Juremir Machado da Silva

Muriel Barbery, literatura para compreender a condição humana

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Muriel Barbery, literatura para compreender a condição humana Muriel Barbery/Foto Ana Rodrigues

      Francesa, nascida no Marrocos, em 1969, tendo morado no Japão, Muriel Barbery esteve em Porto Alegre, em 5 de junho de 2024, como convidada do Fronteiras do Pensamento. A autora de A elegância do ouriço, best-seller com mais de 12 milhões de exemplares vendidos,palestrou no Teatro da Unisinos. Antes, no camarim, aceitou gravar uma rápida entrevista comigo, que seria o apresentador da sua conferência. Discípula confessa de Milan Kundera, ela defende uma literatura intuitiva e capaz de ajudar a compreender a existência. Para palestrar em Porto Alegre ela aceitou vir de avião até Florianópolis e de van até a capital gaúcha. Depois da sua fala, Muriel Barbery autografou alguns dos seus títulos, entre os quais o romance Uma hora de fervor

– A senhora é marroquina…

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Muriel Barbery – Não, sou francesa. Eu sou filha de pais franceses que moravam no Marrocos.

– O seu conhecimento do Marrocos então é…

Muriel Barbery – Meus pais viveram muitos anos lá, a gente ia no verão. Eu passei bastante tempo na infância entre França e Marrocos.

– Ainda mora no Japão?

Muriel Barbery – Não. Faz quinze anos que saí do Japão.

– Por que foi morar lá?

Muriel Barbery – Porque eu era apaixonada pela cultura japonesa, que havia descoberto graça ao meu primeiro marido, cinema, as artes tradicionais. Eu sonhava em ver de perto essa cultura ao mesmo tempo estranha e muito diferente.

– Quanto tempo ficou lá?

Muriel Barbery – Dois anos.

– Essa experiência a transformou?

Muriel Barbery – Sim, de modo profundo, esteticamente, espiritualmente, de todos os pontos de vista. Não está longe de ter sido a experiência mais extraordinária de toda a minha vida.

– Mesmo para a sua literatura?

Muriel Barbery – Depende, mas penso que sim, a começar pelos assuntos, pois dez anos depois de deixar o Japão eu escrevi dois romances que se passam lá. Mudou também a minha relação estética com o texto. Não só o Japão, mas o Japão também contou para o desejo de ter uma escrita mais sóbria, mais precisa, mais justa, com uma poesia mais enxuta.

– A primeira coisa que me impressiona no seu texto é a frase clara, límpida. A senhora trabalha muito para isso, é um projeto estético? Em geral, do ponto de vista moderno, parece haver uma busca de uma frase difícil, obscura, às vezes, mas não é o seu caso.

Muriel Barbery – Não é o meu caso em A elegância do ouriço, mas escrevi livros muito diferentes. Em particular, nos dois livros posteriores a essa, usei um estilo bastante lírico e complexo. Adoro variar de estilo. Os temas são praticamente os mesmos, mas a variação da estética do texto permite perceber outras facetas da questão. Então escrevi textos sóbrios e textos muito mais líricos e caudalosos.

– Como é a recepção desses textos? A mesma?

Muriel Barbery – Nunca. Quando se muda muito de registro, nunca se tem a mesma recepção.

– Está escrevendo algo agora?

Muriel Barbery – Acabo de terminar um romance que será lançado dentro de dois meses.

– Qual será o título?

Muriel Barbery – Vai se chamar Thomas Helder, do nome de um dos personagens principais, um escritor holandês que acaba de morrer e cujos parentes se reúnem depois do funeral. Ele é holandês porque eu vivi três anos em Amsterdam depois de ter morado em Kyoto.

– Que registro escolheu?

Muriel Barbery – O mais límpido e contido possível.

– O que lhe dizem os editores quando o texto é mais complicado?

Muriel Barbery – Eu sempre recebi apoio dos meus editores.

– Gostei muito do seu livro, que Cláudia, minha mulher, me disse para ler. Por que realmente a escolha de um ouriço?

Muriel Barbery – Isso está no livro, é apenas uma metáfora.

– Sim, eu vi, mas existem outros bichos que poderiam servir.

Muriel Barbery – No caso, foi meu marido de então que sugeriu o título, mas em seguida ele disse para eu esquecer. Eu sabia, contudo, que era uma boa ideia. O meu editor não queria. Insisti e creio que eu estava com a razão.

– Que outra possibilidade havia?

