Juremir Machado da Silva

Elza, a voz da eternidade

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Elza, a voz da eternidade Elza Soares. Foto: PressPass/Divulgação

Aos 91 anos de idade, a mulher apagou-se. A sua voz, porém, nunca se extinguirá. Elza Soares ficará como a artista que nunca parou de se transformar. A sua voz singular serviu a várias causas: da beleza musical ao combate à ditadura midiático-civil-militar de 1964, quando precisou se exilar, com o craque Garrincha, o amor da sua vida, na Itália. Mais do que tudo, ao longo de sete décadas de arte, ela fez da sua voz rascante um instrumento para lutar contra a violência masculina, em favor dos direitos dos excluídos, dos perseguidos, dos maltratados, dos sacaneados, dos pisoteados, das vítimas dos preconceitos diversos que andam por aí, do racismo à homofobia.

Em tempos de polêmicas sob medida para ganhar visualizações e provocar barulho, na qual o insidioso conceito de racismo reverso volta com nova embalagem e velhas concepções, Elza Soares ressoa como uma mensagem direta: não a todas as mentiras. A menina negra de voz inconfundível e balanço do corpo moldado carregando latas de água na cabeça foi da Vila Vintém a Saint-Tropez, como diz a canção, fazendo história. Ela será sempre o Brasil subindo a ladeira, o Brasil que deslumbra o mundo pela criatividade, pelo talento e pela generosidade. Pena que um outro Brasil, o do nosso dia a dia, continua a produzir miséria, desigualdade, tristeza, preconceito, fome e desesperança.

Sublime Elza, irreverente, incontrolável, indomável, metamorfose ambulante, construção e desconstrução, mito e desmitificação, pré-moderna, moderna, pós-moderna, hipermoderna, dando a volta por cima, caindo onde outros também cairiam, mas ficariam por terra, ela fez de si mesma um projeto de revolução, dessas revoluções cotidianas que alternam erupções vulcânicas e dias calmos, até chorar ou cantar. Em “Elza”, biografia da artista escrita pelo jornalista Zeca Camargo, fica-se sabendo que ele jamais esqueceu cada percalço, cada triunfo, cada detalhe: São Jorge, em aparição que a marcaria, teria dito que ela apanharia mais da vida que do pai, esse pai que a casou aos 13 anos de idade por suspeitar de um estupro que, segundo ela, não acontecera, nada mais sendo do que uma briga bizarra com um menino.

Para Elza não existiu conflito de gerações: dos mais velhos aos mais jovens, admiradores não lhe faltaram. Certamente pelo fato de que transcendia ao tempo, ignorando datas, reinventando-se por sentir necessidade de mudar para ser a mesma, a mulher corajosa e de coração franco, aquela que não temia amar homem mais jovem, nem se sentia culpada pelas consequências do amor. Garrincha e Elza foram talvez o casal mais talentoso da história do Brasil, a união tempestuosa de dois gênios. Nunca é demais lembrar que os maiores nomes da cultura brasileira eram negros: Aleijadinho, Machado de Assis, Lima Barreto, Pelé, Garrincha, Cartola, Elza Soares. O Rio Grande do Sul tem Lupicínio Rodrigues para reforçar o ataque. O leitor atento completará a lista. Poderá também discordar. O fim de semana oferece tempo para quem quiser encontrar nomes que superem amplamente essa escalação. Se neste mundo terreno, onde tantas males a atingiram, Elza Soares foi a voz do milênio, em novo plano só poderá ser a voz da eternidade.


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