Juremir Machado da Silva

Bard, Threads e escolas cívico-militares

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Bard, Threads e escolas cívico-militares Foto: Julio Lopez/Unsplash

Acordar cedo e ler o que rola na mídia, depois de um vendaval, pode balançar a pessoa. Fiz isso e quis voltar para a cama. Era tarde. Chegou ao Brasil o Bard, inteligência artificial do Google, para concorrer com o GPT. O criador avisa que, nesta fase experimental, a criatura pode alucinar. O GPT alucinou tanto que acusou um médico de mais de cem assédios quando, na verdade, o profissional trabalhava com casos de pessoas assediadas. Está tomando processo. O Bard fará tudo o que o GPT faz e quase tudo que uma pessoa faz, especialmente o que exigiria dela algum esforço intelectual ou de pesquisa. Graças à inteligência artificial poderemos ser naturalmente menos informados a partir de agora. Para que carregar a cabeça com dados inúteis?

Chegou também o Threads, aplicativo de Mark Zuckerberg, dono do Meta, leia-se Facebook, Instagram e WhatsApp, para enfrentar o Twitter de Elon Musk. Podia ter um nome mais universalmente pronunciável. Vem com uma pegadinha. Quem quiser sair, derruba o Instagram junto. O Face tornou-se um depósito ativo de participações de óbitos, de cães a humanos. O Insta, a mais mal desenhada ferramenta da história das redes sociais, mas nem por isso menos bem-sucedida, representa o universo da egolatria triunfante. O Twitter de Musk virou um estádio de futebol onde torcidas organizadas se matam enroladas nas suas bandeiras. Está na hora, por óbvio, de recomeçar. Ainda há tempo?

E o que tudo isso tem a ver com escolas cívico-militares? Tudo e nada. O tudo corre por conta das associações livres e do vínculo com a ideia de doutrinação. Nada mais doutrinador e ideológico do que essas escolas patrulhadas por militares da reserva ganhando complementos salariais maiores do que as remunerações miseráveis dos professores. Esse tipo de estabelecimento encarnou o pior da distopia bolsonarista sob a pretensa forma de projeto pedagógico formatado para domesticar alunos insubmissos. Educação pela disciplina de quartel. Na prática, foi um atalho inventado para o capitão Bolsonaro mobilizar sua tropa de reserva e dar-lhe mimos salariais que ela não teria de onde tirar.

O mundo se move. Já pensava algo assim certo Galileu Galilei, que teria dificuldades de progredir em escola cívico-militar por não ter tendência a respeitar dogmas. A humanidade avança para a sua obsolescência mais ou mais programada. Vai rindo, vai cantando, sem pensar em nada. Sabe que está a um passo de ser livre. Para que mesmo? Para postar nas redes sociais de sua preferência. Poderá postar com a “sabedoria” de Tiago Leifert para quem a morte de uma guria de 23 anos, atingida pelo estilhaço de uma garrafa, na porta do estádio do Palmeiras, é chover no molhado, pois a vítima participava de uma torcida organizada. Do alto da sua antipatia, Leiferf filosofou: quem vai na chuva é pra se molhar. A isso se chamava fazedor de opinião. Hoje, é influencer. O Threads já tem cem milhões de participantes.

Jair Bolsonaro já está lá. Já posso voltar para a cama.

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