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Como a genética pode ajudar a compreender a Covid-19?

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Como a genética pode ajudar a compreender a Covid-19? Por Felipe Schroeder Franke* Entre as grandes dificuldades do enfrentamento da Covid-19 estão a pluralidade e a imprevisibilidade de efeitos que o SARS-CoV-2 pode ter sobre indivíduos infectados. Enquanto a maioria permanece assintomática ou com sintomas apenas leves, uma importante minoria desenvolve quadros graves a ponto de necessitar suporte de alta complexidade, o qual muitas vezes não é suficiente. Entender o que faz com que um indivíduo pertença ao primeiro ou ao segundo grupo é um enigma, e muito esforço tem sido dedicado a tentar resolvê-lo. Já se sabe que comorbidades como diabetes melitus e hipertensão arterial sistêmica predispõem o indivíduo a riscos maiores perante este vírus. Idade avançada e sexo masculino igualmente são associados a piores prognósticos. O perfil imunológico de cada pessoa também deve ter algum impacto, pois imunidades previamente desenvolvidas podem desempenhar um papel importante contra infecções futuras similares. As hipóteses, porém, são muitas, e as lacunas são correspondentemente enormes. Uma das áreas mais promissoras a contribuir com esse desafio é a genética. Em linhas gerais, o que a genética oferece para a área da saúde é a possibilidade de entender de que modo o perfil genético de um indivíduo (ou população) predispõe a determinadas condições de saúde ou doença. Essa é uma tarefa bastante complexa, pois a maioria das doenças resulta da interação de muitos genes. Ainda assim, hoje não resta dúvida de que compreender a genética de um indivíduo permite ter mais precisão e clareza sobre como determinada condição se manifesta nele. Genomewide association studies Um dos primeiros grandes estudos sobre genética e Covid-19 foi publicado no dia 17 de junho, no New England Journal of Medicine. Os pesquisadores analisaram o material genético de cerca de 2 mil pacientes graves em hospitais da Itália e da Espanha e concluíram que mutações em genes envolvidos na definição do tipo sanguíneo tinham relação com a gravidade do quadro desenvolvido. Dizendo assim, pode parecer simples, mas esse não é um trabalho fácil. O método utilizado pelos pesquisadores é o que se convencionou chamar de genomewide association studies (estudos de associação de genomas completos, ou GWAS pela sigla em inglês). O princípio do método consiste em analisar o material genético de um grupo de indivíduos e tentar encontrar relações (ou estabelecer a inexistência de relação) entre uma configuração genética e uma determinada condição ou doença em estudo. No caso específico do estudo do NEJM, os pesquisadores coletaram material genético a partir de células de pacientes graves da Covid-19 durante o auge da pandemia na Espanha e na Itália. Para constituir o grupo controle (grupo com o qual se comparam os pacientes graves), foi coletado o material genético de indivíduos infectados pela Covid-19 mas que não desenvolveram quadro graves. Com o material genético retirado das células de todos estes indivíduos, é possível conhecer o DNA de cada um. O DNA humano é composto por aproximadamente 3,2 bilhões de pares de bases nitrogenadas, o que configura um oceano extremamente complexo de informações. O que um estudo do tipo GWAS faz, portanto, […]

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Por Felipe Schroeder Franke* Entre as grandes dificuldades do enfrentamento da Covid-19 estão a pluralidade e a imprevisibilidade de efeitos que o SARS-CoV-2 pode ter sobre indivíduos infectados. Enquanto a maioria permanece assintomática ou com sintomas apenas leves, uma importante minoria desenvolve quadros graves a ponto de necessitar suporte de alta complexidade, o qual muitas vezes não é suficiente. Entender o que faz com que um indivíduo pertença ao primeiro ou ao segundo grupo é um enigma, e muito esforço tem sido dedicado a tentar resolvê-lo. Já se sabe que comorbidades como diabetes melitus e hipertensão arterial sistêmica predispõem o indivíduo a riscos maiores perante este vírus. Idade avançada e sexo masculino igualmente são associados a piores prognósticos. O perfil imunológico de cada pessoa também deve ter algum impacto, pois imunidades previamente desenvolvidas podem desempenhar um papel importante contra infecções futuras similares. As hipóteses, porém, são muitas, e as lacunas são correspondentemente enormes. Uma das áreas mais promissoras a contribuir com esse desafio é a genética. Em linhas gerais, o que a genética oferece para a área da saúde é a possibilidade de entender de que modo o perfil genético de um indivíduo (ou população) predispõe a determinadas condições de saúde ou doença. Essa é uma tarefa bastante complexa, pois a maioria das doenças resulta da interação de muitos genes. Ainda assim, hoje não resta dúvida de que compreender a genética de um indivíduo permite ter mais precisão e clareza sobre como determinada condição se manifesta nele. Genomewide association studies Um dos primeiros grandes estudos sobre genética e Covid-19 foi publicado no dia 17 de junho, no New England Journal of Medicine. Os pesquisadores analisaram o material genético de cerca de 2 mil pacientes graves em hospitais da Itália e da Espanha e concluíram que mutações em genes envolvidos na definição do tipo sanguíneo tinham relação com a gravidade do quadro desenvolvido. Dizendo assim, pode parecer simples, mas esse não é um trabalho fácil. O método utilizado pelos pesquisadores é o que se convencionou chamar de genomewide association studies (estudos de associação de genomas completos, ou GWAS pela sigla em inglês). O princípio do método consiste em analisar o material genético de um grupo de indivíduos e tentar encontrar relações (ou estabelecer a inexistência de relação) entre uma configuração genética e uma determinada condição ou doença em estudo. No caso específico do estudo do NEJM, os pesquisadores coletaram material genético a partir de células de pacientes graves da Covid-19 durante o auge da pandemia na Espanha e na Itália. Para constituir o grupo controle (grupo com o qual se comparam os pacientes graves), foi coletado o material genético de indivíduos infectados pela Covid-19 mas que não desenvolveram quadro graves. Com o material genético retirado das células de todos estes indivíduos, é possível conhecer o DNA de cada um. O DNA humano é composto por aproximadamente 3,2 bilhões de pares de bases nitrogenadas, o que configura um oceano extremamente complexo de informações. O que um estudo do tipo GWAS faz, portanto, […]

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