Juremir Machado da Silva

Nunca seremos modernos

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Nunca seremos modernos

O francês Bruno Latour escreveu um livro moderno intitulado “Nunca fomos modernos”. Eu não fui. O Brasil também não. Pelo jeito, nem será.

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A modernidade é tríade razão – progresso – emancipação.

A racionalidade levando à emancipação pelo progresso.

A independência brasileira, feita por um príncipe português montado numa mula, uma “besta baia gateada”, não foi moderna.

Moderno foi o quadro de Pedro Américo, que colocou D. Pedro num belo cavalo, montaria mais digna de uma mitologia de exaltação.

A compra do reconhecimento da independência por Portugal, negociada pela interesseira Inglaterra, com pagamentos de mais de dois milhões de libras esterlinas, não foi moderna. Foi um saque.

A proclamação da República, feita por militares entediados, não foi moderna. Foi, no máximo, a execução fardada de uma vingança civil dos cafeicultores fluminenses ainda indignados com a abolição da escravatura. Choravam a mamata perdida pela qual queriam indenização.

A revolução de 30, a mais moderna de nossas mutações, não foi tão moderna assim. A elite resolveu fazer a revolução antes que o povo a fizesse, segundo uma fórmula famosa. O tranco da história foi em frente.

A Semana da Arte Moderna de 1922 não foi moderna. A elite nacionalista, influenciada pelas últimas modas europeias, com apoio do governador reacionário de São Paulo, levantou-se contra o soneto e contra a pompa dos parnasianos. O povo não ficou sabendo. Até hoje.

O Brasil saltou da pré-modernidade para a pós-modernidade sem escala. Tomou o atalho sem que os modernos percebessem o assalto.

Sérgio Buarque de Holanda foi pós-moderno sem o saber ao rotular publicitariamente o brasileiro de homem cordial, aquele que age com o coração, passionalmente, impulsivamente, violentamente. Sem gentileza.

Mata com o coração aos pulos.

Tem até juiz dizendo que julga com o coração.

Nunca fomos modernos, graças a Deus.

Por um lado, of course. A modernidade crê na racionalidade absoluta, na realização de metas, em resultados, na meritocracia.

Nunca tivemos disciplina para isso.

A modernidade é neoliberal.

Por outro lado, a modernidade era um projeto.

E só temos projéteis. Balas perdidas que acham os que a modernidade brasileira deixou pelo caminho na sua frieza elitista.

Nunca fomos modernos. A modernidade era o triunfo das vanguardas.

Vanguardas revolucionárias.

Ainda não saímos da retaguarda.

Nem entramos nas reformas. Quando Jango tentou as básicas, em 1964, foi derrubado pelas “vacas fardadas” com apoio dos americanos.

A única coisa realmente moderna no Brasil é o golpe, que saltou dos tanques nas ruas, de 64, para os corredores acarpetados, em 2016, do Congresso Nacional. E do fuzil ao lawfare. Nunca seremos modernos.

A modernidade já caducou.

Bufa o sapo-boi: foi moderno, não foi, foi, não foi!

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