Muriel Barbery – Não havia.

– Às vezes, então, é preciso contrariar os editores.

Muriel Barbery – Sim, mas é sempre um diálogo com os editores. Quando se tem um bom editor, com parceria, pode-se discutir.

– Nas traduções, por exemplo, para o Brasil, houve tentativa de mudar o título?

Muriel Barbery – Não. Em geral, isso não acontece, uma ou duas vezes.

– No seu caso, há uma busca pelo registro bem-humorado?

Muriel Barbery – Não. Esse livro eu me diverti escrevendo. Nem todos os meus textos são engraçados. Mais uma vez, escrevo textos muitos diferentes entre eles.

O tema de A elegância do ouriço parece, no começo, um tanto improvável, uma zeladora culta, uma menina que quer morrer, tudo isso foi uma maneira de mostrar um mundo real, que conhece, ou tudo é inventado?

Muriel Barbery – Tudo é sempre inventado. Nos meus romances, mesmo se há fragmentos de experiências que ajudam a imaginar, eles são realmente fragmentos.

– Quanto tempo para escrever um livro como A elegância do ouriço?

Muriel Barbery – Não muito tempo, neste caso. Era um livro bastante fácil de escrever, pois não tem uma intriga complicada. São monólogos entremeados não muitos difíceis de fazer. Na época, eu era professora e escrevia durante as férias escolares. Alguns meses…

– Entre escritores é bem-visto dizer que se levou alguns anos.

Muriel Barbery – Existem livros que levei alguns anos para escrever, mas não esse.

– Que sinceridade! Alguns meses, em férias.

Muriel Barbery – Sim, eu trabalhava, dava aulas, tinha que lidar com estudantes, havia muita coisa a fazer, como você bem sabe.

– O fato de ter sido professora contribuiu para a sua maneira de escrever?

Muriel Barbery – Não. Escrevo desde os dez anos. Escrever era uma vocação precoce. Ensinar é algo muito diferente.

– Pensava em se tornar escritora?

Muriel Barbery – Não. É impressionante dizer que se quer ser escritor. A gente escreve. Às vezes, o que se escreve é publicado.

– E funcionou. Foi possível parar de lecionar.

Muriel Barbery – Sim, mas não depois do meu primeiro romance, A morte do gourmet. Depois, sim, e hoje vivo da minha pena, o que é um privilégio.

– Não há muitos no Brasil nessa condição.

Muriel Barbery – Por toda parte é difícil.

– Como vê a situação literária na França.

Muriel Barbery – Catastrófica.

– Eu traduzi Michel Houellebecq, de quem sou amigo. Na época, dizia-se que ele havia feito uma revolução e que a literatura francesa, ainda marcada pelo Novo Romance, estava morta.

Muriel Barbery – Essa morte já foi anunciada uma centena de vezes.

– Está viva ou não?

Muriel Barbery – Sim, há romancistas muito bons neste momento. O problema é o que mercado editorial está em crise. A literatura de ficção passa por uma queda catastrófica. As vendas de romances literários, não falo de livros comerciais, estão muito baixas.

– Quais são as causas dessa crise?

Muriel Barbery – Penso que é uma conjunção de muitos fatores, como a concorrência de outras formas culturais, como as séries. Olhar uma série exige muito menos esforço do que ler um livro. Ler um livro obriga a criar as próprias imagens, é aceitar a entrada num universo em que se é também criador. Vivemos num mundo de grande imediatismo. Uma obra literária, que implica justamente tomar distância em relação ao instante presente, tem cada vez menos procura. É um problema de civilização, na verdade.

– Alguma preocupação com a Inteligência Artificial, que se torna criativa, em relação à literatura?

Muriel Barbery – Depende do que entende por se tornar criativa. Não tenho medo pelo tipo de livro que eu escrevo, pois acho que os leitores vão sempre querer ler obras literárias escritas por seres humanos. Em contrapartida, existem textos que, produtos de consumo cultural, poderão ser escritos por Inteligência Artificial.

– O que é a literatura em 2024?

Muriel Barbery – A mesma coisa de sempre: ajudar a compreender a vida. Meu mestre, Milan Kundera, grande mestre, atesta que num mundo moderno de saber abundante, mas fragmentado e hiperespecializado, é muito difícil ter uma visão global da condição humana. Ora, desde a sua invenção, o romance assumiu essa tarefa como um grande observatório dessa condição humana em sua globalidade.

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