Juremir Machado da Silva

Sua excelência, o grande eleitor, a enchente

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Sua excelência, o grande eleitor, a enchente Foto: Giulian Serafim / PMPA

Bem diz o ditado que não tem jogo jogado. Há que se jogar cada partida. As eleições para a prefeitura de Porto Alegre em 2024 pareciam, contudo, fadadas ao tédio de uma definição no primeiro turno. O prefeito Sebastião Melo navegava no famoso céu de brigadeiro, que é aquele que não exige qualquer brigada aérea nem desempenho. Aí vieram as chuvas, as inundações, os flagelados, os estragos, as perdas em todos os sentidos, as revelações sobre a falta de manutenção do sistema de proteção contra o avanço do Guaíba e as desculpas esfarrapadas do tipo “ninguém fez antes de mim…” O jogo está aberto. Quem tem chances reais de levar? Depois de tudo o que aconteceu, Melo deveria estar fora do páreo. Não é o caso. Muita gente acha que choveu demais e que sendo assim nada é culpa dele.

Por outro lado, as chances da oposição melhoraram, ainda que o eleitorado menos petista não se entusiasme com a candidatura da deputada Maria do Rosário. Alguém pode correr por fora? A pedetista Juliana Brizola? O deputado Dr. Tiago? Algum nome ainda não revelado? Dificilmente haverá surpresa quanto a nomes. Em todo caso, o governador Eduardo Leite quer o ex-prefeito Nelson Marchezan na disputa. Os demais partidos parecem decididos a manter suas apostas. Mais fácil talvez Joe Biden retirar a sua candidatura nas eleições presidenciais dos Estados Unidos do que alguma alteração acontecer por aqui nas  chapas favoritas. A enchente será, sem dúvida, o grande eleitor. A campanha será centrada em torno dela. De um lado o campo do “choveu demais e o sistema não deu conta de tanta água”; de outro lado, o campo do “choveu muito, mas o sistema teria suportado se houvesse a manutenção adequada”. A enchente será associada às privatizações feitas ou planejadas pelos gestores de plantão.

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Haverá um duelo entre “vocês só queriam vender a cidade” e “vanguarda do atraso”. Tudo indica que pegará fogo. Se as regras não atrapalharem demais, teremos debates candentes. A velha questão ideológica, bolsonaristas X esquerdistas, talvez tenha menos importância, ainda que possa aparecer com suas mutações, “civil salva civil” versus “quem pagou a conta foi a União”. O eleitor é um falso racional. Voto com o coração jurando seguir apenas a sua cabeça. Salvo quando se vê girando no meio de um furacão que poderia ter sido evitado ou, ao menos, controlado em parte. Aí a dor dá conselhos.

Porto Alegre não consegue se reinventar. Vive de ciclos de vinte anos ou em torno disso. Não é exclusividade sua. A política num país como a França mostra o cansaço em relação às alternativas clássicas. Nesses momentos corre-se o risco de uma aposta no pior pelo simples desejo de experimentar o diferente. Numa eleição municipal o perigo é menor, mas não pequeno, mesmo quando não há algo muito diferente. É hora de a cidade escolher o modelo que possa lhe dar mais segurança no futuro. Houve um tempo em que se falava em terceira via. A expressão saiu de moda. Não se vê caminho asfaltado para tanto. Resta esperar que os candidatos se puxem e mostrem alguma proposta realmente nova, que vá além do “nós ou o caos”. A enchente determinará o vencedor. Não há como fugir dela durante a campanha.

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