Juremir Machado da Silva

Antivax

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Antivax Recentemente, o tenista Novak Djokovic foi impedido de disputar o Australian Open pois não se vacinou (Foto: Peter Menzel)

Encontrei um marciano. Fiquei impressionado: ele não é verde. Parece um de nós. Como sei que era, de fato, um marciano? Bem, graças a um procedimento simples: ele se apresentou. Além disso, não interessa provar que era um marciano. Façamos um contrato de leitura. Eu digo que ele era marciano e o leitor acredita para a crônica poder andar. Alguém fica exigindo provas de Kafka de que Gregor Samsa acordou transformado num inseto, uma barata, entre nós, embora essa definição não seja tão precisa na história? Era um marciano. Ponto. Ele me fez uma pergunta direta, como fazem todos os marcianos:

– Por que alguém recusa a vacina contra o coronavírus?

Tentei esboçar uma resposta. Percebi que sou incapaz de explicar algo tão aberrante. O marciano tinha dados sobre mortes por coronavírus, efeitos colaterais da vacina, internações e tudo mais.

– Só há uma explicação para rejeitar a vacina: burrice – falou.


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Marcianos falam alto. Muita gente ouviu. Fiquei com medo de alguma agressão. O marciano não parecia preocupado. Não sabia que marcianos recorrem a adjetivos com facilidade. Veio uma saraivada (nada a ver com aquele simpático comentarista de futebol da RBS-TV):

– Não querer tomar vacina é burrice, estupidez, ignorância, idiotice.

– Bah! 


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– Estimular pessoas a não tomar vacina é irresponsabilidade, politicagem barata à custa da vida alheia, canalhice, crime.

– Se fosse em Marte, o que aconteceria? – ousei perguntar.

– Em Marte a vacinação seria obrigatória, pois aplicamos o princípio do dano de John Stuart Mill. A sociedade tem o direito de restringir liberdades individuais ou de impor medidas quando a ação, ou inação, de alguém pode representar perigo a terceiro. Autoridade que expõe a vida dos outros, contrariando a ciência, perde o cargo e vai em cana.

– Então vocês leem Mill em Marte?

– Claro. É leitura obrigatória desde o ensino médio.

– Mill e quem mais?

– Marx.

– Marx também?

– É o que Mill ensina: a importância do contraditório.

Fiquei impressionado. Pedi para o Marciano falar mais baixo, pois um cara de amarelo começou a se mexer perigosamente na cadeira.

– Falar mais baixo? Por que mesmo? Criticar antivax, em Marte, recebe aplausos. Felizmente eles estão desaparecendo. A educação funciona.

Percebi o quanto sou reprimido. Fiquei com medo de um rolo. Ando com muito medo de tretas. Acho que deve ser o efeito da tal polarização. O marciano estava livre, leve e solto. Meteu um discurso sobre iluminismo, tipo textão no Facebook. Largou uma que me arrepiou:

– Não querer tomar vacina é coisa de quem extraviou o cérebro.

– Mas pode não tomar vacina em Marte?

– Pode. Só não tem o direito de sair de casa.

O cara de amarelo não se aguentou:

– Então Marte é uma ditadura?

O marciano riu. Um riso franco de dentes muitos brancos. Temi que ele perdesse tão bela dentadura depois de uma possível resposta inadequada para os padrões do seu incomodado interlocutor: 

– Não. Marte é apenas um lugar habitado por seres racionais.

Fechou o tempo.

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