Juremir Machado da Silva

Dívida portuguesa com a escravidão

Change Size Text
Dívida portuguesa com a escravidão

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, surpreendeu o mundo ao declarar que Portugal deve pagar reparação pelo seu papel na escravidão de africanos. A direita portuguesa não gostou. Deve ainda se orgulhar de suas glórias coloniais. Portugal foi protagonista no sequestro e transporte de mais de seis milhões de africanos como escravizados para a América. O Brasil foi o principal porto de destino dessa infâmia legalizada nos menores detalhes. Se Portugal for pagar por tudo o que fez, vende o país e ainda fica devendo para a África. O Brasil precisa ajudar a saldar a dívida, pois foi parceiro no empreendimento. Depois da independência brasileira, em 1822, o tráfico continuou, ainda que proibido, por lei para inglês ver, em 1822.

A malandragem brasileira produziu lucros até a última gota. Sempre gosto de contar a história do senador Belisário, que apresento em meu livro Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social (Civilização Brasileira, 2017):

“Se Paulino de Sousa e Cotegipe eram carrancas de proa, Francisco Belisário Soares de Sousa, primo de Paulino – ambos nascidos em Itaboraí, no Rio de Janeiro –, não deixava de ter destaque como operador ideológico de sua classe social. Em um tempo de baixa especialização, ele abraçou três atividades aparentemente incompatíveis, mas igualmente desafiadoras. Foi jornalista, banqueiro e político. Em todas elas, defendeu a escravidão e seus interesses muito particulares. Como político, foi deputado provincial, deputado geral, senador e ministro da Fazenda. Dirigiu o Banco do Brasil. Comandou a pasta da Fazenda quando Cotegipe chefiava o governo.”

“As relações de interesse econômico e ideológico entrelaçavam-se fácil e seguidamente com as relações familiares. A Corte era uma linha de corte. Separava nitidamente os donos do poder dos súditos distantes do imperador. Belisário esteve no Senado por rápidos dois anos. Morreu em 24 de setembro de 1889. Não consta que tenha lamentado seu voto contra a abolição. Nem o justificado. O que poderia dizer de convincente? Sua biografia ficou marcada por haver hipotecado seus escravos e terras ao Banco do Brasil pouco antes da abolição.”

“Detentor de informações privilegiadas e conhecedor da situação em que o país se encontrava, não hesitou em ‘antecipar’ sua indenização. Foi denunciado pelo combativo José do Patrocínio. Teria sido diretamente beneficiado pelo artifício legal que considerou o município-neutro, a capital do país, parte do Rio de Janeiro, garantindo a transferência de escravos sem a restrição ao tráfico interprovincial. Sua contribuição mais positiva ao país foi um livro sobre o sistema eleitoral brasileiro no Império, publicado em 1872, no qual falava do “fósforo”, o eleitor que votava no lugar de outro em uma situação de fraude permanente”. Assim foi. Fortunas construídas no Brasil no sistema escravistas e que ainda se perpetuam, de geração em geração, precisam ajudar Portugal no pagamento da dívida com a África.

RELACIONADAS

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.