Juremir Machado da Silva

Chico Buarque 80.0

Change Size Text
Chico Buarque 80.0 Foto: Rennan Teixeira / Focka

Ah, se já perdemos a noção dos versos, se te ouvindo já jogamos tudo fora, nos conta agora com que letras e músicas haveremos de partir. Num dos momentos mais graves da minha vida, sabendo que seria demitido da Rádio Guaíba depois de apresentar a edição do Esfera Pública da sexta-feira, 27 de agosto de 2020, rodei para fechar um ciclo de radialismo bem-sucedido a clássica e incontornável Apesar de você. Podia imaginar o bolsonarista que havia assumido a condição de chefe ouvindo a provocação e gozando sua vitória provisória. Tudo que eu queria dizer e tudo que eu sofria e sofreria estava nessa letra simples e genial que não pude rodar inteira:

Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia
Amanhã vai ser outro dia

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etecetera e tal
Lá lá lá lá laiá

O tempo passou, o outro dia chegou, quem mandava dançou, se deu mal, o jardim floresceu, se ainda não é paraíso, deixou de ser o inferno que era, o galo cantou sem ninguém proibir, o céu clareou, a manhã renasceu esbanjando poesia, estamos cobrando com juros a desfeita, a censura, a grossura, a loucura, a estupidez, o negacionismo, o invencionismo, a boca calada na calada da tarde, o grito contido, a verdade reprimida, o sofrimento gerado, a solidão festejada, sem olhar para o chão, sem andar de lado, olhando no olho nos encontros casuais, sem enorme euforia, mas com alegria, sem a tristeza inventada, sem exceção no estado, num estado de renascimento por ser outro dia, golpe duro no golpe tramado na escuridão.

Chico Buarque é o maior poeta brasileiro vivo. As suas letras ficam lindas com música, mas podem resistir no silêncio das leituras sem som. Eu sempre cantarolei silenciosamente, que sou desafinado Hino de Duran:

Se tu falas muitas palavras sutis
Se gostas de senhas, sussurros, ardis
A lei tem ouvidos pra te delatar
Nas pedras do teu próprio lar

Se trazes no bolso a contravenção
Muambas, baganas e nem um tostão
A lei te vigia, bandido infeliz
Com seus olhos de raios X

Se vives nas sombras, frequentas porões
Se tramas assaltos ou revoluções
A lei te procura amanhã de manhã
Com seu faro de doberman

E se definitivamente a sociedade
Só te tem desprezo e horror
E mesmo nas galeras és nocivo
És um estorvo, és um tumor
A lei fecha o livro, te pregam na cruz
Depois chamam os urubus

E se pensas que burlas as normas penais
Insuflas, agitas e gritas demais
A lei logo vai te abraçar infrator
Com seus braços de estivador

Se pensas que pensas
Estás redondamente enganado
E como já disse, o Dr. Eiras
Que vem chegando aí
Junto com o delegado
Pra te levar

E assim, graças a esse cidadão genial de 80 anos, o mais coerente, o menos faminto de visibilidade, temos com o que nos consolar quando a repressão vai nos buscar ou nos cortar a voz. Então, a gente canta, amanhã vai ser outro dia, apesar de vocês que nos fazem chorar. Eu pergunto a vocês, onde estão se escondendo da enorme alegria que nos faz rir?

Tambor tribal

Glau Barros cantando As time goes by

Glau Barros canta muito. Ouvi-la, no Fon Fon, cantando As time goes by, música fetiche de Casablanca, um dos melhores filmes de todos os tempos, é de arrepiar (veja aqui). Quem ainda não ouviu, não perca o próximo show.

Poeta paraense chora as vítimas do RS

Um dos maiores poetas brasileiros, voz da Amazônia, João Jesus Paes Loureiro, meu colega de doutorado em Paris, me enviou um triste e belo poema sobre a tragédia climática que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. Escute aqui.

Feira do Livro do Instituto Ling

Um sucesso a Feira do Livro da retomada depois das enchentes realizada no Instituto Ling. Teve conversa entre Martha Medeiros e Carla Madeira (virtual), palestra em auditório lotado de Eduardo Bueno, presença de ex-prefeitos como José Fogaça e principalmente editores satisfeitos com as vendas. É provável que a ideia pegue e o evento se repita a cada ano.

Parêntese da semana   

“Parêntese #230: Uberização e digitalização”. Luís Augusto Fischer vai direto ao ponto: “Conversa com gente de fora daqui, mais uma vez, me propõe a pergunta incômoda: como é que na terra da suposta virtude política, com uma larga tradição de participação popular e governos com atenção aos de baixo – desde os tempos da Primeira República, passando pelo Trabalhismo espalhando escolas por toda parte, até os governos de centro esquerda dos anos 1990 e 2000 – se criou uma situação como a de agora, em que a direita menos ilustrada e a extrema direita jogam de mão?”

Frase do Noites

O repressor conta com o teu silêncio prudente para que ele se sinta confortável sem precisar te ameaçar mais de uma vez ou te cortar a língua.

Imagens e imaginários

No Pensando Bem, que vai ar todo sábado, 9 horas, na FM Cultura, 107,7, em parceria com a Matinal, a revista Parêntese e a Cubo Play, e apoio da Adufrgs Sindical, Nando Gross e eu entrevistamos o psiquiatra Nélio Tombini, autor do livro A arte de ser infeliz. Uma conversa sobre vida, alegria, valores, redes sociais, solidão interativa e afetos.

Escuta essa

Para ver e ouvir sem nunca cansar. Chico Buarque, Apesar de você:

Hino de Duran:

RELACIONADAS

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.