Juremir Machado da Silva

Europa de extrema direita

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Europa de extrema direita Site officiel du Gouvernement | info.gouv.br

Por que a extrema direita não para de crescer na Europa? As eleições para o parlamento europeu do último domingo mostraram, mais uma vez, o enfraquecimento de partidos socialistas (socialdemocratas), da chamada direita republicana e dos moderados em geral. Em alta, a extrema direita. Na França, a lista conduzida por Jordan Bardella ficou com em torno 32% dos votos. O macronismo fez a metade desse escore. Os socialistas nem isso. O fenômeno se repete em outros países: esquerda e moderados tomando surras da extrema direita. O que está acontecendo com a democracia europeia?

O presidente francês Emmanuel Macron aceitou o desafio do vencedor Bardella e dissolveu a Assembleia Nacional. Com isso, a França terá eleições legislativas internas antecipadas, em 30 de junho e 7 de julho. Perguntei ao meu amigo Dominique Wolton o que isso significa. Para ele, Macron dobrou a aposta, pagou para ver e tentará salvar a democracia contra os quase 40% de votos da extrema direita reunida. Diante da ascensão do horror, acredita Wolton, só um tranco maior será capaz de livrar a cara dos democratas. Poucos tiveram coragem de contra-atacar dessa maneira. Jacques Chirac foi um deles, em 1997. “Que o povo se exprima”, disse Macron. A ver.

Cartas na mesa, roleta girando. Mas o que explica essa situação inédita? Para Wolton, a conjuntura mundial somada aos erros da esquerda na França. Bardella, 29 anos, casado com a sobrinha mais velha de Marine Le Pen, é uma estrela ascendente no céu da extrema direita francesa. No seu cardápio, os temas de sempre: xenofobia, nacionalismo, imigração.

Ao contrário do que possam imaginar o leitor brasileiro de esquerda, o Partido Socialista, com 14% dos votos, gostou do seu resultado. Depois de ir ao fundo do poço, parece um renascimento, ainda mais faltando três anos para as eleições presidenciais. Em menos de um mês, contudo, terá de dar mostras de robustecimento para ajudar a evitar que o partido de Marine Le Pen obtenha maioria na Assembleia Nacional e se cacife para fazer o primeiro-ministro. Dá para imaginar a França com Marine Le Pen de chefe do Governo? Essa possibilidade torna-se mais real a cada nova eleição.

Dominique Wolton gostou da jogada de Macron. Acha que ele tirou da cartola uma lebre inesperada. O risco é grande, o ganho pode ser maior ainda. Não deixa de ser paradoxal que nacionalistas vençam eleições ao parlamento europeu. A extrema direita entende que a sua vitória tem a ver com o cansaço dos eleitores em relação a problema antigos como a imigração. A política atravessa um momento pantanoso. As velhas fórmulas não encantam pela moderação, as novas propostas assustam pelo reacionarismo. A exemplo do que acontece nas redes sociais, bolhas onde a política encontra o fundo do poço, as campanhas eleitorais exigem cada vez mais violência simbólica.

Em menos de um menos o mundo saberá o que vai restar da França iluminista. Um tempo de trevas mostra os dentes. O centrista François Bayrou pede uma refundação da política. Bardella entende que ela está sendo feito pelo seu campo. Vai ficar assim mesmo? Às urnas, cidadãos!

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