Juremir Machado da Silva

Jardim Botânico, privatiza que melhora?

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Jardim Botânico, privatiza que melhora? Jardim Botânico de Porto Alegre deve ser concedido pelo Governo do Estado | Foto: José Fernando Vargas / FZB / Arquivo

Nada tenho contra o Estado. Nem contra a iniciativa privada. Acredito que se possa chegar a bons níveis de entendimento entre essas duas dimensões. O trabalhismo, por exemplo, defende conciliação entre capital e trabalho. Alguns me chamam, por causa disso, de muraldino. Outros, de social-democrata. Sou um sonhador. Admito. Queria ver o Brasil transformado numa imensa Suécia Tropical, com samba, caipirinha, praia, gol de bicicleta e proteção pública eficaz aos indivíduos. Sugiro que se comparem os tempos de licença maternidade/paternidade entre a Suécia e o Brasil. Fico chateado quando me mandam para Cuba. Fui duas vezes. Queria que me xingassem com virulência assim: “Vai pra Estocolmo, safado”. O papo é o seguinte: o Jardim Botânico de Porto Alegre vai ser “concedido”, terceirizado, privatizado por tempo determinado (pronto, falei!). Isso é bom? Ruim? Poderia ser de outro jeito? Privatiza que melhora?

Vivi na Europa. Morei em Berlim e em Paris. Vi muita coisa pública bem administrada. Por aqui, espalhou-se a ideia de que o Estado é sempre mau administrador. Faria parte do seu DNA gerir mal. Como se explica então que o Estado seja bom gestor em tantos lugares? Ah, teria a ver com a cultura europeia, por exemplo. Sendo assim, não seria o caso de alterar a nossa cultura? Ou é genético? Ou uma questão de determinismo climático, geográfico, do meio, aqueles delírios do século XIX que não pouparam nem um clássico como “Os sertões”? Não poderia existir Estado bom gestor nos trópicos? Nem mesmo no sul do Brasil, que de tropical só tem a canícula de certos dias de verão, como agora, quando fazemos o Rio de Janeiro parecer geladinho?

Li o material sobre a conversão do Jardim Botânico de Porto Alegre. Diz assim: “O projeto tem, por objetivo, a concessão dos serviços públicos de apoio à visitação, à revitalização, à modernização, à operação e à manutenção dos serviços turísticos em parques naturais. Com o apoio de investidores que assumirão a manutenção da infraestrutura e gestão de cada parque no tocante à visitação pública, em acréscimo a benefícios econômicos associados, pretende-se criar condições para se prover mais recursos para fortalecer a proteção ambiental e para estimular a consciência em prol da sustentabilidade ambiental”. Lá estão as três palavrinhas mágicas: revitalização, modernização e manutenção. Bingo! Nunca escapam.

Revitalização significa ressuscitar algo que estaria morto. Modernização quer dizer tirar do atraso. Manutenção remete a cuidados permanentes. A mensagem que fica é esta: onde o Estado está, a morte, o atraso e a falta de cuidados imperam. Quem é o Estado? A sociedade organizada. Não poderia faltar também a sugestão de que concedendo/privatizando haverá mais recursos para a proteção ambiental. Confesso que promessas tão generosas me deixam desconfiado. Lembro da reforma trabalhista para criar mais empregos. Deu o contrário. Também não esqueço que pagando para despachar as bagagens em viagens áreas o preço das passagens cairia. Se forem me xingar, por favor, sejam precisos: “Vai pra Suécia, social-democrata fdp”.


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