Juremir Machado da Silva

Estragos na educação e na cultura

Change Size Text
Estragos na educação e na cultura Escola Carlos Barbosa, no Humaitá

Ninguém poderia imaginar um segundo tranco, depois da pandemia, de tal impacto em áreas como a educação e a cultura. Helenir Schürer, presidente do CPERS Sindicato, estima que, em certas cidades, como Muçum e Roca Sales, o tempo para restabelecer as aulas será maior. Para ela, com a flexibilização do calendário escolar autorizada pelo MEC, o Rio Grande do Sul terá dois fluxos em 2024: o das cidades não atingidas pelas cheias e o dos lugares sacudidos pelas inundações. Helenir lembra que mais de mil escolas foram invadidas pelas águas. No Humaitá, a escola Carlos Barbosa Gonçalves, onde trabalhava Andreia Schürer, sua filha, foi tomada pela enchente. O problema, destaca Helenir, é que em muitos estabelecimentos a documentação poderá ter sido destruída, especialmente de alunos mais antigos.

O CPERS está fazendo um levantamento próprio da situação das escolas estaduais. Helenir Schürer acredita que a reconstrução dependerá mais de tempo do que recursos, pois o governo está liberando verbas suficientes para a retomada. Vários problemas se acumulam para a volta às aulas, com as famílias tendo perdido tudo ou quase, não tendo onde morar. O quebra-cabeças vai da possibilidade de os alunos retomarem o caminho das escolas até a instalação de muitas em novos lugares. Helenir enfatiza que será preciso investir bem e com agilidade o dinheiro enviado para que o Estado se recupere.

Editoras em situação difícil

No campo da produção de livros há estragos imensos. A editora L&PM, uma das maiores do Rio Grande do Sul, tem a sua sede na rua Comendador Coruja, próximo da avenida Farrapos, área duramente tocada pelo avanço das águas, e o depósito, com 900 mil livros, na A.J. Renner, no Humaitá. Saiu em jornal que para a L&PM a situação era de apocalipse. Ivan Pinheiro Machado, um dos proprietários, relativiza. Ele foi de barco até depósito medir a altura da água. Estava em um metro. Os livros estão armazenados em alturas superiores a essa.

– Ainda não entramos no depósito para ver como está a situação, pois não dá nem para abrir a porta – diz Ivan, em tom de ponderação.

Ele calcula perder no máximo de três a quatro mil exemplares. Na Comendador Coruja, diante da ameaça de enchente, foi possível fazer uma barricada preventiva. O grande prejuízo, por enquanto, é ficar fechado, sem poder atender os pedidos que chegam. Para Ivan, no entanto, esse mal, diante do que as pessoas estão passando, é menor.

Depósito da L&PM no Humaitá/foto de Ivan Pinheiro Machado

Artes & Ofícios

Luís Fernando Araújo, dono da Artes & Ofícios, situada na Almirante Barroso, perto da avenida Voluntários da Pátria, não tem dúvida: vai perder muito. Ele estima as perdas em 85% do estoque. Segundo ele, vai se salvar o que está espalhado em livrarias e a parte guardada em lugares mais altos, aquela que já não vende. Ele conseguiu levantar os livros para uma altura de um metro, mas teme que a água tenha chegado, ao menos, ao dobro desse patamar.

– Estou pensando em mudar o modelo de negócios. Passar a fazer livros sob demanda. Alguma coisa terei de fazer para a retomada – diz.

Graças a um empréstimo no Pronampe, um programa da Caixa para microempresários, ele estava investindo em novos livros e em reimpressões. Ia começar a pagar a dívida neste mês. O prazo de carência será ampliado certamente em doze menos, o que dá um alívio, mas não basta. Editores se mobilizam para que algum programa governamental ajude na recuperação desse setor já combalido. Luís Fernando tomou três golpes duros em quatro anos: a quebra das grandes livrarias, Saraiva e Cultura, para quem vendia bem e de quem não recebia tudo, a pandemia e agora a enchente. Aos 65 anos, com saúde, determinação e um filho de 12 anos, ele está pronto para a luta.

– Preciso trabalhar. Vou encontrar o jeito de recomeçar – diz.

Libretos e Enchente de 41

Em busca de aluguéis mais barato, muitas editoras instalaram seus depósitos no Quarto Distrito. A Libretos, de Clô Barcellos e Rafael Guimaraens, guarda seus livros num depósito coletivo na Voluntários da Pátria, esquina com a Brasil, a poucos quadras da Sertório, região totalmente alagada. Clô Barcellos ainda não teve acesso ao local, mas imagina que 12 mil livros estejam perdidos, pois o local tem no máximo três de altura e água no lado de fora chegou a dois metros. A sede da editora fica num sétimo andar, no Menino Deus, a quatro quadras do Guaíba. Lá, o térreo também encheu de água.

Entre as perdas, o livro de Rafael Guimaraens, Enchente de 41. Clô conta que em 2015 perderam a edição capa dura de Águas do Guaíba.

– A culpa não é do rio, mas da falta de gestão – diz ela.

Clô Barcellos enfatiza que a área do parque Marinha do Brasil foi cada vez mais cimentada, tirando-se uma proteção natural que retinha água. Na corrida, mandaram imprimir a Enchente de 41 em Santa Maria. Editora pequena, a Libretos tem um faturamento de R$ 300 mil ao ano. O golpe é duríssimo. Não há como segurar a indignação.

