Juremir Machado da Silva

Vida de cronista

Change Size Text
Vida de cronista Minra Spritzer e Sergio Lulkin | Foto: Juremir Machado da Silva

Sempre gostei de Gonzagão, o rei do baião, o pai do grande Gonzaguinha. Ainda ouço admirado uma das suas canções mais famosas:

“Minha vida é andar por este país
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei.”

Minha vida é andar por Porto Alegre para ver se um dia me aposento feliz por ter visto tanta gente talentosa nas suas noites e casas que não se entregam, morrem, renascem, surgem, como dizia Eliot, “as casas vivem e morrem”, os espíritos é que ficam nos assombrando de beleza: Glau Barros cantando “As time goes by”, música fetiche do filme “Casablanca”, acompanhada pela banda do Fon Fon, com Luisinho no saxofone e Bety ao piano. Não tem preço. Glau é uma artista versátil, vai do samba ao jazz passando pela MPB com a mesma desenvoltura.

Andanças, contradanças, interpretações, amor pela arte, tantas artes, tantos talentos: Mirna Spritzer e Sergio Lulkin na peça “Terra sem mapa”, no Zona Cultural, espaço criado há pouco mais de um ano na Alberto Bins, no centro da capital gaúcha. História de imigrantes, suas aventuras, apostas, esperanças, nostalgias, navios a deriva, Jean-Arthur Rimbaud fazendo seu barco ébrio ressoar em algum desvão da alma: “Comme je descendais des fleuves impassibles”. Assim o cronista pode se sentir, descendo rios impassíveis, que não são os nossos, tão violentos nos últimos meses, saindo do leito para rugir nas ruas.

Maria Luiza Benitez cantando música latino-americana na pizzaria Don Dieguito, na Olavo Bilac, na Cidade Baixa. E o Dieguito correndo do forno para a pista, dançando com alegria e devoção pela música.

Tenho a impressão de que a crônica morrerá em pouco tempo. Está, como se dizia em Palomas, desenganada. Não há lugar para algo tão suave em tempos de pegada dura nas belicosas redes sociais. A crônica é quase um suspiro, um artista encarnando sua arte na solidão das capitais, um piscar de olhos para o tempo que tudo devasta.

Ouço Milton Nascimento com sua voz de coro de catedrais:

“Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me desfaço e não me canso
De viver nem de cantar.”

Bailes da vida, alegrias rodopiantes, sonhos que nunca se acabam, atmosfera já sem fumaça de uma época que se esfumaçou. Se um dia se foram os moicanos, também se irão os boêmios, salvo se eles são os derradeiros moicanos. Não que esse jeito de ser possa se apagar, mas já não cabe no seu figurino mais comovente. Por essas mesas e noites estão faltando eles (Malu fez uma bela interpretação dessa homenagem de Sergio Bittencourt ao pai, Jacob do Bandolim) e a saudade deles está doendo em nós que já não conseguimos acompanhar o ritmo.

Volto para casa dividido entre tantas trilhas de uma vida:

“De noite eu rondo a cidade
A lhe procurar, sem encontrar
No meio de olhares espio
Em todos os bares
Você, não está.”

Afinal, como cantava Mercedes Sosa, tudo muda, o profundo e o cotidiano:

Pois passam os anos e vamos ficando velhos…

Morrerei, como cantava Cesar Vallejo, em Paris, com a crônica, ele falava de poesia, talvez numa quinta-feira como está.

A crônica é a poesia dos últimos tempos.

RELACIONADAS
;

Esqueceu sua senha?

ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.
ASSINE E GANHE UMA EDIÇÃO HISTÓRICA DA REVISTA PARÊNTESE.