Juremir Machado da Silva

Então chegou a hora

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Então chegou a hora Foto: Cottonbro/Pexels
A cultura, tal que ela foi concebida algum dia, está chegando ao fim. Por cultura se entendia a civilização da escrita, do impresso e da arte. A escrita poderia sobreviver ao impresso, mas não é isso que desponta no horizonte. Ainda que se escreva muito na internet, o poder da escrita está em declínio, substituído pela civilização da imagem e do som. O livro já não é um suporte privilegiado nem um meio de transmissão singular de informações. Tornou-se um registro, um modo entre outros de usar a palavra. O destino do livro é o mesmo do vinil: objetos de coleção. Como se diz hoje, nichado. Nostalgia? Apocalipse? Sim, o apocalipse é o anúncio do novo. Os jornais impressos vão desaparecer em poucos anos. Dez? Quinze? Eles já não passam de um produto geracional, nichado para os acima de 50 anos de idade. De fato, economicamente não fazem qualquer sentido. Para que imprimir notícia velha, do dia anterior, e mandar de caminhão para lugares onde ela chegou no exato momento em que aconteceu, sem gastar papel, tinta e combustível? Progresso ou retrocesso? Os dois ao mesmo tempo. A leitura de textos lineares exige um investimento cognitivo único. Nada é entregue pronto. É preciso imaginar, completar, deduzir, digerir, articular. Cada época com as suas tecnologias e as suas potencialidades. O mundo da reflexão chega ao seu ocaso, substituído pelo tempo da aceleração e da pegada. Publicidade Novo tempo, tempo de extremos. Na política, os extremismos triunfarão. A reflexão e a leitura reduzem a pressão do imediato, transformando a pressa em produto secundário, desinflando bolhas e neutralizando crises. Nada menos adequado ao atual. O influenciador contagia sem profundidade nem indução ao diálogo. Nunca se teve um influenciado tão passivo e tão submisso. A era da verdade morre com um suspiro, cedendo lugar à opinião, direito subjetivo de cada um elevado à categoria de única verdade possível. A cada um de acordo com a sua opinião. Falar em verdade objetiva equivale a crime de lesa individualidade. O mundo existe? Depende do ponto de vista de cada um. O que é existir? O que é mundo? Convenções. O que são convenções? Convenções. A Terra é plana? Não, fake news. Mas tudo não depende da opinião de cada um? Depende. De que mesmo? Da conveniência do argumento. Então existe verdade? Depende. De que mesmo? De quem a emite. Um mundo se acabou. Não era doce. Tampouco era amargo. Ele era feito de poesia, utopia, verdade, expectativa de um futuro melhor, uma ideia de compartilhamento, um projeto de vida. A realidade era quase sempre outra. Não é mais. Restará aos inconformados o exílio em retiros culturais feitos de resistência e antimodernidade. O futuro de muitos será o passado como miragem e fotografia. Um mundo sépia. Bobagem? Futurologia de quinta categoria? Sim e não. Sim, só não vê quem usa as lentes do novo que sempre vence. Não, o amanhã sempre é melhor do que o ontem. Confusão generalizada. Acabou-se. Amanheci em surto pessimista? Nada disso. Apenas […]

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