Nathallia Protazio
Nathallia Protazio, escritora
Agora Vai

Diário da inundação V – O corpo e o caminho

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Diário da inundação V – O corpo e o caminho Foto: Natalia Henkin

A amiga escritora Gabriela Leal publicou que “É inevitável: depois de descobrir o corpo, o sujeito precisa descobrir o caminho”. A parte mais difícil: como alocar o corpo no mundo. Qual lugar da sala assumir, em qual cadeira, onde colocar as mãos, em que perna se apoiar. A roupa vai bem? Devia ter pegado uma jaqueta pra cobrir o contorno da silhueta. Se tivesse tido tempo, uma maquiagem, um brinco. Pequeno. Discreto.

Não me lembro de ter sido uma criança muito barulhenta e tive uma época de adolescência tímida, mas percebi que tentar se esconder às vezes tem o efeito contrário. Com esforço aprendi a não chamar atenção – quando queria. Minha cara ajuda. Nem bonita, nem feia. Nem branca, nem preta. Nem rica, nem pobre. Nem mal educada, nem refinada. Acho que foi São Paulo que me ensinou a arte de ser medíocre.

Porto Alegre me entregou de volta. Nem sempre de maneira fácil, algumas bem doloridas. Se você passar muito tempo negando o fato de ter um corpo, outras pessoas vão reivindicar posse. A descoberta do meu corpo como ferramenta de sobrevivência. E que corpo bonito. Minhas mãos. Amo minhas mãos, de trabalho e carinho. Amo minhas mãos como a meu cérebro. Adoro meu cérebro ágil, desperto e largo, em dias comuns. 

Também gosto dos meus cabelos, volumosos; meus pés e pulmões, grandes e resistentes; meus braços, longos e decididos; meus ouvidos, sensíveis e a testa, expressiva. Descobri um corpo bom de viver dentro, de conhecer por fora, de levar pra passear e deitar pra dormir gostoso. Não diria que a timidez combine com quem passou pelo processo de conhecer e apreciar o corpo que se é. Mesmo assim, não sou expansiva.

Uma nova forma de mediocridade, a de quem sabe ser e não precisa se importar com a exigência de excelência padronizada. Uma ilusão. A mediocridade de quem encontrou seu jeito de ser extraordinária na intimidade. Eu já soube como fazer isso. Eu já tive consciência do caminho, já vi o jeitão dele. Já bebi o luxo da vida cotidiana que só precisa de um bairro, de um pôr do sol e aquele sorriso de sempre.

O que, de maneira pragmática, chamamos de calamidade pública é uma abrupta morte da existência segura de corpo e caminho. A casa é a extensão do corpo. O lar construído dia a dia é a memória rotineira do caminho. Os rastro das escolhas pouco importantes que fazemos com sabor de feijão na boca. Um cheiro de alho, cominho e coentro. Uma canção do Tim Maia e as pequenas alegrias essenciais por, justamente, não provocar alvoroço.

As águas anunciadas da inundação levaram embora, o corpo e o caminho. 


Nathallia Protazio é escritora e farmacêutica. Autora de Aqui dentro (Venas Abiertas, 2020) e Pela hora da morte (Jandaíra. 2022). Clique aqui e adquira seu exemplar direto com a autora.

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