Juremir Machado da Silva

Santana do Livramento faz 200 anos, a revolução de 1923 faz cem

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Santana do Livramento faz 200 anos, a revolução de 1923 faz cem

É claro que, como reza o mandamento, eu saí de Santana do Livramento, mas Santana do Livramento nunca saiu de mim. Nem sairá. Livramento faz duzentos anos neste 30 de julho de 2023. Minha mãe, Eneida, faz 84 anos no mesmo dia. Cidade e mãe. Cidade-mãe.

O mais importante sinal de que está chegando a Santana é o cerro de Palomas.

Nós, da terra, dizemos Santana. A grafia oficial seria Sant’Ana do Livramento. Conta-se que por ali andaram primeiro charruas e minuanos. Bem antes, preguiças gigantes. Depois, bem depois, jesuítas espanhóis. Por fim, portugueses e italianos. As pegadas de italianos estão em nomes como Florentina, distrito rural onde nosso avô tinha um campinho. Lá passei alguns dos melhores dias de minha vida. Túlio era filho de França, que aparece numa foto com seus enormes bigodes.

Livramento saiu de uma costela de Alegrete, que continua sendo o maior município em extensão de terra do Rio Grande do Sul. Livramento é o segundo. A rivalidade entre Livramento e Alegrete permanece. Alegretenses gostam de dizer que Santana faz parte da Grande Alegrete. Santanenses dizem que uma placa na BR-290, perto de Rosário do Sul, antes de seguir para Livramento ou para Alegrete, informa: “Alegre-te, Livramento a 100 quilômetros”. E, como falam por aí, segue o baile.

Se Livramento faz 200 anos, a revolução de 1923, nossa última guerra civil, que ensanguentou a região da campanha, faz cem anos. Pode-se escrever assim: há cem anos, quando Santana Livramento comemorava um século como município, estourava a guerra civil, que seria imortalizada com o nome de revolução de 23, aquela que opôs, entre outros caudilhos, o rosariense e maragato Honório Lemes, que seria o “leão do Caverá”, ao santanense e chimango Flores da Cunha, então prefeito de Uruguaiana. As verdes coxilhas ficaram vermelhas de sangue. Houve renhidos combates em lugares como o Passo da Cruz e Palomas, onde minha alma infantil continua a soltar pandorga.

Flores da Cunha contou suas façanhas num livro sobre 1923. Honório Lemes era quase analfabeto. Mas teria a inteligência dos grandes estrategistas. Certo é que ambos se mostraram valentes.

Na guerra civil de 1923 não faltaram, como era costume, de parte a parte, degolas e degolados. O próprio Flores narraria: “Ao anoitecer, quando cessada a ação, percorri calmamente o terreno em que ela se desenrolara, verifiquei, com profunda indignação, que um revolucionário que, momentos antes, vira caído, morto por bala, aparecia agora degolado”. Nessas lutas da época não havia flor.

Flores, um civil que seria comandante da Brigada do Oeste, floreava um pouco: “Não havia ainda terminado a peleja quando, da cidade, nos chegavam alarmantes notícias de que outra força legal, comandada pelos coronéis Nepomuceno Saraiva e Pequeno Pedroso, tivera sangrento encontro com a vanguarda de Honório Lemes, entre o Passo do Guedes e as estações de Palomas”. Bem na frente de onde minha irmã Vera tem um sítio e onde o trem de turismo, que, enfim, vai entrar nos trilhos, desembarcará os passageiros em busco dos vinhos de Palomas.

Não posso me impedir de citar algumas das epopeias narradas por Flores da Cunha: “No primeiro choque dos rebeldes com Osvaldo Aranha, este chegou a tirar, com um tiro, o chapéu da cabeça do meu ex-condiscípulo Fidelis Coelho. Como este fosse muito calvo, Osvaldo Aranha, no entrevero, o confundiu com Chico Labarthe, nosso prisioneiro e que fora libertado na última passada da Brigada do Oeste por Livramento. Quando, à meia-noite, os rebeldes chegaram à grande casa de comércio do Sr. Modesto Belmonte, sita no Sarandi e fundada por Carlos Giudice, de veneranda memória, Fidélis Coelho viu-se na necessidade de comprar outro chapéu”. Nada mais lógica, paisano!

Antes disso, nos entreveros do Passo de Guedes e do Passo da Cruz até o médico Marques Pavão, que dá nome à rua onde mora minha mãe, em Livramento, “fez um disparo com Mauser, a mais de mil metros de distância e atingiu o alvejado, como pude verificar pelas declarações dos bolicheiros estrangeiros que ali negociavam”.

Bolicheiros eram jornalistas ao natural.

Outra história contada por Flores, ocorrida no Passo do Guedes – onde, menino, cheio de medo daquelas águas turvas, eu ia, ao final da tarde, buscar as vacas soltas na estrada – me obriga a citá-la:

“Outro episódio, e este lúgubre e lamentável, constituiu o de um disparo de revólver, feito contra dois revolucionários que, engarupados, fugiam: alcançou-os a ambos, a bala, na mesma altura da cabeça. O autor do tiro de revólver só dispunha de um projétil”.

Que precisão!

Em 13 de setembro de 1923, morreria o poeta uruguaianense Alceu Wamosy, ferido no combate de Ponche Verde, tendo escapado de ser degolado. Em combates noutras paragens, como em Carajazinho, já em outubro de 1923, Flores da Cunha se viu perseguido: “O meu cavalo, com os tiros de que faziam alvo, quase me derribou! Fogoso e embravecido pelo tiroteio, mal o podia conter pelo freio: num dos pulos que deu, fez saltar o revólver da cintura! Por fortuna, pude agarrá-lo, antes de cair no chão, e, com ele, revidar os disparos!”

Oigaletê!

Nessas lutas de antanho não faltariam membros da família de França Machado, meu avô. Flores da Cunha é quem conta: “Passou por mim a galope e falou-me o tenente Otalívio Diogo Hamilton, do 6º Corpo. Quando cheguei às imediações do passo, ele já não mais existia: tinham-no morto com uma bala, na ocasião em que procurava levantar do chão seu irmão, ferido, major Tauro Diogo Hamilton, nosso bravo guerrilheiro. Dos quatro irmãos Diogo Hamilton, servindo nas minhas forças, um caiu para sempre e dois ficaram feridos. Só escapou ileso o capitão Filadelfo; o capitão Davi teve o mento roçado por um tiro”. Tudo isso pelas bandas do Ibicuí da Armada e da Coxilha Santo Inácio.

Filadelfo seria genro do vovô França e fazendeiro em São Diogo.

E assim Lemes e Flores buscaram-se por lugares que nós, santanenses, conhecemos por realidade e imaginário: Cruz, Porteirinha, Santa Rita. Flores da Cunha não perdoava nem seus parceiros:

“Sentia-me tão mal, pelo meu estado e com o frio intenso que fazia, que encarreguei o Dr. Osvaldo Aranha de fazer, ao presidente do Estado, as comunicações relativas aos combates de Passo do Guedes e de Palomas. Daí para a frente fui, pouco a pouco, melhorando. Afinal, começaram a chegar, à estação de Santa Rita, os grandes trens militares em que avançavam o coronel Claudino [comandante militar] e as unidades componentes da Brigada do Oeste! Encontrei-o na estação, no momento do desembarque, e lhe disse:

– Então, coronel, só agora é que chega?

Retorquiu-me, com ar irônico:

– E o senhor?

Ao que revidei:

– Eu já combati.”

Ah, esses santanenses: 200 anos de história!

Feliz aniversário, mãe.

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