Juremir Machado da Silva

Ministério da doença

Change Size Text
Ministério da doença

Jair Bolsonaro diz que não abre um livro há três anos. É fake news. Ele jamais abriu um. Se tivesse lido, se sentiria personagem de um clássico. Nunca na história deste país, de tantos clichês, tantas inversões tornaram-se realidade. O governo assumiu a forma de desgoverno. O Ministério da Desverdade defende a liberdade de expressão como o direito exclusivo de espalhar mentiras. O Ministério da Doença ganhou destaque internacional na última sexta-feira ao liberar um documento no qual se afirma que a hidroxicloroquina funciona contra a Covid-19 e é segura. Já as vacinas, segundo o “desassessor”, não seriam seguras nem teriam eficácia comprovada. Cloroquina, sim. Vacinas, não.

Perplexidade. No desgoverno do capitão, científica é a ideologia que ele defende. Até o Posto Ipiranga passou por uma inversão e não tem qualquer informação a dar. Fala com ele, fica mais desinformado. Para se entender a dinâmica aplicada pelo desgoverno é preciso um glossário. Ignorância: a ciência do bolsonarismo. Obscurantismo: a luz que guia os adeptos do ignorancialismo. Verdade: mera narrativa (mais narrativa ainda se tiver a digital do Carluxo). Superministro: trouxa com ego inflado que dá legitimidade inicial ao desgoverno e é fritado assim que morde a isca. Sistema: tudo aquilo que o candidato Jair Bolsonaro fingiu combater para, depois de eleito, abraçar e consagrar com cargos e verbas. OMS: Organização Mundial da Saúde que o desgoverno deve sempre contrariar com decisões estapafúrdias convertidas em verdades inquestionáveis mesmo à custa de hospitalizações e mortes. Poder civil: desgoverno recheado de militares, todos, claro, de terno e gravata.

Como diz um meme de grande circulação: criticar o desgoverno de Bolsonaro não faz de você um comunista, mas apenas uma pessoa sensata. O capitão, porém, não se conforma como algumas inversões, arrogando-se o direito de só ele inverter as coisas. Ele não se vacinou. Orgulha-se disso. Não perde oportunidade de sugerir que as vacinas são inúteis e perigosas. A maioria da população, contudo, já se vacinou. As pessoas perceberam que vale inverter cada coisa. Se Bolsonaro dá uma ordem:

– Avante.


Publicidade Publicidade

Quase todo mundo recua.

Se ele sugere:

– Não se vacinem.


Publicidade Publicidade

A reação é imediata:

– Tomem aqui o meu braço.

O estrago, apesar dessa resistência, é enorme. O Ministério da Doença tentou sabotar a contagem dos infectados e mortos pela Covid-19. Mandou para o Amapá equipamentos necessários em Manaus. Insiste no Kit-Covid, abandonado por toda parte. Apostou na tal imunidade de rebanho, ideia que carneirinhos lobotomizados continuam a defender na mídia, pela qual a pandemia terminaria mais rapidamente se um número maior de pessoas adoecesse de imediato. A quantidade de mortes que poderia resultar dessa desleitura do perigo não foi projetada ou foi minimizada. Afinal, conforme a mensagem do capitão, morrer é do jogo.

O Ministério da Doença não explicou a razão que o levou a contrariar recomendação técnica. Talvez quisesse apenas produzir uma desnotícia para mobilizar a base do desgoverno, que vibra com a negação da ciência, do bom senso, da medicina por evidência e das pesquisas, mas, anônima, de boné e máscara, toma vacina, até a Coronavac.

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.