Juremir Machado da Silva

Mortes no Javari

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Mortes no Javari Foto: Funai/Divulgação

Alguém já fez esta pergunta: que país é este? Lembro de um grande poeta, de um senador da ditadura, de um humorista famoso e até de uma banda. Que país é este? O poeta Affonso Romano caprichou:

Há 500 anos caçamos índios e operários,
 há 500 anos queimamos árvores e hereges,
 há 500 anos estupramos livros e mulheres
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

O humorista Millôr Fernandes detonou:

“Meu caro Pedro, é com certo retardo que venho te cumprimentar por mais esse teu descobrimento nos trópicos. Fiquei realmente contente com você. Afinal, depois de bater sucessivamente em tantas ilhotas insignificantes, ter acabado por descobrir o Brasil, que, já se dizia por aqui, era pura invenção tua. Uma coisa: se o que você descobriu é mesmo do tamanho que você conta, é terra demais: vai ser muito duro lotear. Só mesmo em sesmarias. Para podermos especular com bom lucro, temos apenas, a nosso favor, a certeza de que uma terra desse tamanho vai ser praticamente ingovernável.”


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Renato Russo, compositor de muitos talentos, emplacou um hit extraordinário, especialmente depois de gravar com sua Legião Urbana:

No Amazonas
E no Araguaia ia, ia
Na Baixada Fluminense
No Mato grosso
E nas Gerais
E no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papeis
Documentos fiéis
Ao descanso do patrão.

Todos respondiam a uma pergunta retórica do presidente da Arena, partido da ditadura, Francelino Pereira, que, em 1976, fizera uma pergunta retórica para embalar seus delírios nacionalistas: “Que país é este em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente”. As perguntas agora são estas:

– Que país é este em que o próprio presidente não acredita na justiça eleitoral nem nas urnas que lhe garantiram a própria eleição?

– Que país é este que praticamente só sai nas manchetes internacionais pelas queimadas da floresta ou pelas bravatas do seu presidente?

– Que país é este que tem fartura de petróleo, mas precisa aumentar o preço do combustível toda semana, seguindo o mercado internacional, por não refinar tudo o que necessita e para distribuir benefícios aos seus acionistas, o que parece ao leigo uma transferência de renda?

– Que país é este em que um jornalista de renome internacional e um indigenista de grande reputação nacional são assassinados e esquartejados por defenderem o certo e o presidente da República diz que eles se meteram numa aventura arriscada e que o jornalista era malvisto na região por fazer reportagens sobre garimpeiros?

– Que país é este que estimulou a criação de uma terra sem lei no Vale do Javari, desmontou estruturas de controle e fiscalização, relaxou multas ambientais e defende mineração em terras indígenas?

– Que país é este?

O país cujo mandatário faz ou fez declarações como esta:

– “Pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana, que exterminou os índios”.

– “Os índios não falam nossa língua, não têm dinheiro, não têm cultura. São povos nativos. Como eles conseguem ter 13% do território nacional”.

Que país é este?

A resposta pode ser entoada como uma ladainha:

      Triste Brasil!

Jair Bolsonaro e O Globo

Acaba de ser lançado pela editora Unisalle o livro “Memória social em movimento”, organizado por Cleusa Graebin, Zilá Bernd, Alvarenga Venera e Maria Amélia de Oliveira. Na obra, este locutor que “vos fala”, em coautoria com Álvaro Nunes Laranjeira, professor visitante na Universidade Federal do Espírito Santo, participa com um artigo intitulado “Jair Bolsonaro e O Globo”. Uma relação conflituosa.

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