Juremir Machado da Silva

A visão enviesada de Leite sobre as eleições francesas

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A visão enviesada de Leite sobre as eleições francesas Foto: Mauricio Tonetto / Secom

Sempre simpático, elegante e moderado, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, publicou vídeo atuando como comentarista político. Com todo o respeito que ele merece, parece que se sai melhor como governador. Leite analisa com leveza e fluência o resultado da eleição legislativa francesa. Louva a vitória do centro, que apresenta como o campo que mais cresceu do primeiro para o segundo turno. Uma velha anedota machista dizia que estatística é como biquíni, mostra tudo, menos o essencial. Afora uma polêmica sobre o que é o essencial, cada um faz o recorte que quer em relação a número eleitorais. Só não pode contrariar a realidade. O grande perdedor na França foi o centro.

O centrista Emmanuel Macron, presidente da França, dissolveu a Assembleia Nacional depois do triunfo da extrema direita nas eleições europeia. Apostou e perdeu. Por que perdeu? Simples: o centro encolheu de 250 deputados para 150. Só cresceu do primeiro para o segundo turno graças à retirada em seu favor, em 122 circunscrições, de candidaturas de esquerda, devolvendo a cortesia em 82 circunscrições, como estratégia para barrar a ascensão da extrema direita, que, mesmo chegando em terceiro lugar geral, quase dobrou a sua ocupação do parlamento francês, pulando de menos de 90 eleitos para 143. A esquerda aliada chegou na frente, mas o partido que fez mais votos, França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, caiu de 75 deputados para 71 representantes. O Partido Socialista saltou de 31 para 64 eleitos.

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Conclusões: a extrema direta perdeu, mas ganhou. Não para de crescer. Se não chegou ao poder, como imaginou, quase duplicou a sua força parlamentar. A esquerda ganhou, mas com sabor de empate, pois não fez maioria absoluta e para governar terá de compor com os macronistas. O centro, entendido na França como centro direita, tinha o presidente da República e o primeiro-ministro. Jogava de mão e dava as cartas. Não dará mais. Até poderá ter o primeiro-ministro se uma improvável composição com a esquerda aceitar essa cartada para evitar desgaste nos três anos antes da eleição presidencial. O centro tinha o poder total e não tem mais. Se há um vencedor parcial é o Partido Socialista, que parecia morto e ressuscitou, podendo até vir a fazer o primeiro-ministro. Eduardo Leite poderá dizer: eis o centro.

No caso, um centro esquerda, mais para PT do que para PSDB, enquanto a França Insubmissa está mais para PSOL. Depois das eleições do último domingo, a França está dividida em três campos quase do mesmo tamanho, mas enquanto esquerda e direita crescem, o centro cai. Durante a campanha os franceses não pararam de dizer que estão saturados da conversa mole de Macron, sempre em cima do muro, nem isso nem aquilo, mais ou menos, talvez, quem sabe, deixando claro que entendem mediano como medíocre, enfastiados desse caminho do meio que acaba por favorecer os mais ricos. Franceses, ao contrário de brasileiros, que engolem reformas da previdência quase passivamente, não deixam barato e esperneiam antes, durante e depois. Macron ficará marcado por ter elevado a idade da aposentadoria, que havia baixado anteriormente. Tomou um laço em grande parte por causa dessa medida.

Em português popular, o centrismo de Macron encheu as medidas francesas. Se somar todos os votos da esquerda e da direita raiz dá 401 em 577. Foi o centro quem ganhou? O centro capaz de encantar Eduardo Leite? Acho que o recorte acabou por cortar a realidade. É incrível como nossos olhos podem escolher o que o nosso coração pede.

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