Juremir Machado da Silva

Municipários no prejuízo

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Municipários no prejuízo Foto: Silvia Fernandes / Simpa

A mídia tradicional não gosta de funcionários públicos. Odeia greves ou qualquer tipo de mobilização de trabalhadores. Jamais apoia qualquer reivindicação de concursado. Na França, na Alemanha e em Portugal, para citar apenas três países progressistas que gostamos de visitar, volta e meia a imprensa dá razão a manifestações de funcionários. Aqui, não. A mídia brasileira é patronal por natureza. Está no seu DNA. Na escravidão, os veículos principais, inclusive A Província de São Paulo, que se tornaria O Estado de São Paulo, publicava anúncios de escravos fugidos, editais de leilão de escravizados e editoriais furiosos defendendo os escravistas.

Ainda hoje não interessa saber se os funcionários têm razão. É pau neles ou silêncio total. Afinal, a ordem deve ser respeitada.

Os municipários de Porto Alegre negociam reposição salarial com o prefeito Sebastião Melo. A situação é crítica. Só perdas. A cidade, de resto, anda pelas caronas. A Redenção, que será invadida por um “polo gastronômico” absurdo (como foi que passou tão facilmente na Câmara de Vereadores?), anda meio atirada, mas foi lustrada para a festa dos 250 anos de Porto Alegre. Uma profusão de funcionários fez do parque um brinco para receber as visitas e os bailes programados. Passada a alegria, volta a rotina: salários defasados, direitos alterados, proposta ínfima de correção, negociações emperradas. E a mídia? Nem aí. Para a mídia todo funcionário público é um nababo.

A inflação passou dos dez por cento e não dá sinais de recuo. Jair Bolsonaro, que o prefeito Melo, assim como o governador Eduardo Leite, apoiou, perdeu o controle da economia. Em consequência, cada trabalhador vê o seu poder aquisitivo ir pelo ralo a cada mês. Melo ofereceu aos municipários de Porto Alegre reposição de 10,6% parcelados até 2023. Enquanto isso, a prefeitura quer transferir para o Previmpa parte da sua dívida com pensionistas anterior à criação da previdência superavitária dos funcionários da cidade.


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No dia a dia sem floreios nem paz, escolas e centros de saúde sofrem com tiroteios, falta de segurança e condições de trabalho.

Até parece piada, só que é trágico: o governo municipal quer pagar progressões atrasadas em cem parcelas. Mais de oito anos. Dá tranquilamente para morrer antes de receber tudo. As perdas inflacionárias já chegam a 33,98%. Só na administração Melo já são 13%. Desde 2016 o poder de compra só encolhe e ninguém faz nada. Nota de rodapé: Michel Temer, com sua “ponte para o atraso”, entrará para a história como o homem da mesóclise que mais estrangulou quem vive de salário no País. Bolsonaro chegou e completou o serviço. O tal mercado adorou. Melo conseguiu aprovar a alíquota de 14% de previdência para aposentados a partir de 2,4 salários. É uma mordida e tanto.

João Ezequiel, diretor do Sindicato dos Municipários (SIMPA), assegura que a categoria quer continuar negociando, mas a proposta do governo precisa melhorar. A bola está novamente com a prefeitura.

No Estado, o ritmo não é diferente, como bem sabem os professores. Neste Brasil sem porteira, a única coisa que realmente subiu acima da inflação foi o indecente fundão eleitoral. De resto, quem sua a camisa vê todo dia o boi indo embora com a corda. Alguns chamam esse descalabro de política de responsabilidade fiscal.

Os municipários, cujo chefe atual é Sebastião Melo, também pagam o pato. A imprensa dá de ombros: que se ferrem esses privilegiados!

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Rua de Porto Alegre

Raul Ellwanger:

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