Juremir Machado da Silva

Pensar o impensável

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Pensar o impensável Detalhe da capa do livro de Hélène Cixous

Na reversibilidade o fim se apresenta como um começo. Toda contradição vira paradoxo, que é a única promoção possível ao ilógico.

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No Dia Internacional da Mulher, o lançamento no Brasil do clássico de Hélène Cisoux, O Riso da Medusa é uma convocação ao pensamento emancipador. Os freudianos ortodoxos terão algo a dizer?

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Passados sessenta anos do episódio da tentativa soviética de instalar mísseis em Cuba, muitas pessoas de esquerda, em função da invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, finalmente dão razão aos Estados Unidos, o que é uma maneira de continuar do lado da Rússia.

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Segundo a vulgata, deve-se possuir armas nucleares para nunca ter de usá-las. Logo, se a OTAN instalasse na Ucrânia os seus artefatos jamais poderia acioná-los contra a Rússia, sob pena de receber resposta equivalente. Salvo se os Estados Unidos fossem tão rápidos no gatilho atômico que destruíssem os russos antes que eles pudessem reagir, o que seria uma catástrofe tão gigantesca quanto indesejável, exceto numa Guerra Fria, que já era uma maneira de evitar o calor dos desatinos. Mas existem as armas nucleares táticas, a escala nuclear do varejo. Ainda assim seria cutucar ogivas com peças curtas. Chance mínima.


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Conclusão que será chamada de precipitada:  civis, entre os quais crianças, morrem para que um velho autocrata canalha reprima o seu suposto medo de uma ameaça tão fictícia ou improvável que, para se tornar realidade, teria de desencadear uma guerra nuclear definitiva.

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Críticos do simplismo de quem vê a Rússia como agressor e a Ucrânia como agredida apresentaram até agora como argumento mais sofisticado esta pérola da geopolítica: a Ucrânia e a OTAN provocaram.

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Apoiada pelas poderosas nações ocidentais, a Ucrânia é vítima de um paradoxo: não pode ser defendida militarmente, não por não fazer parte da OTAN, mas para que não aconteça uma guerra nuclear. Logo, fazer parte da OTAN seria a sua única defesa. Logo, integrar a OTAN nada mudaria. Logo, não é impossível que uma guerra nuclear ocorra.

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Há quem diga que a guerra na Ucrânia nada tem de ideológica. Tudo não passaria de uma provocação do imperialismo yankee do Tio Sam.

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A prova, conforme os críticos das simplificações, de que a Ucrânia não quer entrar na OTAN por ter mais medo da Rússia do que da Europa e dos Estados Unidos é que um ataque russo nunca aconteceria.

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A Ucrânia estaria sendo seduzida a aderir à OTAN como um passo para entrar na União Europeia. Parece um argumento imbatível. O que estará sendo oferecido à rica, bem-sucedida e igualitária Suécia?

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Uma derrota da Rússia representaria um perigo para a democracia, pois reforçaria a tendência para um mundo unipolar, dominado pelos Estados Unidos, ou bipolar (em todos os sentidos do termo), dividido entre China e EUA. Do ponto de vista da democracia, essa instituição liberal tão cheia de defeitos, mas ainda não substituída por nada melhor, qual seria a contribuição da Rússia para a multipolaridade?

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Tudo seria consequência do golpe de 2014 na Ucrânia. O cético, que será chamado de reacionário e direitista, resta provar que golpe houve. Prova, contudo, virou um simples recurso numa narrativa.

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Quase todo dia Vladimir Putin confessa as razões profundas da invasão da Ucrânia: para ele, russos e ucranianos são um só povo. Além disso, ele quer eliminar a direita ucraniana anti-Rússia. Não o ouvem.

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O preço do aplauso seria a eterna dependência das mãos alheias.

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Parêntese da semana

O folhetim da Taiasmin Ohnmacht liga a ficção científica ao debate identitário e mostra que nada escapa do olhar total.

Guerra e paz

Guerra e paz, de Tolstoi, é um dos mais belos livros e todos os tempos. Vale a (re)leitura nestes tempos tristes. Trata das campanhas de Napoleão na Rússia. Em 1812, Moscou foi tomada. Conquistar a alma do povo, contudo, era outra coisa. Napoleão bateria em retirada. Tolstói descreve oito pontos de vista de entendidos sobre como a Rússia deveria enfrentar Napoleão. Resumo os três mais divertidos: “O primeiro partido se compunha de Pfful e outros teóricos da existência de uma ciência da guerra, que repousa sobre leis imutáveis, tais como o movimento oblíquo, o cerco do inimigo, etc”. Eram os geopolíticos da época. “O segundo era diametralmente oposto, um extremo chamando sempre outro. As pessoas desse partido reclamavam desde Vilna a ofensiva na Polônia e o abandono de todo plano de antemão traçado. Representantes da audácia na ação, encarnavam além disso o espírito nacional e se mostravam em consequência mais intransigentes ainda que seus adversários”.

Era o grupo do vamos que vamos. “O terceiro partido, o que inspirava mais confiança ao imperador, compreendia principalmente cortesãos […] Essas pessoas preconizavam acomodações entre as duas tendências extremas. Pensavam e diziam o que dizem comumente os que não têm convicções, ao mesmo tempo que desejam tê-las”. O príncipe André não acreditava em ciência da guerra. A questão era: “Haverá ciência possível numa matéria em que, como em toda coisa da vida prática, nada poderia ser previsto, ou tudo depende de circunstância inúmeras, cuja importância só se revela num único minuto que ninguém sabe quando soará?” André não acreditava em “gênio militar”.

“Pfull era um desses teóricos tão aferrados à sua teoria que se esquecem de sua finalidade, isto é, a aplicação prática: por amor à teoria, desprezava qualquer prática. Regozijava-se mesmo com um desastre, porque um desastre, provindo de duma violação da teoria na sua aplicação, não lhe provava outra coisa senão a justeza de suas ideias”. Pfull nunca perdia. Bastava ter paciência para esperar as ocasiões em que a realidade confirmaria as suas teses dogmáticas.

“Pfull era uma dessas criaturas que uma confiança desesperada em suas ideias pode levar até o martírio, e que só se encontram na Alemanha, porque somente os alemães baseiam sua segurança sobre uma ideia abstrata, a ciência, isto é, o pretenso conhecimento da verdade absoluta. O francês está seguro de si porque imagina que exerce, quer pelo seu espírito, quer pelo seu físico, uma sedução irresistível, tanto sobre os homens como sobre as mulheres. O inglês está seguro de si porque se crê o cidadão do Estado mais policiado do mundo: na qualidade de inglês sabe sempre o que deve fazer […] O italiano está seguro de si porque sua natureza facilmente emotiva fá-lo esquecer-se de si mesmo e dos outros. O russo está seguro de si mesmo porque não sabe de nada e de nada quer saber e porque não crê que possa conhecer perfeitamente o que quer que seja”.

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