Juremir Machado da Silva

Olívio como ele sempre foi

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Olívio como ele sempre foi

Convidei Olívio Dutra para um Terra Mátria num encontro cheio de gente no Theatro São Pedro. Ele topou de cara. Quando telefonei, dias depois, para marcar, ele se lembrava perfeitamente do convite. Antes que eu dissesse a razão da minha ligação, ele se antecipou e falou:

– Vamos marcar a live?

Na ocasião, ele ainda não era candidato ao senado. A nova condição fez a agenda transbordar. Mesmo assim ele não hesitou em manter o compromisso. A conversa mostrou Olívio como ele sempre foi: detalhista nas respostas, cheio de metáforas gaúchas, coerente com seu percurso e animadíssimo com a candidatura até pouco tempo fora de cogitação. O velho guerreiro volta à frente de combate como um jovem. Diz estar, aos 81 anos de idade, menos rápido, mas com a cabeça funcionado plenamente. Eu brinquei: um jogador que não faz a correria da gurizada, mas conhece os atalhos do campo e corta caminho.

Olívio Dutra fala em adversários políticos, não em inimigos, referindo-se aos concorrentes Ana Amélia Lemos e Hamilton Mourão, a quem prefere não chamar de general por, no caso, como militar da reserva, ser um cidadão como qualquer outro concorrendo a um cargo eletivo. E Bolsonaro é um inimigo? A resposta é bem ao estilo do ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador do Rio Grande do Sul, ex-ministro e sempre militante de esquerda: “Bolsonaro é um inimigo da democracia, não um inimigo pessoal meu”. Eis o homem sendo ele mesmo.


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O que leva um senhor octogenário, de origem humilde, tendo ido ao topo de uma carreira política, voltar a concorrer? Para Olívio, a idade não apaga a chama nem desobriga de lutar quando a democracia está ameaçada. Para novos momentos, novos formatos: um mandato coletivo ao senado. Afinal, no senado estão os representantes das unidades da nação. Olívio faz questão de explicar que não quer ser senador para defender interesses pessoais ou de quem quer que seja. A sua pegada é coletiva: dividir o palco com outros protagonistas.

Acusado incansavelmente por adversários, inimigos e pela mídia de ter “mandado a Ford embora” do Rio Grande do Sul, quando era governador, Olívio fez o balanço do episódio com serenidade e uma ponta de ironia. Depois de ganhar bastante e beneficiar-se com isenções fiscais, a multinacional deu a volta nos seus benfeitores e encerrou atividades gerando perplexidade, desemprego e silêncio da parte dos seus mais fervorosos defensores. Com seu jeito, o gaúcho da Bossoroca deixou claro que a história lhe deu razão. Tempo, tempo…

Olívio Dutra lembrou o quanto as acusações da Lava Jato contra o Partido dos Trabalhadores o abateram. Salientou a importância do combate à corrupção, destacou o quanto é imprescindível a transparência no trato da coisa pública e recordou do papel dos pais na formação de sua consciência ética. Eram pobres, não podiam dar a melhor roupa aos filhos, mas os ensinavam a não se humilhar nem se envergonhar do que eram e tinham. O velho Olívio continua um jovem rebelde que não teme temporal nem cara feia de coronel ou general.


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