Juremir Machado da Silva

Eduardo Bolsonaro, o misógino

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Eduardo Bolsonaro, o misógino Foto: Paulo Sérgio/Câmara dos Deputados

Tudo na família Bolsonaro parece calculado para produzir efeitos eleitorais e fortalecer os vínculos com a base sectária. Mas não é verdade. Tal estratégia exigiria uma inteligência que a prole zero não tem. As manifestações de Eduardo Bolsonaro associando a cratera no metrô de São Paulo à contratação de mulheres são o mais genuíno fruto da sua misoginia, palavra que certamente não consta no seu parco vocabulário. Machismo ele sabe o que é por gostar do papel de machão. No fundo, uma força parece impeli-lo para ser sempre uma demonstração de si mesmo, como se não bastasse a carteira de identidade no bolso.

Assim, o misógino Eduardo Bolsonaro não perdeu a oportunidade de ser o que é: Eduardo Bolsonaro. Ele postou, movido possivelmente por essa necessidade de confirmação, um coice: “‘Procuro sempre contratar mulheres’, mas por qual motivo? Homem é pior engenheiro? Quando a meritocracia dá espaço para uma ideologia sem comprovação científica o resultado não costuma ser o melhor. Escolha sempre o melhor profissional, independente da sua cor, sexo, etnia e etc”. A cratera seria o resultado da contratação de engenheiras incompetentes.

Um Bolsonaro falar em ciência só pode ser piada para o TikTok ou, involuntariamente, uma forma de dissimulação. A companhia responsável pela obra rebateu. Enquadrou o machista. Eduardo não se deu por vencido. Publicou como mais um lance: “Relato de engenheira. Todo apoio a quem trabalha e respeita colegas de trabalho. O preconceito está na cabeça de quem acha que pedreiro desrespeita mulher ou tem preconceito. Igualdade de condições + meritocracia, foi isso que disse. Sexo, raça etc não pode ser critério seletivo”. Primeiro o deputado botou na conta do sexo uma responsabilidade. Depois, tentou enrolar e dar a volta combatendo o que havia negativamente sustentado por preconceito.

Eduardo Bolsonaro teria muito a aprender com Chico Buarque, mas aí é pedir demais. Querer que o cara tenha bom gosto. Em entrevista para o 247, a respeito da polêmica sobre sua decisão de não cantar mais “Com açúcar, com afeto”, Chico disse: “Eu converso com minhas netas e elas devem achar essa história da música ridícula. É realmente datada. Mas eu nunca soube que essa música teria sido criticada por feministas. O único feminista que criticou essa música fui eu. Continuo achando que é uma coisa meio vencida, essa coisa da mulher lamurienta, que fica em casa. Puxa, nós estamos no tempo da Anitta! As mulheres estão falando alto, estão de cabeça erguida e acho bonito isso. É uma conquista do movimento feminista. O movimento feminista tem uma grande importância e estou solidário com ele”. Aliás, Anitta é dez. Tem fã contrariando Chico Buarque ou o defendendo dele mesmo. Seria a prova de que o autor morre ao terminar a obra, que passa a ser de domínio público, interpretada até contra a intenção ou a compreensão do criador?

Colocar Eduardo Bolsonaro e Chico Buarque no mesmo texto é canalhice. Mereço ser cancelado. A sabedoria popular resume tudo:

– Chico é Chico.

– Eduardo Bolsonaro sempre será Eduardo Bolsonaro.

Na sua racionalização viral, Eduardo Bolsonaro continuou vociferando na linha direta dos que falam em racismo reverso: “Estou aguardando para saber por qual motivo se priorizam mulheres na contratação de uma obra. Troque homens/mulheres por negros/brancos e tem-se aí um vídeo racista da empresa. Eu não sou inferior por ser homem. Parece que a empresa não tem argumentos e parte para o ataque”.

Como diria Caetano Veloso, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. No caso do Chico, a delícia. O leitor que complete a frase.

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