro de leitura atual. Tadinha. Nunca mais voltei ao meu apartamento da CB. Nunca mais.

Nunca mais vou dizer que as águas invadiram nossas casas, porque não se invade algo que já é seu. Elas inundaram. O nosso planeta é formado por águas e nós temos que reaprender a conviver com elas porque ele está mudando. Inundando. Estes pensamentos não são à toa, estou trabalhando muito meu ego de humana que morava na Cidade Baixa e achava que era dona de alguma coisa. Coitadinha. Estou aceitando dicas de livros climáticos. Categoria nova.


Nathallia Protazio é escritora e farmacêutica. Autora de Aqui dentro (Venas Abiertas, 2020) e Pela hora da morte (Jandaíra. 2022). Clique aqui e adquira seu exemplar direto com a autora.

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