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A lenda do escravizado Josino, a irmandade do Rosário e a demografia negra de Porto Alegre no ano 1800

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A lenda do escravizado Josino, a irmandade do Rosário e a demografia negra de Porto Alegre no ano 1800 O Exemplo – Jornal da imprensa negra fundado em 1892 na cidade de Porto Alegre. Edição do ano de 1927 - Ano XXXV (35) - Número 1. Foto: Reprodução

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre a PRESENÇA NEGRA na história de Porto Alegre são de Pedro Vargas, Jane Mattos, Manoel José Ávila, Regina Parente e Orson Soares. A edição é de Vitor Ortiz. A locução dos áudios é de Lucas Samuel, Clara Falcão e Carlos Raimundo Pereira. A montagem e a trilha sonora tem a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.

O DESAPAGA POA é um canal de podcast que tem como objetivo desapagar os apagados da história de Porto Alegre: negros, negras, negres, indigenas e periferias, às vésperas da cidade completar 250 anos de sua data oficial de fundação.

Neste espaço você pode ler e ver a bibliografia utilizada na pesquisa do episódio 2 da série PERIFERIAS DE PORTO ALEGRE, do canal DESAPAGA POA

Este projeto foi selecionado no edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, da Secretaria Estadual da Cultura – SEDAC/RS – e Fundação Marcopolo e é realizado com recursos da Lei 14.017 de 2020 (a Lei Aldir Blanc).

Esta primeira série tem 10 episódios que estarão disponíveis nos principais agregadores de podcast, sendo transmitidos todos os sábados, às 9 horas, pela rádio FM Cultura (107.7), apoiadora do projeto.

O DESAPAGA POA tem o apoio também do Matinal Jornalismo, revista Parêntese e RogerLerina.com; e os conteúdos detalhados (o roteiro para leitura, a bibliografia e as imagens da pesquisa) ficam disponíveis no site www.matinaljornalismo.com.br/desapagapoa.

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Neste episódio, vamos lembrar que Porto Alegre teve um local chamado Largo da Forca e rememorar a lenda do escravo Josino e a praga que teria rogado a seu senhor, o que seria a causa de um atraso de cerca de cem anos na conclusão das obras de construção da Igreja das Dores.

Vamos procurar demonstrar o quanto representou para os negros de Porto Alegre a tradicional irmandade do Rosário e lembrar personagens históricos, como o líder negro rosariano José Cabelos.

E, para completar, o episódio ressalta a demografia negra em Porto Alegre na virada dos séculos XVIII para o XIX, época em que todos os levantamento sobre população então existentes indicam que mais da metade dos habitantes era de pessoas negras, o grupo formado por livres, forros e escravizados.

Museu de Imagens Desapaga Poa

PARTE 1

A LENDA DO ESCRAVO JOSINO

Por Pedro Vargas

Em novembro de 1807, o Príncipe Regente de Portugal Dom João VI, tomou o rumo do Brasil antecipando-se à invasão de seu país pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Neste ano, era descerrada em Porto Alegre a pedra comemorativa ao início da construção da Igreja das Dores.

Quase cem anos depois, em 1903, como mostra a pesquisadora Caroline Rippe, as obras da igreja foram finalmente acabadas. Neste intervalo de tempo, o país abandonou o status de colônia, tornou-se império e viu nascer a República.

A guerra Farroupilha de 1835 a 1845, que manteve um cerco à cidade por longo período, já corria longe, tendo cedido espaço à outra guerra, à da degola, a guerra Federalista de 1893, tendo a escravidão no Brasil – o último país do Globo a libertar seus escravizados negros – terminado oficialmente apenas alguns anos antes, em 1888.

O imaginário popular leu este tempo cumprido demais para terminar o projeto de construção da igreja das Dores como uma maldição. Maldição esta que descortina um fantasma que lutou contra o preconceito, gritou e reagiu à injustiça a que foi submetido.

Registrado pela Lei nº 9570/ de 2004 como patrimônio cultural de natureza imaterial de Porto Alegre, no item “As Torres Gêmeas”, a lenda sobre as injustiças cometidas contra o negro Josino ajudam a contar sobre vida dos negros escravizados na capital gaúcha nos idos do século XIX.

