Juremir Machado da Silva

Edgar Morin, o mestre de 103 anos de idade

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Edgar Morin, o mestre de 103 anos de idade Ouvindo atentamente o mestre Edgar Morin, Montpellier, 2023./Foto de Ana Claudia Rodrigues

Traduzi quatro volumes de O método, de Edgar Morin. Organizei ou intermediei muitas viagens dele ao Brasil. Fiz doze entrevistas formais com ele. Escrevi dezenas de artigos jornalísticos ou acadêmicos sobre a vasta obra dele. Nesta segunda-feira, 8 de julho, ele festejou 103 anos de idade, com festa no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, dirigido pelo velho amigo Jack Lang. Republico aqui um dos tantos textos que escrevi sobre ele, cuja atualidade me espanta. O tempo passa, Morin continua atual.

Edgar Nahoum nasceu em 1921. Durante a ocupação de Paris pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial, foi para a clandestinidade, com o nome de Edgar Morin, lutar contra os invasores. Judeu, órfão de mãe aos dez anos de idade, cresceu no bairro popular de Ménilmontant, na capital francesa, exposto a salutar influência de múltiplas culturas. Toda a extensa obra dele, como sociólogo, antropólogo, epistemólogo, pensador, ocupa-se, na impossibilidade do melhor dos mundos, de um mundo melhor para os homens. Em certo sentido, é da felicidade que ele trata mesmo quando fala de ciência, conhecimento, política e cultura. Quem lê os seis volumes de O Método, O homem e a morte, O cinema ou o homem imaginário, As estrelas, O espírito do tempo, Terra-Pátria, Meus demônios ou qualquer um dos seus livros sente a pulsação do humanista.

Influenciado por Pascal, dono de uma cultura imensa, Edgar Morin concebeu uma teoria da complexidade cuja ideia central é juntar, em lugar de separar, para conhecer. Certo. Ótimo. Mas o que é a felicidade para ele? Em O Método 5, a humanidade da humanidade, Morin sintetiza: “O indivíduo aspira a viver plenamente a sua vida. Finalidades individuais desenvolveram-se ao longo da história: felicidade, amor, bem-estar, ação, contemplação, conhecimento, poder, aventura”. Quem pode negar que ainda somos assim? Como diria uma canção famosa, é sempre a mesma história, a luta pelo amor e pela glória. A luta pela felicidade, pelo sentir-se bem, pela realização.

Defensor de uma perspectiva generosa da aventura humana, que não aceita reduzir à luta de classes ou a qualquer explicação única, Edgar Morin entende que na busca da felicidade o ser humano compete e coopera. Estamos soltos no mundo. Buscamos amarras. Produzimos sentidos. Fabricamos imaginários. Apostamos, temos esperanças, sonhamos, iludimo-nos, deliramos, alcançamos, às vezes, um estado de graça. É ainda em O Método 5 que o velho sábio diz: “O êxtase é o máximo de realização de si e de superação de si, da fusão bem-sucedida de si com outro ou com o mundo, da felicidade da comunhão. É o paroxismo existencial, a realização extrema e a verdade suprema do estado poético”. Não há felicidade sem poesia. A felicidade é a poesia na vida. Nas suas palestras, Morin fala da felicidade com emoção.

Quem somos? O que queremos? Ele ensina: “O ser humano não vive só de racionalidade e de instrumentos; gasta-se, dá-se, entrega-se nas danças, transes, mitos, magias, ritos, crê nas virtudes do sacrifício”. Somos mais do que racionais: “As atividades do jogo, de festa, de rito, não são simples distrações para se recuperar com vistas à vida prática ou do trabalho”. Método não é caminho. É caminhada: “A felicidade constitui, certamente, a plenitude da vida”. Quem não sente assim? “Não há, talvez, uma felicidade imperiosa subordinando todas as outras, a não ser a que cada um pode eleger conforme o seu sentimento ou ideia própria”. Haveria tanta citação a fazer. Melhor parar. A trilha está indicada. É preciso caminhar.

Aprender a sonhar

Sem sonho não há realidade para os desejos humanos. Em Terra-Pátria, Morin dá uma lição de perseverança: se estamos perdidos, eis uma boa razão para nos darmos as mãos. Se temos medo, mais uma razão para nos aliarmos com os nossos próximos. Se uma utopia se apaga, razão a mais para uma nova aventura de esperança e amor. Morin considera o amor uma categoria importante da vida humana. As humanidades precisam ter a coragem de falar de amor e felicidade.

Se estamos tristes, eis um bom motivo para buscarmos alegria no outro: “Ninguém vive sem projeções relativas ao devir ainda que seja em nome de seus próprios filhos. A angústia do futuro torna-se um sofrimento do presente”. Não podemos ser felizes ignorando nossa singularidade: “Somos seres de raízes e de mudança, de comunidades e de universalização. Quando o futuro está doente, acaba ocorrendo um retorno ao passado”. Ficamos sem presente. Se não existe receita de felicidade, há aprendizados fundamentais: “Nossa tarefa é construir um novo futuro, diferente daquele que faliu: um futuro da consciência e da vontade. O amanhã não será oferecido pela história”. A felicidade, por mais individual que seja, não deixa de ser um projeto coletivo ou de depender de contextos sociais, escolhas e construções políticas.

Ser feliz é tudo o que se quer. Mas não se pode querer sozinho o que depende de outros num cruzamento complexo de vontades e desejos, de ambições e obstáculos. Se feliz é se abrir ao outro, cultivar a generosidade, semear esperanças, regar amizades, plantar afetos, ampliar horizontes, abrir portas, construir pontes, descobrir as alegrias mesmo pequenas do cotidiano, não se negar banhos de lua, de chuva, de sol e de poesia frugal, natural ou cinzelada pelos grandes poetas, além de admitir nossa condição de homo faber, ludens e demens. Saber que não podemos nos limitar à aridez da razão que, no extremo, transforma-se em racionalismo, um efeito perverso devastador. Ser feliz é talvez apenas ousar fazer da vida o melhor projeto pessoal.

Aos 103 anos, Morin prega uma nova resistência contra o fascismo.

Continua o mesmo rebelde que rompeu com o Partido Comunista Francês por não quer mentir sobre o stalisnimo.

Primeira vez de Morin (de chapéu) e Maffesoli em Porto Alegre, 1993. Na foto, entre outros, Esther Grossi e Fernando Schuler
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