Livrarias e gráficas

Toda a cadeia do livro em Porto Alegre foi em algum grau atingida pela cheia. A Livraria Taverna, no térreo da Casa de Cultura Mario Quintana, soçobrou. As gráficas também não foram poupadas. A Odisseia e a Ideograf, instaladas em Navegantes, tiveram de parar.

A Praça da Alfândega, palco da Feira do Livro, que completa 70 anos em 2024, está submersa. Sem apoio governamental, a retomada para todos será penosa. O mundo do livro encontrou mais um adversário. A resiliência, porém, faz parte do perfil do setor. Cada um diz e se diz: vamos em frente, não podemos parar. É horar de resistir.

Artistas parados

Músicos sofreram durante a pandemia. As lives foram a saída. Agora, em Porto Alegre, outra parada se impôs a eles. Para quem vive do dia a dia em bares de bairros boêmios com a Cidade Baixa, duas semanas ou mais sem trabalhar pesam no final do mês. Nei Lisboa teve os seus shows no interior cancelados, inclusive em Gramado. A cadeia toda, diz, está parada.

– Além de todos os impedimentos, estradas obstruídas, ponte caídas, quem teria cabeça para ir a um show? Por mais difícil que seja, ainda é secundário em relação a quem perdeu tudo. Mas a hora é boa para apontar os culpados.

Como diz aquela canção maravilhosa, na voz da gaúcha Elis Regina, “o show de todo artista tem de continuar”.

Força, gente!

Todas as gráficas do RS afetadas pelas chuvas:

01) Com. Impressa
02) ANS
03) PrintStore
04) Riverprint
05) Cartonagem Hega
06) Gráfica Centhury
07) Ideograf
08) Frente e Verso
09) RJR
10) Grafiset
11) Brondanes
12) Impressos Portão
13) Estação Gráfica
14) Tipografia Souza
15) Gráfica Odisséia
16) Promobox
17) Overprint
18) Impresso Prático
19) Complatte
20) Gráfica SOHNE
21 ) Frantin Acabam.
22) Braille Papéis
22) Maxipel
23) Fênix Acabamentos
24) Matristampa
25) Luiz Dalprint Raudal
26) Libardi
27) Gold Print
28) Algo a Mais
29) Gráfica Benvenuti
30) Colorgraf
31) Vitória Régia
32) Jumagraf
33) Fênix Artes Gráficas
34) Print Press
35) Laux Impressora
37) Gráfica SAD
38) Cort’sul est. e facas
39) Gráfica São José
40) Gráfica Ferrão
41) Tecpel
42) Arte Gráfica
43) Escola Gráfica Senai
44) Gráfica Estrela
45) Gráfica Ferrão
46) Dellagraf
47) RF EMBALAGENS
48) Gráfica Pirâmide
49) Produto Final
50) Ponto Final
51) Empal Embalagens
52) Correio do Povo
53) Zero Hora
54) D e D artes gráficas
55) SIDD Artes gráficas
56) Encadernação Pacheco
57) Cartonagem Sarandi

Livrarias e editoras afetadas

1. Perez Livraria / Livraria / Abel Perez / Porto Alegre
2. Ama Livros / Distribuidora / Antônio Schimeneck / Porto Alegre
3. Artes e Ofícios Editora Eireli EPP / Editora / Luis Fernando O. Araujo / Porto Alegre
4. Baoba livros / Livraria / Joana / São Leopoldo
5. Editora AGE / Editora / Maximiliano Ledur / Porto Alegre
6. Editora Bodigaya / Editora / Enio Burgos / São Francisco de Paula
7. Editora Coralina / Editora / Pedro Paulo Graczcki / Gravataí
8. EDITORA PROJETO LTDA / Editora / ANNETE BALDI / Porto Alegre
9. Federação Espírita do RS / Livraria / Roseni / Porto Alegre
10. Intelectual Livraria e bazar ltda / Livraria / Mariucha Melero / Montenegro
11. JL Barbosa livros / Distribuidora / Jorge Luiz Barbosa / Porto Alegre
12. L&PM Editores / Editora / Vanessa Flores / Porto Alegre
13. Libretos / Editora / Clô Barcellos / Porto Alegre
14. Livraria Banca do Livro Ltda / Livraria / Vitor Mario Zandomeneghi / Porto Alegre
15. Livraria Santos / Livraria / Jonatas Santos / Porto Alegre
16. Livraria simusinos ltda / Livraria / David / Novo Hamburgo
17. Livraria Terceiro Mundo Ltda / Livraria / Vitor Mario Zandomeneghi / Porto Alegre
18. Livrarias Cameron / Livraria / Delamor / Porto Alegre
19. Paulo Ricardo Maine livros / Creditista / Paulo Ricardo Maine / Gravataí
20. Pia Sociedade de São Paulo – Livraria Paulus / Livraria / Lucas José Ebel Machado / Porto Alegre
21. Pia Sociedade Filhas de São Paulo / Ir. Silvânia Freire da Silva / Gravataí
22. PUB Editorial / Editora / Rodrigo Fagundes / São Leopoldo
23. Raul Soares de Oliveira junior / Distribuidora / Raul soares de oliveira junior
24. Rosali Dos Santos Willemberg / Distribuidora / ROSALI / Porto Alegre

RELACIONADAS

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.