Juremir Machado da Silva

O genocida

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O genocida Foto: Nasa

Em Marte, lugar habitado por seres amarelos e seres vermelhos, é sabido que termos como genocida podem ser alcunhas impostas por um lado a um inimigo ideológico. Essa certeza se tem desde tempos imemoriais, dos quais paradoxalmente sempre tem um marciano para lembrar. Mesmo assim, ensina a sociologia marciana dos rótulos, que, em termos de ideologia e política, dificilmente se produz uma etiqueta capaz de colar sem algum elemento verossímil, como um traço que se destaca numa caricatura eficaz. Por extensão, genocida não é só aquele que manda matar (esse é o mandante), mas também aquele marciano que não toma todas as medidas possíveis, no momento preciso, para evitar que mortes aconteçam ou para minimizá-las. Marcianos podem ser muito relapsos nessas medidas.

Genocida pode ser aquele marciano que veste a carapuça por sentir que ela bem lhe cabe na cabeça. Se num dado momento a ciência recomenda determinadas medidas para salvar vidas e o marciano que tem poder para implementá-las, ou para o dar exemplo salvador, não se mexe, ou nega o que está sendo pedido, pode ser chamado de marciano genocida. Tome-se um exemplo ocorrido em Marte: um vírus ameaçava o planeta. A Organização Marciana da Saúde (OMS) recomendava o uso de máscaras, higiene das mãos e, no pico das contaminações, que os marcianos ficassem em casa. Quem podia, em primeiríssimo lugar, fazer cumprir essas recomendações se opôs a elas. Além disso, indicava como solução o uso de medicamentos que a OMS considerava ineficazes. Milhares de marcianos morreram. Mais do que em outros planetas em que as medidas foram obedecidas e legitimadas por quem de direito. Não se poderia falar, no mínimo, de um comportamento culposo? Ou, diante do cenário em questão, seria o quê? Doloso mesmo?

Se há o plano das jogadas políticas, em que rotular o oponente de algo grave pode render votos, há também os planos lógico e pragmático, pelos quais quem tem o poder de influenciar e não o faz pode ser visto como conivente com o desfecho ocorrido. Genocida pode ser também aquele que não age quando deveria ter agido para, pelo menos, tentar evitar o pior. Ainda seguindo o exemplo de Marte, se surgem vacinas para debelar a peste e aquele que deveria ser o primeiro a tomar e, mais uma vez dar o exemplo, não o faz, deixando marcianos desprotegidos, o que se deve dizer dessa atitude? O argumento de que, de toda maneira, vacinas foram compradas, distribuídas e aplicadas não elimina o fato de que a negação dos seus efeitos positivos levou muito marciano a não se imunizar.


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Genocida pode ser aquele marciano que por birra, ignorância, cálculo político, estupidez, obscurantismo, ideologia, ou alguma razão que a razão não consegue captar, prefere colocar em risco do que tentar proteger. Um purista talvez diga que só se pode falar em genocídio quando há determinação consciente de matar uma grande quantidade de marcianos. É sabido, porém, que em Marte certos conceitos podem ser ampliados para dar conta de situações atrozes em momentos de estupefação e medo, quando se espera que os condutores do planeta atuem como vetores de esclarecimento e disseminação de racionalidade e cientificidade. Avisos não faltaram.

Nos últimos anos os marcianos viram surgir genocidas de esquerda e de direita, embora a direita marciana jure que não existe mais esse negócio de direita e esquerda. Uns genocidas são mais teimosos e perigosos do que outros. Emas marcianas mantiveram a cabeça erguida, mandatários marcianos bancaram o avestruz das anedotas e das vulgatas, confrontando o que a ciência dizia, enquanto milhares lotavam hospitais e neles morriam entubados. A prova de que os marcianos negacionistas estavam errados é que, mesmo com grandes contaminações, o número de mortes tornou-se baixo em Marte. Triunfo das vacinas. Genocida pode ser o marciano que não faz o que deveria fazer, dispara contra a ciência, mata a verdade e não se engaja com todas as forças na salvação de vidas.

Alguém conhece quem possa se encaixar nesse conceito?

Certamente não. Salvo quem já foi a Marte.

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