Juremir Machado da Silva

Elogio do PDF

Change Size Text
Elogio do PDF

Nunca tive caixas de ferramentas. O encanador chegou aqui em casa e, todo constrangido, perguntou onde Cláudia guarda a dita cuja. Apesar disso, tenho minhas ferramentas prediletas: prefiro twitter e facebook a instagram. Já flagrei o sorriso com minha câmera escondida: também, fez sessenta anos! Velho. Acho o instagram mal organizado. Essas ferramentas são como bares: servem o mesmo com nomes diferentes e têm mais clientes de acordo com a moda, mas cada um jura que o seu bar serve a melhor cerveja do mundo. Certo, no facebook tem participação de óbito. No twitter, muito papo cabeça. No insta, tudo é positivo, ostentação, conversa de coach. Aliás, fotinho fofa no face dá quatrocentos comentários; no twitter, três. Em compensação, tudo que sai na Folha de S.Paulo é replicado. Racionalidade absoluta.

Uau! Sei, sei, o instagram é imagem, filtros, o escambau, cheio de restrições. O problema do twitter justamente é ter poucas restrições. Saco! A pessoa mais evoluída que conheço saltou, aos 73 anos, direto do face para o tiktok sem passar pelo instagram. Outro conhecido, detentor de 722 amigos no facebook, foi cancelado pela maioria depois que achou adequado reclamar do Fantástico por ter dado espaço em dois domingos para o desaparecimento de um cachorro e nunca falar de pessoas que desaparecem todos os dias. Gente do facebook vê o Fantástico. Eu vejo. É tão tranquilizador. Faz pensar na minha adolescência. Falar o que estou falando, só para fazer graça, é muito perigoso: o pessoal do instagram leva a sério e se prontifica para ensinar a usar. Ou consola com um “não é difícil, só pegar o jeito”.

Hahaha! Se tem coisa que não entendo é cara tecnológico dizendo que não consegue ler livro inteiro em tela, preferindo edição impressa. Não pode existir maior contrassenso. Nada como ler 750 páginas de um livro antigo num bom PDF. O pobre do PDF sofre preconceito dos admiradores de outros formatos que só podem ser lidos por dispositivos que fazem a alegria do capitalismo tecnologicamente superior para o qual computador é tão básico quanto roda de bicicleta. Quer dizer, bike. O jornal impresso vai morrer. É tecnologia superada. Custa caro para imprimir, transportar e entregar. Leva notícia atrasada. O papel criou uma civilização. Inventaram algo melhor.

Em todo caso, vale em lugar com energia cara e muita falta de luz. O impresso será derrotado pela expectativa média de vida e pelo aumento da sobrevida das baterias. O que isso tem a ver com twitter, facebook e instagram? Nada. A propósito, por que essa reverência toda a ponto de se continuar escrevendo twitter, facebook e instagram? Não faz muito, era Internet. Abaixo a vira-latice. Ah, são nomes de empresas! Que coisa. Eu sempre querendo debochar de coisa séria. Depois não quer ser chamado de velho e vem denunciar etarismo. Neste mês de fevereiro dos cem anos da Semana da Arte Moderna e do centenário do lançamento de “Ulisses”, quero reler a obra-prima de James Joyce de cabo a rabo em PDF. Só PDF merece maiúsculas. É o mais democrático dos formatos, salvo o Word. Dizem até que é comunista.

Atenção: contém tentativa de humor.

*

Toda vez que eu ouço em falar em modernidade, especialmente em frases do tipo “precisamos modernizar”, eu saco a minha pós-modernidade e atiro, pois há perigo na esquina. Algo será vendido.

*

Sou um ouvinte de youtube, com anúncios e tudo. Toda vez que me lembro das vezes em que já morri lutando para viver, se a expressão não parece trágica demais, ouço Belchior. “Tudo outra vez”:

RELACIONADAS

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.