Juremir Machado da Silva

Professor sofre

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Professor sofre

Até metade de janeiro o governo federal não havia definido o piso do magistério. Prefeitos esperam que, por medida provisória, em vez de ter de pagar 33,23% de reajuste, conforme projeção a partir da regra aplicada a cada mês de dezembro, haja congelamento. Entre nós, mas que todo mundo nos ouça, professor sofre. Come o pão que o diabo amassou. Pode-se imaginar que o diabo não seja bom padeiro. Professor trabalha muito, ganha pouco e dele se espera enormemente. Não existe prefeito, governador ou presidente da República sem professor. Se bem que tem cara aí que não deve ter frequentado qualquer escola. Não direi o nome nem torturado. No máximo, as iniciais: JB. Pronto, falei, sob pressão.

Professor sofre muito. Se faz greve, por necessidade, que ninguém faz por esporte, toma pau dos porta-vozes dos donos da mídia. Alguns ganham uma miséria, mas arrotam como se recebessem salários milionários para defender os interesses dos patrões. De resto, o que ganha um patrão ajudando a manter o poder aquisitivo de uma categoria numerosa tão baixo? Professor sofre. Os seus representantes tomam chá de banco de governador, são ignorados por secretários de educação, levam drible de deputado, veem o salário sumir antes do final do mês. O pior é ter de ouvir batráquio dizer: “Não está satisfeito? Por que não escolheu outra profissão?” Eu me retrato. Prontamente. O que me deu de insultar os batráquios? Que fizeram esses seres para eu feri-los dessa forma?

Quando, numa noite de julho, incorporei o abade de Sieyès, abri a janela do sétimo andar e perguntei aos berros: o que é o professor? Respondi de bate-pronto: tudo. O que tem sido, em termos de salários e de respeito público, até agora? Nada. O que ele pede? Alguma coisa. Aumento, respeito, consideração, justiça. Um passante, de camisa da seleção brasileira, me mandou calar a boca: “Vai dormir, comunista”. Perdi o sono. Professor sofre. Precisa ser moderno, pós-moderno, hipermoderno, otimista, psicólogo, enfermeiro, pedagogo, consultor, conselheiro (qual a diferença entre consultor e conselheiro?), pai, mãe, tudo, por quase nada, com muito amor e pouca retribuição. Eita!

Quando penso em professores me voltam à cabeça estes versos: 


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“Brava gente brasileira!
Longe vá, temor servil
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.”

Cadê a independência? Só morrer pelo Brasil não dá mais.

Não estou falando de professor universitário, tribo a que pertenço, mas do pessoal que labuta bravamente nas grandes linhas de frente do ensino fundamental e médio público. Professor sofre em ônibus abarrotado, escola com goteiras, salas lotadas, instalações precárias, falta de condições mínimas de trabalho, contas para pagar, mês longo, salário curto, pix sem fundo. O que tem de escola perdendo os pedaços por aí é uma grandeza. Isto é, uma pequenez. Leva uma eternidade para arrumar. A burocracia não tem pressa nem estabelece “privilégios”. A fila não anda. Se teto pode esperar, por que piso não esperaria? 


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Assim parecem pensar os donos do poder.

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