Juremir Machado da Silva

Uma vida sob censura

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Uma vida sob censura Com o colega de faculdade e amigo David Coimbra | Acervo pessoal

Há épocas em que me pego passando a vida a limpo como quem escreve memórias antes do tempo ou sem conseguir evitar. Deve ser efeito da ferritina elevada, da pressão arterial e do colesterol altos. Quando comecei em jornalismo, há quase 40 anos, eu não compreendia a razão de muitos jornalistas mais velhos me hostilizarem. Sim, eu era abertamente rejeitado. O mesmo ocorria da parte de alguns muito jovens, que me torciam o nariz sem lenço nem cumprimento. Eles eram modernos, moderníssimos, eu era pós-moderno, visto, portanto, como pré-moderno, caipira, incapaz de falar a linguagem da tribo.

Eu era um recém-formado estudante em história e em jornalismo, anarquista de coração, avesso a qualquer disciplina militante e crítico do stalinismo dominante no socialismo real do leste europeu, que desabaria com o muro de Berlim, em 1989. Havia lido Max Stirner, Proudhon, Bakunin e outros. Não compreendia que os meus críticos eram de esquerda, mesmo quando não podiam se assumir, e me viam como um guri conservador. Quando, mais tarde, Augusto Nunes me convidou para ser correspondente de Zero Hora em Paris, onde eu estava morando, senti que a hostilidade aumentou. Eu via Nunes como um cara dono de um belo texto, ghost-writer de Samuel Wainer no magnífico Minha razão de viver, e um louco capaz de me dar a maior oportunidade de minha vida. Ele só era visto pelos colegas como um direitista tenebroso e um “estrangeiro” no comando do principal gaúcho daquela época.

Começo de carreira

De resto, afora a enormidade do que fez por mim Telmo Flor (ninguém fez mais do que ele), diretor de redação do Correio do Povo, que me resgatou do ostracismo quando eu já me sentia morto, Núbia Silveira, cuja indicação para Nilson Souza na Zero Hora resultou na minha contratação, numa sexta-feira de chuvarada, talvez por falta de tempo para selecionar outro até o domingo de Gre-Nal, e Juarez Fonseca, que me aceitou no seu dinâmico Segundo Caderno, as três maiores oportunidades no jornalismo me foram estranhamente dadas por pessoas de fora do Rio Grande do Sul: o já citado Augusto Nunes me fez correspondente de Zero Hora em Paris e me deu coluna no jornal (me fez alternar página inteira com Paulo Francis, Arnaldo Jabor e Fernando Gabeira); Luís Cláudio Cunha aceitou a pressão e a tenacidade do sempre generoso Telmo Flor para que eu fosse colunista diário do Correio do Povo. Natal Furucho me deu um programa diário de política na Rádio Guaíba, que batizei de Esfera Pública. A classificação de tudo por ideologia não me ocorria.

Por alguns anos, fui amigo de Diogo Mainardi, depois o contato se perdeu. Eu só o via como o colunista mais irônico do país. Ele era visto exclusivamente como um conservador, reacionário, inimigo dos “do bem”, colunista da odiosa revista Veja. Como sou lento. Eu não enxergava nada disso. Em 1995, bati de frente com Luis Fernando Verissimo e dancei. Para mim era uma questão complexa. Ficou como a prova de que eu era um horroroso direitista. Eu me via independente. Cometia um erro incrível: achava, recém-chegado da Europa, a esquerda brasileira um tanto velhusca. Não era para mim uma crítica de direita, mas uma posição socialdemocrata. De todo modo, nunca fui marxista. Depois disso, fiquei marcado. Como cronista, não tinha a menor chance. Se concorria a um prêmio jornalístico, estava sempre ferrado.

