Nathallia Protazio
Nathallia Protazio, escritora
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Diário da inundação VI – As cadeiras

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Diário da inundação VI – As cadeiras Por do Sol em Porto Alegre, 1971. Foto: Rainer Ernst

Dizem que se ainda nos sentássemos nas calçadas a enchente não nos teria pego em tamanho assombro. De tardezinha, corpos esparramados numa daquelas cadeiras verdes azuis amareladas de sol, cordas de plástico marcando as carnes e a passagem dos dias. O antigo costume de olhar o tempo. Hábito perdido para a rede social. A presença da população nas beiradas de rua era um controle geográfico de exímia qualidade: tanto pra proteção de mulheres circulando sozinhas, quanto na antecipação dos humores de ventos e chuvas.

No bairro Cidade Baixa, mais especificamente na minha rua, Joaquim Nabuco, ainda existiam bravamente duas amazonas da antiga ordem. Dona Maricota e sua fiel escudeira, Sinha – que se escreve sem acento, com ênfase de paroxítona. Confesso, e isso sem nenhuma vergonha, que hoje em dia a cadeira das duas é de marca nobre, modelo de praia, em cores gritantes por litoral. Infelizmente, apesar de ter porto no nome, a praia fica longe da capital gaúcha e quem quer uma vitamina D tem de se contentar com alguma pracinha, a Redenção ou a calçada mesmo.

Dona Maricota e Sinha não perdiam nenhum laranja de tarde. Nos últimos tempos eu cruzava com as duas em plena contemplação de cenho franzido.

– Boa tarde, senhoras.

– Boa tarde, minha filha. – a resposta vinha sempre de Dona Maricota, pois como boa coadjuvante, Sinha não era de falar muito, se comunicava com um balanço de queixo.

– O verão tá castigando nosso sul esse ano.

– É verdade, filha, mas castigo ainda não é… espere a chuva chegar.

Demorei mais de mês para entender que quando chuva vem em castigo é enchente, e quando a enchente dura, chamamos de calamidade pública. Umas horas antes de sair de casa carregando o que salvaria do meu térreo, o bairro tava parecendo um formigueiro. Fomos todos evacuados a pé, com duas horas de dignidade antes da água de recuo do esgoto. Desligaram o sistema e ninguém sabia explicar sobre as bombas que explodiam nossas vidas do avesso em pleno sol. Que porra de enchente é essa que chega dias depois da chuva?

Já na casa da amiga que me alojou, escutei o prefeito pedindo pra quem puder, ir pra praia, descansem e deixem a cidade para fazermos o trabalho duro. Não se preocupem. Pedia. Bom prefeito esse. Pena que, assim como me faltava repertório para dar sentido a imagem do meu lar invadido pelo esgoto, minha mente também não entendia como alguém pode pedir calma enquanto faz absolutamente nada. Calma. A boa política brasileira, prezando nosso bem estar psíquico. 

Hoje, mais de mês desde a tal segunda-feira, a Cidade Baixa, apesar de tudo, parece voltar a alguma rotina. Ainda ontem vi Dona Maricota e sua Sinha arriscando um lugarzinho na calçada. Intrépidas guardiãs. Podem até confiar no nosso grande líder político, Sebastião Melo, mas estamos em ano de eleições municipais, todo cuidado é válido. Nosso bairro anda precisando de um milagre para se reconstruir e, mesmo o costume sendo velho como o tempo, as cadeiras são novas e coloridas, como nossas esperanças.


Nathallia Protazio é escritora e farmacêutica. Autora de Aqui dentro (Venas Abiertas, 2020) e Pela hora da morte (Jandaíra. 2022). Clique aqui e adquira seu exemplar direto com a autora.

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