Juremir Machado da Silva

Terceira vaia

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Terceira vaia Foto: Maicon Hinrichsen / Palácio Piratini

Março chegou. O ano, enfim, começou. A hora é dos blocos eleitorais. O jogo parece que será jogado mesmo por Lula e Bolsonaro. Todos os outros são coadjuvantes. A terceira via não tem alça de acesso. Não sobe. Desce. Sérgio Moro continua na pista por falta de acostamento ou de saída. Depois que o deputado Mamãe me Ferrei defecou pela boca sobre as ucranianas, o ex-juiz derrapou de vez. Está tomando quatro ou cinco voltas dos líderes. Certos apoios tendem a tirar a estabilidade mesmo nas retas. Só lhe resta acreditar nas trocas de pneus. Moro se acha um ótimo candidato. Se tivesse um programa para chamar de seu e conhecimentos específicos de um assunto como economia, coisa que ignora grandiosamente, poderia sonhar em não fazer feio.

Bolsonaro aposta nas suas “bondades” de última hora para dar um cavalo de pau. Acontece que tantas fez o tiozão que parece ter um peso nos pés. Podem ser os coturnos. Tem general vidrado nas eleições francesas, torcendo por Marine Le Pen ou Eric Zemmour, os representantes da extrema direita, que tomarão um baile de Emmanuel Macron, pois a França não ultrapassa uma linha vermelha: direita republicana e esquerda unem-se para barrar a eleição de pretendentes parecidos com Jair Bolsonaro. Apesar do grande esforço da mídia bolsonarista, encastelada em emissoras de rádio pelo país afora, o capitão está atolado. Se deu uma melhorada, não trocou de patamar.

Depois da orgia, o país parece de ressaca. O que fazer com um pessoal que, diante da pergunta sobre quem mandou matar Marielle, responde com o nome do infeliz do Adélio, aquele que esfaqueou Bolsonaro, segundo investigação da Polícia Federal, por ideia própria. O bolsonarismo está desesperado. Pretendia ficar no poder para sempre. Imaginava que o STF seria fechado ou modificado. Acreditou no golpe do 7 de setembro, que terminou com uma mesóclise do Michel Temer, aquele que conspirou contra Dilma Rousseff até lhe tomar o cargo para executar como plano de governo o conteúdo de duas folhas de papel exibidos por seus aliados em programas de rádio, a tal “Ponte para o futuro”, que se resumia a minimizar o Estado para alegria máxima de uns e prejuízo dos outros. A justiça do trabalho foi estraçalhada.

O governador do Rio Grande do Sul, o jovem e atilado Eduardo Leite, está sendo convidado a largar dos boxes para tentar dar nova vida à moribunda terceira via. Corre sério risco de ficar a pé e desempregado. O PSD de Gilberto Kassab não hesitará em apoiar Lula se considerar que a fatura estará liquidada no primeiro turno. Senadores do PSD já mandaram o recado: preferem a barca menos arriscada. Leite fez uma bobagem, talvez por ser jovem: declarou mil vezes que não concorreria à reeleição no Rio Grande do Sul. Era parte de uma estratégia política que agrada alguns, especialmente os ricos: o político que promete ser o menos político possível e não ficar muito tempo na área. Pendurado na palavra, concorre à presidência da República, ou, se cair em tentação de negar o jurado, será confrontado todos os dias com sua boa dicção em muitas oportunidades cristalinas.


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Líder da corrida a sete voltas, quer dizer, sete meses da bandeirada, Lula tenta controlar a ansiedade e a língua. Não pode dizer nada que arme os adversários. O tempo é o seu maior inimigo. Nada de braçada na primeira via (raia). Dá para ver o nariz de Bolsonaro na segunda (Pinóquio é fichinha). Já na terceira via/raia não se vê ninguém. Depois de alguns minutos, surge lá atrás, bem distante, um vulto, que não se avulta, nadando, nadando, até a praia.

Até agora a terceira via só toma vaia.

Salvo se a onda virar.


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