Em síntese, diz-se que Josino foi enforcado injustamente, acusado do roubo de uma joia da imagem de Nossa Senhora das Dores, de dentro da igreja. A igreja das Dores estava em construção e ele trabalhava na obra. Antes de ser enforcado, pediu à justiça divina que mostrasse a todos sua inocência.

Rogou então a maldição, segundo a qual seu senhor não haveria de assistir à conclusão da obra na igreja, o que de fato aconteceu.

Pedro Haase (Ráss) e Emiliano Urbin – em seu livro Mitos e Lendas do RS – esmiúçam a razão de haver grande quantidade de negros escravizados envolvidos nas obras de construção da Igreja das Dores, aumentando as possibilidades da lenda do escravizado Josino estar mais para uma história realmente ocorrida do que uma lenda.

Os recursos para as obras vinham da doação dos moradores mais ricos da cidade e da sua boa vontade. De vez em quando, se a situação permitisse, entregavam madeira, pedra, bronze para os sinos, tinta e vidros para os vitrais.

De quando em vez ofertavam dinheiro. E uma das formas comuns de contribuição era o empréstimo de cativos. Com esta atitude, o senhor de escravos reduzia o peso da consciência e, conforme Haase, aumentava sua certeza de que haveria pra ele um lugar no céu.

A lenda do escravizado Josino vai além da demonstração de como a utilização de mão de obra compulsória negra estava em todos os empreendimentos da cidade, ganhando contornos dramáticos, quando vamos então nos dar conta do aparato de punição espetaculoso – e com fins didáticos – a que era submetida a população de cativos negros.

Fato que por si só já compromete a falsa ideia de que a escravização no Rio Grande do Sul ou em Porto Alegre fora uma escravização branda.

A ligação de Josino com a Igreja das Dores também é exemplar em razão da sua localização, em frente ao pelourinho da cidade e nas cercanias do Largo da Forca, atual Praça Brigadeiro Sampaio, esta última, cada vez mais apropriada, na atualidade, pelo povo negro como Praça do Tambor.

Pelourinho era uma estrutura que caracterizava o status das povoações de origem portuguesa, sendo vista nas sedes das chamadas vilas, hoje o correspondente à sede de municípios, simbolizando a autoridade do poder constituído, e por tal motivo encampando a tradição de ser o braço firme do estado, contribuindo para uma punição pedagógica.

Os arquitetos Eduardo Corona e Carlos Lemos caracterizam pelourinho como um marco de madeira ou pedra, que simbolizava o poder constituído, tendo sempre como arremate as armas “del Rey”.

Foi tradição serem amarrados aos pelourinhos os escravos sujeitos a açoites em público, e daí, por extensão, o nome passou a designar a coluna onde era exercido aquele suplício.

Àrsene Isabelle, viajante francês que esteve em Porto Alegre em 1834, narra uma cerimônia pública que lhe causa horror, que é a execução de uma pena de punição corporal acontecida em frente à Igreja das Dores, no tal chamado Largo do Pelourinho.

Anota o viajante que (entre aspas) “todos os dias, das sete às oito horas da manhã, podeis assistir um drama sangrento, em Porto Alegre. Se fordes até a praia, ao lado do arsenal, defronte de uma igreja, diante do instrumento de suplício de um divino legislador, vereis uma coluna levantada sobre um pedestal de pedra e junto a ela uma massa informe. É um negro!… Um negro condenado a duzentas, mil ou seis mil chibatadas! Passai adiante, retirai-vos dessa cena de desolação.”

Para os enforcamentos – pena capital do sistema jurídico do Brasil Colonial e no Império – a estratégia de Isabélle de se retirar da cena de desolação era quase impossível de se efetivar. O espetáculo de martírio não era apresentado apenas num sítio específico como o Pelourinho, mas acontecia também nas ruas e locais mais públicos da cidade.

O historiador Marcelo Etcheverria conta que os condenados eram vestidos em uma bata clara e prosseguiam em procissão pelas principais ruas da então Vila, hoje a Capital Porto Alegre.

