Juremir Machado da Silva

Tecnologia e cotidiano

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Tecnologia e cotidiano Foto: Matt Mech/Unsplash

Uma matéria recente lida no UOL me fez pensar no paradoxo da tecnologia. Conforme o texto, os muito jovens, Geração Z, segundo esse tipo de classificação bizarra, que deveria ser Geração C, de celular, não sabe usar computador. Os muito jovens são os novos velhos. E assim computador, ainda mais de mesa, é coisa de velho, como Facebook, X e por aí vai.

O sociólogo francês Dominique Wolton foi um dos primeiros intelectuais a dizer o óbvio: é preciso regulamentar a internet. Ele falava isso desde o final dos anos 1990. A resposta era violenta: não sabe usar um e-mail, velho, tecnófobo. Dominique tinha razão. Ter razão antes do tempo dos deslumbrados custa caro. Graças à sua personalidade forte, nunca se abalou. Eu tive meu primeiro computador Mac em 1993, na França.

Meu primeiro celular só chegou em 2004. Até então eu não via razão para ter um aparelho que só servia para falar e ouvir. Passava meus dias entre vários telefones fixos e podia passar 15 minutos sem ligações. Quando vi um ihone, me joguei. Computador de bolso me servia e serve. Uma amiga concluiu que eu era ruim com tecnologia e isso se espalhou. Quando fui trabalhar num podcast, a moça perguntou: “Como está se sentindo com tanta tecnologia”. Era só um programa de rádio legal gravado em estúdio.

Por que conto isso? Para falar de realidade e representação. Em geral, conta mais como se é percebido do que como, de fato, se é. Se uma etiqueta cola em alguém, ferrou. Ainda mais se a pessoa tiver certa idade. Uma vez disse que quem opera diariamente com um Mac pode ter alguma dificuldade para usar um PC, coisa que logo se resolve, e que, portanto, era melhor ter alguns Mac à disposição num momento em que as pessoas teriam de ser rápidas e não teriam tempo para adaptações. A minha observação foi recebida como a prova de uma inabilidade tecnológica.

Ainda que as diferenças tenham se reduzida entre Mac e PCs, assim como entre iPhones e smartphones em geral, restam pequenas diferenças.

Os produtos da Apple continuam mais bonitos, instintivos e caros. Noto que especialistas na parte hard de computadores, em geral, sabem pouco sobre o restante. Qualquer dúvida sobre a mais rasteira das ferramentas, o Word, pode exigir muita pesquisa, pois os especialistas não se rebaixam a saber sobre isso.

O mais interessante é a linguagem usada com os suspeitos: vi uma jovem ensinar a um senhor de cabelos brancos onde enfiar um cabo USB para carregar o celular no computador. O olhar do homem era de perplexidade, que a jovem interpretava como aflição. De minha parte, continuo fiel a um princípio antigo, a utilidade. Nunca tive tablet, drone e caneta-tinteiro. Não me seriam úteis. O celular e notebook já fazem tudo que um tablet pode oferecer. O drone teria para mim a mesma utilidade que uma caneta-tinteiro. Admiro, porém, quem quer ter todos os brinquedos novos em sua coleção.

Na solidão do meu cafofo, faço sozinho tudo o que preciso e me aplauso pela eficiência. Como muitos técnicos, quando tenho dúvidas, busco algum tutorial. Vi um genial outro dia: oito minutos sobre a diferença entre pontas de cabos. Tecnologias são instrumentos que se aprende a usar com relativa facilidade. Não tem muito mistério. O ser humano é que é misterioso. Por vezes, confunde-se com a ferramenta. Outras vezes, delira. O delírio da máquina é entrar em pane para surpreender seus utilizadores.

Os novos velhos não sabem usar nada que não servir para jogar.

Geração CG: Celular e Games.

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