Juremir Machado da Silva

Binarismo ideológico e no futebol

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Binarismo ideológico e no futebol Reprodução Band TV

Nunca se contestou tanto o chamado binarismo. Na sexualidade ser binário equivale a ser antigo, careta, tão antigo quanto a gíria careta. Os não-binários podem, enfim, dizer que existem e existir no centro do palco, ainda que escandalizem os binários mais binários e choquem os bolsonaristas, que são binários por ideologia. Binário é homem e mulher e se acabou. Na pós-modernidade, se ela ainda está por aí, ser binário é continuar no isto ou aquilo quando se pode ser isto e aquilo. A modernidade sempre foi binária. Artistas têm tendência para romper com o binarismo. A crítica ao binarismo permite ver uma infinidade de gêneros que antes eram “naturalmente” invisíveis.

O binarismo resiste em ideologia e no futebol. Digo em ideologia, pois em política a troca é a regra. José Luís Datena, aquele apresentador de televisão intragável, está no décimo primeiro partido sem jamais ter concorrido a uma eleição. Foi do PT ao PP e agora está no PSDB. É não binário? Não. É cara de pau mesmo. Vivemos a era das identidades fluidas. Michel Maffesoli fala em passagem das identidades duras às identificações livres. Zigmunt Bauman usava expressões como “modernidade líquida”, identidades líquidas. Em contrapartida, com bem percebe Gilles Lipovetsky, opostos convivem: a fluidez das identificações choca-se com a dureza do identitarismo.

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O binarismo ideológico faz estragos no Brasil com o nome de polarização. Bolsonarismo versus petismo. Vários partidos exibem fachadas próprias, mas na hora da tomografia revelam corpo e alma bolsonaristas ou petistas (de esquerda). Tudo precisa ser declinado em termos de esquerda e direita. Até uma tragédia climática. O bolsonarismo dominou as redes sociais durante as enchentes no Rio Grande do Sul com um mote calhorda que rapidamente se propagou: civil salva civil. Sociedade civil X Estado. Em Porto Alegre, a esquerda agarrou-se à bandeira do “faltou manutenção” (faltou mesmo); a direita foi de “choveu mais do que o sistema poderia suportar”. Às vezes, a lógica atrapalhava o raciocínio: por que as casas de bombas tiveram de ser desligadas? Porque encheu de água. Por que encheu de água? Porque as casas de bombas tiveram de ser desligadas. Cachorro atrás do rabo.

      Só o futebol é tão identitário e binário quanto a ideologia. Futebol é ideologia. Só se pode ser Grêmio ou Internacional. Jamais Grêmio e Internacional. Muito menos passar de um a outro. Eu já passei. Tive meus dias de gremista. Sou não binário esportivamente falando. Do ponto de vista ideológico já fui rotulado de direitista pela esquerda. Agora sou classificado de esquerdista pela direita. Do meu ponto de vista tudo é bem diferente: eu não pertenço a ninguém.

O binarismo ideológico anda apavorando a Europa. Na França, extrema direita e esquerda vão brigar nas urnas em 7 de julho pelo futuro do país O macronismo sonhava em continua fazendo o meio-campo. Não binário em cima do muro. Afundou. O eleitorado binário não suporta indefinição. É isto ou aquilo. Depois, dependendo do jogo, precisa-se juntar opostos não tão opostos para ocupar os postos de comando. O binarismo ideológico é a doença senil do capitalismo das redes sociais.

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