Esse périplo que começava com o sentenciado ajoelhado na rua, diante da capela do Senhor dos Passos na Santa Casa de Misericórdia, durante uma missa, prosseguia com juízes, vereadores e o meirinho, espécie de oficial de justiça e porta voz do judiciário, que anunciava durante o cortejo o nome e a pena do supliciado, ao mesmo tempo em que era pregado o documento de condenação nos postes da cidade.

O espetáculo terminava no Largo da Forca na presença da multidão que lá esperava.

Essa cena, pode-se pensar, foi a antevista por Josino quando supostamente lançou sua maldição que hoje faz parte da história da Igreja das Dores.

As penas de execuções poderiam apanhar qualquer súdito do império, mas atingiram em sua esmagadora maioria negros escravizados.

Sérgio da Costa Franco apurou em suas pesquisas que os enforcamentos aconteceram, em Porto Alegre, de 1822 a 1857, ano em que foram proibidos pelo imperador Dom Pedro II.

Nos casos considerados mais graves, como o do pardo Florentino, acusado de matar o senhor de escravos Antônio Soares de Almeida Leães, poderia ocorrer uma morte após a morte.

Explica-se: a autoridade poderia determinar que, após o ritual do enforcamento, uma parte do corpo do condenado fosse enviada ao local onde ocorreu o crime e fosse colocada em um poste ou outro lugar visível, ou ainda mandar salgar o solo e a casa onde vivia.

Desse modo, era comum as famílias dos mortos mudarem de nome para não sofrerem também as consequências. Ademais, o corpo do supliciado não poderia ser enterrado em campo santo, ou seja, em um cemitério.

A razão profunda para esta atitude é vista por Marcelo Echeverria como ligada aos antigos tribunais de inquisição portugueses, que assim queriam contribuir para evitar que a alma encontrasse o corpo. No final de tudo, a ideia era legar o enforcado ao esquecimento póstumo.

PARTE 2

A IRMANDADE DO ROSÁRIO DE SÃO DOMINGOS E SÃO BENEDITO

Por Jane Mattos

Na pequena e nascente Vila colonial de Nossa Senhora da Madre de Deus, que no final do século XVIII já era cortada por vielas e ruas que convergiam para as areias da praia do lago Guaíba, homens e mulheres escravizados e livres criaram a Irmandade do Rosário, também denominada de São Domingos e São Benedito, ereta em 20 de dezembro de 1786.

No Brasil, as Irmandades Rosário começaram a surgir ainda no século XVI, sendo a primeira delas erguida na cidade de Recife. Mesmo ligada aos preceitos religiosos da Igreja Católica, com regras definidas por esta e pela Coroa, a Irmandade do Rosário de Porto Alegre manteve uma *independência da Igreja no que tangia aos seus assuntos internos.

Durante muito tempo, uma boa parte dos estudiosos viram tais Irmandades apenas como mais uma das etapas de cristianização dos negros, sendo instrumento de submissão e controle dos escravizados, ideia refutada por estudos mais recentes que procuraram demonstrar como as confrarias se tornaram espaços de construção de alternativa política e social, onde os negros negociavam um lugar na sociedade, exercendo, assim, um papel importantíssimo na construção das identidades dos grupos que representavam.

A historiadora e arquiteta Nara Machado revela que a Irmandade de Porto Alegre, no início de sua fundação, contava com 220 membros, 127 homens e 93 mulheres de diversas origens e profissões.

Na composição da primeira Mesa Administrativa da confraria estavam 17 negros, sendo 11 escravizados, 3 negros forros que já tinham recebido sua carta de alforria ou liberdade e 3 livres, evidenciando o protagonismo dos irmãos que estavam ou estiveram atrelados ao cativeiro. Diferentemente de outras irmandades no Brasil que tinham em seus estatutos a separação entre brancos e negros africanos e crioulos, ou ainda pardos ou mulatos, a Irmandade do Rosário trazia, nos seus procedimentos de admissão que,

“toda a pessoa, // sem distinção de cor, sexo, e condição // pode entrar nesta Irmandade, // e ao ato de seu recebimento // dará o seu nome, // ocupação, // rua e número de sua morada.”

