Juremir Machado da Silva

França, Inglaterra e Brasil

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França, Inglaterra e Brasil Foto: Assemblée nationale/Divulgação

Qual a diferença entre Brasil e França? Simples: direita republicana francesa e esquerda se unem nas eleições para derrotar a extrema direita. No Brasil, direita dita moderada, centro e até alguns membros de um partido de centro esquerda (PSDB, MDB e PDT) uniram-se a Jair Bolsonaro para derrotar Fernando Haddad. Vale observar que, nas eleições legislativas do último domingo, os franceses de centro e centro direita aceitaram o risco de levar ao poder o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, cujo partido, a França Insubmissa, um PSOL francês, chegou em primeiro a lugar, a dar vez aos extremistas racistas, xenófobos, negacionistas e populistas. Na Inglaterra, 14 anos de conservadorismo, com o malfadado Brexit no meio do caminho, decretaram uma estrondosa vitória dos trabalhistas. Um banho.

Na França, o principal jogador de futebol, o negro Mbappé, convocou a população a barrar a ascensão da extrema direita, que reagiu negando o seu direito de falar de política, como se só lhe coubesse fazer gols. No Brasil, o craque Neymar, também negro, é bolsonarista de quatro costados e quer ganhar mais dinheiro privatizando praias. Em outras palavras, para os franceses a democracia é valor fundamental e não pode ser deixada nas mãos de quem pretende usá-la para aumentar a exclusão social. O caso de Bolsonaro foi usado na campanha eleitoral francesa como exemplo do que não pode acontecer com uma democracia. Um brasileiro brilhou na campanha francesa contra o fascismo, o ex-jogador Raí, que soltou o verbo contra o partido do clã Le Pen, um grupo de sanguessugas reacionário e racista.

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A Europa, que vinha sofrendo com uma onda de extrema direita, cujo maior exemplo é Viktor Orban, populista húngaro, saiu do torpor. Começa um período difícil. A formação de um governo de coalizão na França, dado que ninguém alcançou a maioria absoluta de 289 cadeiras no parlamento, sobre 577, demandará grandes esforços. Só dentro de um ano o presidente da República, Emmanuel Macron, poderá dissolver novamente a assembleia nacional para tentar o alcance de uma maioria. Na verdade, Macron foi o grande perdedor do pleito. Depois da vitória da extrema direita nas eleições para o parlamento europeu, sem que nada o obrigasse a tanto, ele resolveu chamar eleições antecipadas para o legislativo francês. Queria certamente alcançar uma maioria mais confortável para os seus últimos anos à frente do país. Quase jogou a França no colo da extrema direita, viu o seu partido encolher, ainda que tenha chegado em segundo lugar, mostrou-se um péssimo estrategista e vai terminar o seu mandato de modo melancólico.

No dia em que o seu pensador mais longevo, Edgar Morin, completa 103 anos de idade, a França festeja a democracia. Morin lutou contra o invasor nazista quando tinha 21 anos de idade, contra o stalinismo aos 31. Aos 102 anos convocou uma nova resistência contra o fascismo do RN, sigla adotado pela antiga Frente Nacional. Ganhou de novo. Não deixou, porém, de alertar: não há vitória definitiva. A democracia precisa ser cuidada todos os dias.

Tambor tribal (Reabertura do Gambrinus)

Zezinho na porta do Gambrinus | Fotos: Juremir Machado da Silva

Meu amigo Philippe Joron, sociólogo francês que está em pós-doutorado em Porto Alegre, e eu fomos à reabertura do tradicional restaurante Gambrinus, no Mercado Público, lugar onde se come uma das melhores tainhas assadas de Porto Alegre. Fomos recebidos alegremente pelo Zezinho, garçom há mais de 40 anos, feliz, depois de 60 dias parado, pelo retorno das atividades, e por João Alberto Melo, proprietário, junto com a prima, Nadia Melo, da tradicional casa gaúcha.

João Alberto Melo e Zezinho

O Mercado Público ainda está em reconstrução. Nem tudo foi recuperado. O Gambrinus perdeu tudo, com a água subindo mais de um metro e meio. Agora, até cadeiras e mesas são novas.

Mercado ainda em reconstrução

Voltar ao bom e velho Gambrinus, festejando seu aniversário, 135 anos de boa mesa, chega a arrepiar.

Sábado vamos lá comer um mocotó. Nada como bons hábitos.

Parêntese da semana

“Parêntese #233: Faltando Canecas”. Luís Augusto Fischer: “Duzentos anos atrás, Pernambuco representou um sopro de verdadeira modernidade política no Brasil ao liderar a chamada Confederação do Equador, um movimento anticentralista, de temperamento republicano e com traços abolicionistas, contra o golpe dado por aquele lamentável Pedro I”.

Frase do Noites

O iluminista comemora: “Vive la démocratie. Vive la France”.

Imagens e imaginários

No Pensando Bem, que vai ao ar todo sábado, 9 horas, na FM Cultura, 107,7, em parceria com a Matinal, a revista Parêntese e a Cubo Play, e apoio da Adufrgs Sindical, Nando Gross e eu entrevistamos o ator, diretor e professor de teatro Zé Adão Barbosa. Uma conversa sobre as dificuldades dos artistas gaúchos depois da pandemia e das enchentes. Mas, acima de tudo, uma declaração de amor aos palcos, à dramaturgia e ao ofício de ator.

Escuta essa

A França virou o jogo. A extrema direita caiu de quatro. Hora de escutar um dos mais belos hinos de todos os tempos, com Edith Piaf:

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