Juremir Machado da Silva

Jô Soares, fim de uma era do humorismo

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Jô Soares, fim de uma era do humorismo Foto: Reprodução

A morte de Jô Soares permite acionar um clichê: fim de uma era. Toda vez que morre um grande é isso que se diz. Ou mesmo quando falece um tipo singular. A morte do poeta Luiz de Miranda seria o fim da era do poeta maldito e boêmio. Ri muito vendo Jô Soares quando era guri. Ele e Chico Anysio mandavam na televisão brasileira. O riso é a mais espontânea das reações de aplauso. Não se compra riso, não se força o riso, não tem encomenda. Ou faz rir ou não faz. É como jogador de futebol. Se não tiver bola no corpo, não adianta ser filho do presidente do clube. O riso não aceita enganação. Jô Soares criava tipos, inventava situações, produzia bordões, arrancava gargalhadas.

O pálido humorismo atual é muito mais o que se poderia chamar de piada de reação: o sujeito engraçado, na mesa de bar, tem sacadas rápidas quando ouve algo e com isso diverte a turma. É muito pouco perto do que faziam Jô e os humoristas do seu tempo. Chamar Danilo Gentilli e Paulo Vieira de humoristas é liberdade poética ou tirada de humor que não faz rir. Enfim, outros tempos. Jô foi grande entrevistador, embora umbilical, queria brilhar mais do que o entrevistado. Isso acontecia muitas vezes. Não foi grande romancista. Mesmo assim, vendeu muito. Afinal, era tempo de entressafra. Uma coisa é certa: como humorista ele foi gigantesco. Até que cansou e foi fazer jornalismo e literatura. Uma época definitivamente fica para trás.

Quem, tendo mais de 50 anos, não se lembra dos seus personagens em programas como “Viva o Gordo”? Hoje talvez o programa fosse cancelado como preconceituoso ou autopreconceituoso. É claro que o humor daquela época carregava nas tintas com certos grupos sociais. Ainda assim, Jô deitava e rolava, fazia o cara deitar ou rolar de tanto rir. Tive um colega de colégio que se mijava de rir vendo Jô Soares. Pode existir maior elogio ao trabalho de um humorista? Culto, inteligente e livre, Jô Soares teve a vida que pediu a Deus: pode exercer o seu trabalho sem ser ceifado pela mediocridade de patrões. Era tão forte a sua relação com o público que ele passava por cima de todos os obstáculos e impunha a força do seu talento como norma.

Claro que o Brasil sem Jô fica sem graça.


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Gabriel Souza, o centrista em ascensão

O deputado Gabriel Souza (MDB), que entrevistei no Terra Mátria, é um homem de sorte: perdeu a possibilidade de ser candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo seu partido e ganhou a chance de se tornar vice-governador numa aliança com o PSDB de Eduardo Leite. Em resumo: trocou uma derrota certa por uma vitória bastante provável. Hábil nos bastidores da política, afiado nos embates de plenário, ele se vê como um centrista, liberal com preocupações sociais. Quer um MDB de centro-esquerda, recusa figuras como Renan Calheiros e reconhece suas diferenças atuais com emedebistas como Osmar Terra. A conversa que tivemos faz um balanço do cenário político no Rio Grande do Sul.

Martín Fierro em Palomas

Neste final de semana estarei em Santana do Livramento, minha terra natal, onde palestrarei, na Urcamp, sobre os 150 anos da obra maior da Argentina, “Martín Fierro”, de José Hernández, escrita em terras santanenses durante o exílio do poeta e revolucionário.

Quem sabe encontro Fierro em Palomas. Ouvirei dele:

Sou gaúcho, e assim entendam
O que diz a minha boca,
Para mim a terra é pouca,
Poderia ser maior,
Nem a víbora me pica,
Nem queima o meu rosto o sol
(tradução de Colmar Duarte)  

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