Nando Gross

Equívoco histórico do Internacional

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Equívoco histórico do Internacional Antônio Carlos, treinador do Inter em 2017 | Foto: Ricardo Duarte/Divulgação Inter

Marcelo Medeiros foi um presidente corajoso ao assumir o Inter na segunda divisão e quebrado financeiramente, não conquistou título, mas recolocou o Inter no cenário de protagonismo nacional. Considero o seu grande erro à frente do Inter, a contratação de Antônio Carlos como treinador, e não me refiro a sua qualidade como profissional, mas ao seu caráter e histórico de racismo cometido de forma agressiva e nojenta contra o atleta Geovanio, do Grêmio, quando estava no Juventude.

Um clube que defende a bandeira antirracista, que sempre destacou as suas raízes populares, jamais poderia ter aberto às portas para alguém que tenha cometido o que cometeu e que ainda assim acredita que foi “coisa de jogo”.

Antônio Carlos é um racista convicto, especialmente quando vai explicar o porquê não é racista: “a maioria dos meus amigos são negros. Tenho meu cunhado que é negro, tenho uma senhora que é praticamente quem manda na minha casa. Ela tem 79 anos, é negra, trabalha comigo há 20 anos, já trabalhou com o Careca. Ali naquele momento quiseram me pegar como exemplo.”

Antônio Carlos acredita que não há racismo no futebol e considera normal, jogadores se chamarem de macacos. “Acho que o racismo no futebol, entre os jogadores, não existe. Eu nunca vi isso aí. A molecada brinca com um negro do time e eles mesmos vão brincando entre eles. “Ah, seu macaco, seu não sei o quê”. Entre eles mesmos eles brincam.”

Debati muito com um então dirigente do Grêmio na época do caso Aranha, porque, segundo ele, era muito comum os negros no futebol serem chamados de macacos. Também garantia que tinha vários amigos negros que chamava de macaco, logo, tudo era normal e o grande vilão era o Aranha, goleiro negro do Santos.

O uso do termo “macaco” como um insulto racial está enraizado na história da escravidão e colonização, quando pessoas de ascendência africana foram tratadas como propriedades e subjugadas a condições desumanas. Durante esse período, os colonizadores utilizavam termos racistas e pejorativos, como “macaco”, para desumanizar e depreciar os escravizados, negando-lhes sua humanidade e dignidade.

O primeiro passo para a violência é desumanizar a vítima. Ao chamar um negro de macaco, você está fazendo uma associação entre um humano e um não-humano, e essa associação é feita, especialmente devido à cor. Os estádios de futebol são uma representação da sociedade onde as pessoas manifestam livremente o que há de melhor e pior em cada um de nós. Combater o racismo nos estádios é combater o racismo na sociedade e chamar de macaco não é folclore do futebol, é crime.

Por isso, Antônio Carlos comandando o time colorado foi um equívoco gigantesco, um clube de futebol tem que ter compromisso com a sua história e a sua torcida, respeitar é fundamental e na hora de contratar um profissional, é preciso levar em conta a sua trajetória, caráter e personalidade.

Antônio Carlos estava à frente do Coritiba, o clube vinha na lanterna do Brasileirão e sem ganhar nenhum jogo desde que assumiu a equipe, criticou os atletas publicamente, foi demitido e de lá para cá são três vitórias seguidas do Coritiba.

Quando a torcida do Corinthians não aceitou Cuca como técnico e os jogadores todos depois de um gol foram abraçá-lo no gramado, mostrando que o estupro cometido por ele no passado em uma criança de 13 anos não incomodava eles, estava desenhada a queda de rendimento da equipe.

Alguns não sabem, mas este jogo é muito mais do que futebol.

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