Juremir Machado da Silva

Privatização da Redenção

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Privatização da Redenção Foto: Eduardo Beleske/PMPA
Se me dissessem um dia que uma empresa privada abriria bares ou restaurantes bem no meio do Parque da Redenção, em Porto Alegre, eu diria, sem hesitar nem me constranger, fazendo aquele gesto com a mão:

– Ficou louco?

Pois não é que em breve eles serão inaugurados e ninguém se importa com isso. Louco estou eu, falando sozinho sobre esse assunto.

Mil metros quadrados da Redenção, que, como sabe quem caminha ali, é pequena, serão consumidos pelos eleitos da prefeitura.

O que havia ali antes? Um “inútil” orquidário?

Por que não há mais? Porque ninguém cuidava dele.

Há quem argumente que, sem onde consumir, o interesse pelos parques se esgota, logo e que é moderno demais plantar bares em meio à natureza, no coração desses espaços de respiração cercados de concreto. A sociedade de consumo não para de ampliar sua extensão.

Eu achava que para semear bares no meio de um espaço sagrado como a Redenção precisaria ter um referendo, um plebiscito. Nada.

Pensava que haveria manifestações de ecologistas, esquerdistas, amantes do parque, sei lá, contra essa privatização por tempo determinado, que pode se tornar interminável. Nada. Que estranho!

Carros rodam cada vez mais na Redenção. Em torno do tal “polo gastronômico”, nome pomposo para fazer passar a boiada e engolir o abacaxi, já tem um pequeno estacionamento de veículos auxiliares.

Leio que até no Jardim de Luxemburgo, em Paris, é assim. Nos anos que frequentei esse lindo lugar vi algumas vezes aberto um modesto quiosque. No entorno do Jardim há bistrôs, bares, restaurantes, livrarias. Ouso dizer como na Osvaldo Aranha, na Venâncio Aires, etc. Mas Paris também muda e agora no Luxemburgo tem um restaurante, dois bistrôs e vários quiosques. Nem a França, último reduto da singularidade gaulesa, resiste ao apetite do consumo.

Sei que vai ser moda frequentar o “polo gastronômico” da Redenção, que será o point da galera gourmet, o lugar por excelência da happy hour das pessoas fashion e deu pra bola. Verei navios.

Quatrocentas pessoas bebendo e comendo nas noites da Redenção.

A isso se chamará revitalização.

Estaremos conversados.

Quem quiser apenas silêncio, paz, passarinhos, grama e outros coisas que não dão dinheiro que vá para o meio do mato. Acho que vou.

Ainda tomarei flauta quando o negócio bombar:

– Viu, imbecil, como funciona!

Para mim, bar na Redenção é uma ideia estapafúrdia.

Quer comer e beber ali? Faz um piquenique.

Li que a feliz ideia será compartilhada com outros lugares: Parcão e Germânia. Um projeto tão democrático precisa ser dividido.

Tão simpático, o prefeito Sebastião Mello passa o neoliberalismo total como se fosse um passeio no parque. O vice, Ricardo Gomes, agradece. Nunca pensou certamente que teria um porta-voz tão bom.

Morrerei abraçado com as causas perdidas.

Esse silêncio todo só pode indicar que estou errado.

Ainda verei um shopping no Instituto de Educação.

Há raposas que prometem cuidar bem dos galinheiros!

Continua...

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