Juremir Machado da Silva

Imprensa francesa versus imprensa brasileira

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Imprensa francesa versus imprensa brasileira Capa do jornal francês, Libération, em 12 de junho de 2024. Foto: Libération.

A imprensa brasileira e a francesa não rezam pela mesma cartilha. Aqui, a regra é ser conservador, estar do lado do poder e passar pano para o espectro que vai do centro à direita sempre que se faz necessário. Basta ver o que tem acontecido com Eduardo Leite e Sebastião Melo depois das enchentes no Rio Grande do Sul. Depois de cada crítica, uma longa lustrada com panos bem quentinhos. Até a Fraport, que nada fez para escoar a água do aeroporto e quer ter o seu prejuízo pago pelo Estado, encontra advogados gratuitos em jornal. Na França, a toada é outra. A ascensão da extrema direita nas eleições europeias recebe o tratamento que merece: vergonha. No Brasil, o bolsonarismo só foi criticado quando já era tarde. Tem muito mais.

O jornal “Libération”, que raramente engole a própria língua, não titubeou ao saber que o presidente de um partido da direita republicana e democrática propunha aliança com a extrema direita de Marine Le Pen e Jordan Bardella para as eleições legislativas antecipadas. Meteu um título cavalar no meio da capa: LA HONTE. VERGONHA. Um grito parado no centro da página. Eric Ciotti, presidente de Os Republicanos, sigla de direita civilizada, foi expulso do partido por ter pensado em se associar aos extremistas de direita.

No Brasil, o PSDB, que nasceu achando que era de centro esquerda e caiu no colo do bolsonarismo, correu para os braços do capitão sem o menor constrangimento. Até no PDT de Leonel Brizola há bolsonaristas apaixonados. Nem é preciso falar de partidos como o União Brasil, enésima mutação da Arena, pilar da ditadura midiático-civil-militar de 1964. Aí talvez esteja o pecado original: toda a grande imprensa brasileira, à exceção da falecida Última Hora, de Samuel Wainer, apoiou a derrubada de João Goulart e o modelo econômico dos militares. O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão, Zero Hora e demais passaram duas décadas abraçados com o regime militar. Se criticaram a censura e a tortura, aceitaram, quando não louvaram, o resto do pacote oliva.

Imprensa na França pode apoiar greve. Aqui, nunca vi isso se produzir. Na última sexta-feira, “Le Monde” deu em manchete: “Esquerda se une, direita se divide”. Enumerou medidas da frente de esquerda para seduzir eleitores, entre elas a condenação aos massacres do Hamas. Neste ponto é preciso dizer que também a esquerda brasileira é singular: crítica mais Israel, que bem merece por seu comportamento vergonhoso na Faixa de Gaza, do que o Hamas, grupo terrorista sempre pronto a atirar a esmo sobre inocentes para provocar choques políticos; defende o invasor Putin e ataca a invadida Ucrânia. Tudo é bom se for para atingir os Estados Unidos da América. A imprensa francesa dispara contra a extrema direita, condena as ações de Israel e do Hamas, defende a democracia, detona Putin, mostra-se independente. Segue linha própria. A cada um conforme os seus erros.

Qual imprensa francesa? Por exemplo, “Libération” e “Le Monde”. São jornais de esquerda? De centro esquerda. Mas não são órgãos partidários. Criticam também a esquerda. Mesmo “Le Figaro”, o Estadão francês, é obrigado, às vezes, a reconhecer os fatos. No Brasil, imprensa corporativa quer dizer imprensa de direita fingindo-se de neutra. Imprensa de esquerda só na internet e com ar de porta-voz. Alguém já imaginou o presidente de um partido de direita no Brasil sendo expulso por apoiar Bolsonaro? O PSDB mandando alguém embora por conluio com o extremismo fascistoide? Jair Bolsonaro é a Marine Le Pen de farda. Fico imaginando uma capa da Folha de São Paulo: Presidente do PSDB propõe apoio ao candidato de Bolsonaro em 2026: VERGONHA”.

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