Juremir Machado da Silva

Diário da enchente

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Diário da enchente Cerca de plástico em Eldorado/foto de Philippe Joron

Durante um mês andamos, Cláudia e eu, pela cidade em busca das histórias sobre a grande inundação, a que entrará para a História como a grande enchente de 2024. Eu queria ouvir as pessoas para quem sabe ajudar como minha escuta e com o meu jornalismo modesto. Palmilhamos o centro de Porto Alegre, fomos até a borda do Gasômetro, antes e depois da barricada na altura da ponta do Riachuelo, andamos pela Cidade Baixa com vários níveis de água, trilhamos o que era possível no Menino Deus, aonde voltamos para ver o pós-ligação das bombas salvadoras, subimos o morro Santa Tereza para ver o Guaíba lá de cima, o Marinha do Brasil, o Beira-Rio e seu CT na área desprotegida, partimos para a zona norte, onde vimos o querido Sarandi submerso. Num domingo de manhã, Luís Gomes e eu fomos examinar o largo da rodoviária, onde a passarela já não existia e uma sobrepista havia sido construída às pressas como “corredor de ajuda humanitária”.

Passamos horas num quase porto improvisado numa esquina da Cairu, de onde barcos partiam para lonjuras alagadas do Humaitá e de Navegantes. Ancoramos uma tarde em São Geraldo, na Guido Mondin, para conversar com empresários, moradores do bairro e gente empenhada no resgate dos últimos isolados ou renitentes à ideia de sair. Voltamos num sábado a esse ponto para, com Diego e Lauro, dois heróis discretos e persistentes, navegar por águas nunca antes imaginadas formando grandes canais nas avenidas Farrapos e São Pedro. Passamos por cenários de desolação ou de uma quase estranha beleza, como a avenida Polônia com suas árvores nas duas calçadas e suas águas reluzentes.

Fiz matéria sobre os grandes estragos da Pão dos Pobres, instituição centenária de grandes serviços aos mais vulneráveis. Entrevistei, com Nando Gross, os ambientalistas Beto Moesch e Francisco Milanez, que nos deram o mapa dos erros cometidos, assim como a arquiteta e urbanista Lígia Bergamaschi Botta, que viu o sistema de proteção de Porto Alegre ser construído, inclusive o muro da Mauá, e constatou, ao longo dos anos, a sua falta de manutenção. Conversamos também com Fernando Fan, do IPH/UFRGS, e com Vicente Rauber, ex-diretor do DEP e duro crítico da negligência da prefeitura de Porto Alegre. Ouvi editores, professores e artistas sobre os estragos na educação e na cultura. Conversei com flagelados, com brigadiano, com pessoas aflitas ou incrivelmente tranquilas.

Depois, com nosso amigo taxista Everaldo, fui buscar o colega francês Philippe Joron em Osório. Juntos, fomos a São Leopoldo, a Eldorado do Sul e ao extremo sul da capital. Fui bem recebido a maior parte do tempo. Percebi, em alguns casos, desconfiança em relação ao jornalismo, algo forjado nestes anos de polarização política extrema. Na maior parte das vezes colhemos perplexidade e dúvida: “E agora?”

Digo tudo isso pela razão que apresento agora: há tanta solidariedade, tanta gente boa pela cidade, que chega a comover. Ao mesmo tempo, tanta carência, tanto problema, tanta desesperança. Paradoxalmente, em meio à falta de expectativa em relação aos gestores, uma determinação gigantesca para ajuda o próximo. Não estou falando daquele comportamento antipolítico típico do bolsonarismo atual, mas da impressão de muitos de que, mesmo nas horas mais trágicas, se fará política sem grandeza, com oportunismo e cálculo. No mais das vezes, porém, as conversas esqueciam a política e estendiam-se sobre a força da ajuda mútua, da cooperação e do vínculo social.

O Estado está fazendo a sua parte depois do pior acontecido. A população arregaçou as mangas e dá show de solidariedade. Nenhuma parte pode prescindir da outra. Precisamos de gestão pública que faça o dever de casa, garantindo manutenção de equipamentos, e da sociedade conectada e vigilante como tem se mostrado nesta tragédia. Orgulho é ver, em níveis diferentes, jornalismo feito com esmero e conteúdo. A imprensa voltou a falar sério e a estar em todos os lugares.

Matinal tem feito a sua parte com matérias investigativas de primeira linha. Jornalismo é um dever.

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