Juremir Machado da Silva

Virada da esquerda na França, um presente para Edgar Morin, 103 anos nesta segunda

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Virada da esquerda na França, um presente para Edgar Morin, 103 anos nesta segunda Foto: Jeanne Menjoulet / Creative Commons / flickr.com/jmenj

Edgar Morin, que comemora seus 103 anos de idade nesta segunda-feira, havia alertado que era necessário criar uma nova frente de resistência. O mestre centenário comemorou. Não tem jogo jogado. A Nova Frente Popular, reunião de partidos de esquerda, virou o jogo e ganhou no segundo turno das eleições francesas. O centro, os chamados macronistas, ficaram em segundo lugar. RN, sigla da extrema-direita, comandada pelos xenófobos Marine Le Pen e Jordan Bardella, vencedores do primeiro turno, caiu para o terceiro lugar. Gilles Lipovetsky, filósofo que esteve em Porto Alegre na semana passada, me mandou mensagem para saudar a vitória da minha intuição. Era um pouco mais do que isso, mas preferi essa palavra por modéstia e prudência. O que explica essa virada histórica e aparentemente miraculosa? Três fatores principais: abstenção menor, medo de um governo racista e formação de uma frente republicana entre partidos de esquerda e direita moderada.

Como se deu essa aliança na prática? Em cada circunscrição em que a direita chegou em terceiro lugar no primeiro turno, ela abriu da candidatura em prol do candidato de esquerda mais bem-posicionado. A esquerda fez o mesmo onde havia um nome de direita republicana melhor situado. Resultado: a extrema-direita encolheu. Venceu a ponderação, a racionalidade e o respeito pela democracia. Quando eu trabalhava em rádio ouvia com frequência conservadores afirmarem que o Brasil tinha deputados federais em número excesso, 513. A França tem 577. Era só vontade de diminuir o tamanho da representação popular. Coisa, enfim, de reacionários se fingindo de austeros. Deveria até ser mais. Democracia não é gasto, mas investimento.

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Quem será o novo primeiro-ministro da França? A tradição manda escolher o líder do partido que faz mais votos. A França insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, ganhou. É um partido de extrema-esquerda. Vai governar? Como não houve maioria absoluta, será preciso compor com o centro. Possivelmente disso resulte uma escolha menos indigesta para boa parte do eleitorado que ajudou a salvar o país da catástrofe lepenista. Governar sem maioria absoluta não parece o melhor caminho para quem deseja ser presidente da república, caso de Mélenchon. Pode ser interessante para o campo presidencial entregar o governo a um adversário temível de modo a desgastá-lo até as eleições de 2027. Importante mesmo neste momento para os europeus é saber que o Reino Unido voltou a ser trabalhista, enquanto a França poderá experimentar nova coabitação (presidente de um campo político, primeiro-ministro de outro). O perigo rondou o país. A extrema-direita bateu no poste da democracia. Chegou a se ver instalada no poder.

Não por acaso, Bardella, que se viu na cadeira de chefe de Governo, atacou o que chamou de uma “aliança desonrosa”. Para ele, a direita moderada escolheu ter um primeiro-ministro de extrema-esquerda. O namoro da França com a extrema-direita nunca esteve tão perto de terminar em tragédia. Espera-se que o desejo incontido de saltar no abismo tenha tomado o susto suficiente para que a tentação não se repita. No domingo à noite, em território francês, só se ouvia uma exclamação: Ufa! Ou, melhor, ouf!

Edgar Morin, que resistiu ao nazismo na luta clandestina, comemora a resistência da democracia.

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