Juremir Machado da Silva

Robinho condenado

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Robinho condenado Foto: Bruno Cantini/Atlético MG

O melhor de Robinho foram as pedaladas. Faz muito tempo. Quem não se lembra do jogador do Santos e da seleção brasileira apavorando defensores com suas passadas frenéticas sobre a bola? Nos últimos tempos, porém, Robinho vem pedalando a justiça italiana, que o condenou, ontem, a nove anos de prisão por estupro. Refugiado no Brasil, Robinho dificilmente será extraditado, pois o nosso país não entrega os seus naturais. Restará aos italianos pedir que a pena seja cumprida a domicílio. A primeira pergunta do homem comum (eu) é trivial: como foi que o jogador cometeu uma barbaridade dessas?

A resposta pode estar numa definição de humano que não consta nos manuais: animal, às vezes, racional. O leitor, mais sofisticado do que o cronista, faz outras perguntas: é justo um país proteger um condenado, não o deportando, só por ele ser um dos seus? Isso não significa desacreditar a justiça de uma nação aliada? Durante muito tempo, como se sabe bem demais, a impunidade nesse tipo de crime predominou. O jogo agora virou. A sociedade cobra. Cuca, treinador muito vitorioso com o Atlético Mineiro, ainda deve explicações sobre uma acusação de estupro, acontecido em 1987, na Suíça, quando atuava pelo Grêmio. A torcida quer ouvi-lo. Eu cobria o dia a dia do tricolor e me lembro que até a mídia passou muito pano. Os fantasmas saem dos armários e pedem respostas. Robinho vai pedalar a prisão?

Talento não absolve de crime. O cineasta Roman Polanski vive retrancado na Europa por causa de uma acusação de abuso sexual. Em 1977, nos Estados Unidos, manteve relação sexual com uma menina de 13 anos. Chegou a ser preso. Solto, pegou o primeiro avião para o Velho Mundo. Outro cineasta famoso, Woody Allen, vive acossado por seu passado. Uma filha adotiva garante que foi abusada por ele quando tinha sete anos de idade. O filho não o perdoa por ter se casado com outra enteada, considerando que o pai pratica incesto. Allen defende-se atacando quem o critica: “A cultura do cancelamento é estúpida e risível. Um dia ela vai passar e quem a alimentou vai olhar para trás e ficará envergonhado. Assim como aconteceu com o macarthismo”. 

Robinho pode achar que se meteu numa treta furiosa. Se estiver pensando assim, ainda não compreendeu a gravidade dos fatos. Um dos advogados do atleta (ou ex-atleta) tentou aplicar o truque habitual para aliviar a barra do cliente: acusar a vítima de ter provocado. Segundo ele, ao que parece meio alterado, ela estaria “tocando os genitais de Robinho e dos amigos”. O juiz não foi na conversa e mandou parar com a baixaria. No imaginário tóxico do machismo, a culpa é sempre da vítima por seus comportamentos ou roupas. Robinho deve estar desconversando consigo, dizendo que o bagulho é muito doido mesmo. Talvez ouça uma voz vinda de longe, muito longe, em tom desesperado, gritando, não, ordenando, implorando, recuando:


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– Pedala, Robinho, pedala.

É tarde demais. Pode até ficar solto, mas está marcado. Depois desse cartão vermelho, dificilmente encontrará camiseta para vestir.

Já era.


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