Juremir Machado da Silva

Histórias de quem ficou

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Histórias de quem ficou Janelas fechadas de quem saiu | Foto de Juremir Machado da Silva

Em todas as situações, trágicas ou não, as diferenças entre os seres humanos aparecem. O heterogêneo caracteriza essa espécie uniformizada pela produção de simbolismos. Nesta grande enchente de 2024 em Porto Alegre, mais uma vez as pessoas se dividiram entre os que tiveram de sair rapidamente de suas casas e os que decidiram ficar. Claro que ficar só foi possível em certas condições, quando a água deixou algum terreno seco para a permanência. Fica-se por medo de ter seus bens saqueados, por não saber para onde ir, por não ter vontade de estar longe de casa, por algum traço de personalidade.

A água expulsou, matou, devastou, apavorou e isolou. Que coragem faz alguém passar dias e noites na solidão de um bairro abandonado? Muitas são as histórias pessoais que explicam esse tipo de escolha. Cada coração, uma determinação. Cada decisão, um roteiro. Cada vivência, um conjunto de atitudes para não ceder e sobreviver, da resiliência acima da média às soluções coletivas improvisadas.

“Seu” Guimarães não quis sair

Seu Guimarães, no cantinho esquerda da foto, no alto | Foto de Ana Cláudia Rodrigues

Nas andanças que tenho feito cobrindo a inundação na capital gaúcha acabei observando, de perto ou de longe, os que ficaram. No bairro São Geraldo, na Pará, “Seu” Guimarães ficou. Só o vimos de relance, quando passamos de barco pela sua rua, no sábado de manhã. Na foto, ele está lá na sua sacada, num cantinho, observando o movimento das águas. Tem sido ajudado pelos vizinhos. Na avenida Farrapos, um fila de garrafas e bombonas em cima de uma marquise indicavam que a cheia esteve muito alta a ponto de ser possível depositar ali água para quem ficou.

Ivan Diehl, da Cervejaria 4 Árvores, na avenida Pará, no São Geraldo, na Zona Norte de Porto Alegre, cujas bebidas levam nomes como Jacarandá, homenagem talvez aos jacarandás da avenida Polônia, é um dos braços de apoio a “Seu” Guimarães. No domingo, com a inundação ainda presente no bairro, ele ia levar o celular carregado do vizinho e atender a um pedido feito em bilhete: 4 pilhas e salsicha em lata.

Guimarães , 74 anos, é gaúcho de São Borja. Até 2023 morava em Canasvieiras, Santa Catarina. Veio para o bairro São Geraldo com o falecimento do pai. Estava com dengue quando começou a enchente. O médico recomendou-lhe cinco dias de repouso. Faz 16 que não bota o pé na rua. Nesse tempo, viu passar um jet-ski da Guarda Nacional e uma ação da Polícia Civil na esquina. Acompanhado por um radinho de pilha deixado por uma vizinha, à luz de velas, sem luz elétrica, com água da caixa do prédio, observa do seu segundo andar o movimento das águas, dos barcos e de quem se aventura por ali. Tem opinião firme:

– O que mais me impressiona nisso tudo é movimento de solidariedade das pessoas, a sociedade se organizando para salvar quem precisa.

A solidão não o assusta.

– Administrei a situação. Estou preparado. Tive a ajudas dos meus vizinhos. Se estamos falando agora é graças ao Ivan que me trouxe o celular carregado. Também me trazem comida e o que necessito.

Formando em teologia e em administração de empresas, separado, Guimarães tem dois filhos, um vive no Mato Grosso, o outro em Santa Catarina. O medo não faz parte dos seus hábitos. Depois de ter trabalhado na Ford e na Volkswagen, ele espera uma oportunidade para fazer o que gosta: vender. Com tantos carros submersos, entende que muitos poderão ser recuperados, mas talvez não os mais novos:

– Estamos jogando muito terror para cima das pessoas quanto aos carros cobertos pela água. Nem todos estão perdidos. Vai precisar ver.

Leitor contumaz, aproveitou o retiro forçado para devorar três livros: Seja foda!, de Caio Carneiro, o clássico A arte da guerra, de Sun Tzu, e Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie. Não deixa de fazer sentido. Sozinho no prédio, num bairro quase deserto, ele tem sido foda, tem praticado a arte da guerra de resistência e estreitado amizades com os vizinhos, como Ivan Diehl. Dos quatro apartamentos do térreo do seu edifício pouca coisa se salvará, diz. Tem uns 30 centímetros de lodo na porta do prédio.

Guimarães aproveitou o isolamento para meditar. Não saiu de casa por não ver para onde ir e para não tomar o lugar de alguém num abrigo. Passado o pior, já tem algumas decisões tomadas:

– Vou voltar para Santa Catarina. Ainda não sei para onde exatamente. Foi um grande erro vir para cá. Quero trabalhar e não consigo por preconceito com a minha idade. Nunca tinha visto uma enchente desse porte nem tamanho despreparo do poder público. Foi um horror.

Cooperativa informal de vizinhos

Num grande edifício da Rua da Praia, perto da Casa de Cultura Mario Quintana, onde a vida pulsa dia e noite, com bares, lojas e gente passando, seis famílias decidiram ficar. Sem luz, sem água e sem elevador, juntaram-se para resistir à dificuldade. H. S., que prefere não ter o nome revelado, conta que foi uma operação de cooperação e solidariedade. Foram 14 dias no isolamento. No caso dele, num 15º andar a ser escalado depois de uma descida ao térreo. O racionamento feito com disciplina e respeito garantiu a água da caixa do edifício para “banhos de canequinha” e banheiros. Duas vezes por semana, com água acima do joelho, ele saía para algumas compras úteis a todos. As necessidades de cada um foram atendidas conforme as habilidades das pessoas e as exigências do momento. Por exemplo, dar injeção em uma vizinha que sofre de diabetes. A base da alimentação foi macarrão:

– Não podemos nem ouvir falar em massa – diz.

Moradores que partiram deixaram as chaves dos apartamentos com o síndico. Foi possível compartilhar o que se tinha de modo a aliviar a espera. Até domingo, 19 de maio, ainda não havia energia elétrica nem água. A questão inevitável era esta: o que levou a não sair de casa?

– Eu não podia me separar dos meus livros – diz H.S.

Ninguém imaginava que a água pudesse chegar tão longe nem permanecer por tanto tempo. H.S. pensa nesses dias todos como uma “situação de guerra”, com gente muito triste e marcas que vão durar.

O que fica como lição, aprendizado, marca?

– A sensação de vulnerabilidade, de que não temos gestão alguma na cidade ou no Estado. Tudo isso poderia ter sido evitado com manutenção. Mas fica também a solidariedade das pessoas no dia a dia.

Quando, enfim, foi possível sair, H.S. levou a mãe para um hotel. Ele nunca pensou em sair. Seria complicado demais, diz. A experiência de troca, compartilhamento e apoio mútuos ficará como uma lembrança da grande enchente cujos estragos poderiam ter sido menores.

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