Sempre fiz, porém, algo que horrorizava meus críticos impiedosos: sobrevivia. Quando me consideraram morto academicamente, ressurgi em Paris; quando me mataram no jornalismo, reapareci no Correio do Povo e na Rádio Guaíba. Por muito tempo perambulei por onde amigos me recebiam, como Cristiane Finger, no SBT. Flávio Alcaraz Gomes me fez “guerrilheiro da notícia”. Mas isso comprovava a tese de que eu era reacionário. Havia mais. Alguns sempre me acharam inculto, outros nunca me viram como jornalista, muito menos como radialista, com essa minha vozinha de taquara rachada. Lá estava eu, contudo, fazendo, com Taline Oppitz, um programa de prestígio, de marcar época. Muitos, claro, ainda não o reconhecem como tal. Era duro me ver ali. Rolava certa perplexidade, ainda mais que eu vinha de tão longe e parecia tão fácil fazer como eu, tão ao alcance de todo mundo. Dois personagens da cultura local até me enviariam mensagens perguntando:

– Como se faz para ter um lugar como esse teu?

Criei a teoria do terreno baldio. Por um tempo, um franco-atirador como eu consegue usar um terreno abandonado. Se alguma planta começa a crescer ali, por força de trabalho, alguém com mais berço surge para reclamar a propriedade. Avancei para a teoria da trincheira. É preciso saber ficar em lugares importantes. Não previa que as reintegrações de posse sempre acabam por acontecer quando não se tem uma boa inserção num coletivo de interesses comuns e fortes.

Finalmente a direita se convenceu que eu não era de direita, me carimbou de esquerdista e o sonho dos meus velhos críticos se realizou. O bolsonarismo me acertou na cabeça. Alguns ainda temem que eu ressuscite e tratam de ignorar o meu presente. Afinal, estou num site na época da agonia da velha imprensa! Correu boato de que eu voltaria para a Guaíba. Parece que Lasier Martins foi contra.

Por que estou falando disso agora? Porque cada vez que vejo as coisas sendo divididas por profundas convicções ideológicas, com a força de certezas monolíticas baseadas no bem contra o mal, fico perplexo. Como sou pouco inteligente! A maior parte do tempo é assim que a banda toca. Como não percebi isso de cara? Quando me tornei amigo de Michel Houellebecq, apaixonado por sua literatura, não entendia que a resistência a ele era ideológica. Continuo tendo amigos de direita e de esquerda. Rejeito a extrema direita, tive vontade de vomitar a cada dia em que o bolsonarismo comandou o país. Fui demitido por um bolsonarista de fora do Rio Grande do Sul apoiado por bolsonaristas locais. Nestes dias de tragédias fiquei boquiaberto quando senti que de todas as partes só a divisão ideológica contava.

Um jornalista de direita me disse um dia: é preciso escolher um lado ou se fica sozinho. Nunca consegui fazer isso. Fiquei só. Na disputa dos nossos terríveis dias de enchente entre “faltou manutenção” e “choveu mais do que o sistema podia suportar” se esconde a eleição do fim do ano, direita e esquerda, variações do mesmo.

Levei dois grandes tombos no jornalismo. No primeiro, a esquerda me derrubou com críticas. No segundo, com elogios. Exagero pelo prazer da fórmula. Agora, como no poema concreto, mudo, ex-tudo. Sexagenário, descubro como um adolescente que direita e esquerda só gostam de quem diz o que elas querem ouvir, como o leitor que, quando minha opinião coincidia com a dele, me enviava mensagens “objetivas e imparciais”:

– Hoje o senhor deu um exemplo de isenção.

Eu apenas fiz e faço jornalismo. Se escrever minhas memórias, o título será Uma vida sob censura, nos mais diversos sentidos dessa palavra elástica. Fui longe demais: existo. Meus críticos sempre praticaram um comedimento radical, do tipo, “não é para tanto”.

Critiquei corrupção de qualquer partido quando ela me pareceu incontestável e também os métodos da Lava-Jato quando eles se tornaram evidentes. Como Piaf, cantarolo, “non, je ne regrette rien”.

Salvo minha lerdeza para compreender coisas tão óbvias.

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