A também historiadora Liane Muller, no seu livro As Contas do meu Rosário são Balas de Artilharia, traçou pequenas biografias dos primeiros confrades como José de Souza, um escravizado que teve sua alforria no ano de 1795.

Jose de Souza era conhecido em Porto Alegre pela alcunha de José Cabelos, sendo Irmão de Mesa e Andador em várias ocasiões, além de membro da Irmandade por 40 anos.

O cronista Antônio Álvares Pereira Coruja, em suas crônicas sobre a cidade e seus moradores, com registros da vida local ainda no século XIX, descreveu em detalhes a pompa, a circunstância e os paramentos como José se apresentava nos festejos. Disse Coruja, entre aspas…

“O José Cabelos, (…) preto velho, andador do Rosário e São Benedito, que nos dias de festa se apresentava de casaca, colete de seda branca bordada a ouro, calção, meias e botas de borla, em certos dias se armava de uma touca tão pesada, que o fazia dormir em casa dos compadres (…)”

A aquisição de símbolos, como paramentos e alfaias luxuosas, eram importantes na visibilidade e ascensão social dos irmãos. Pertencer a Irmandade trazia uma série de benefícios aos confrades, como o fortalecimento de suas vidas e a defesa de seus direitos dentro de uma sociedade escravista. Desta forma, participar da Irmandade era uma oportunidade para se colocar numa posição de prestígio social diferenciado.

Para além das festas devocionais do Rosário, havia a preocupação com a formação educacional dos irmãos, direito caro à comunidade negra. Desta forma, a pauta da instrução perpassou grande parte das associações negras criadas ao longo do século XIX. Inúmeros membros da Irmandade pertenciam e articularam associações recreativas, bailantes e educacionais com objetivos que extrapolavam as sociabilidades, formando grupos materialmente fortes, possibilitando, assim, lá pelo findar do século XIX, que o debate do racismo e as reivindicações da comunidade negra fossem veiculadas por meio da criação do jornal O Exemplo.

Entre os Confrades do Rosário fundadores de O Exemplo estava Aurélio Viríssimo de Bittencourt, natural de Jaguarão, onde nasceu em 1849, tendo se tornado amanuense e chefe de gabinete dos republicanos Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros. Aurélio Bittencourt foi membro de várias irmandades católicas e também da Sociedade Parthenon Literário.

A Irmandade do Rosário, na sua criação não possuía uma Igreja própria, um espaço físico para suas atividades devocionais. Era costume, no entanto, que as igrejas matrizes construíssem ao lado do altar-mor outros altares laterais, ocupados para a consagração de outros santos. Em Porto Alegre não foi diferente.

A então antiga Igreja Matriz Nossa Senhora da Madre de Deus abrigou no seu altar lateral os serviços religiosos do Rosário de São Domingos e São Benedito. Porém, segundo ainda Liane Muller, os membros foram praticamente expulsos da Madre de Deus. Em virtude de verem suas danças e cânticos serem proibidas, os negros buscaram edificar uma igreja onde pudessem professar e exercer sua fé sem restrições.

Das crônicas do antigo cronista Coruja nos vem o relato desta situação:

“O Candombe da Mãe Rita era na Várzea defronte da casa e curral do antigo matadouro, mais ou menos no terreno então baldio e depois ocupado pelas casas do Firmo e olaria do Juca. (…) Aí se reuniam nos domingos à tarde pretos de diversas nações, que com seus tambores, canzás, urucungos e marimbas, cantavam e dançavam esquecendo as mágoas da escravidão, sem que causassem maiores cuidados à polícia. (…).”

Nesse candombe também se ensaiavam os cocumbis que pelo Natal (eram apresentados) nas festas da Senhora do Rosário, levando à frente o Rei e a Rainha vestidos à caráter, com a juíza do Ramalhete e a competente aristocracia negra, iam dançar ou antes sapatear no corpo da igreja com guizos nos tornozelos, enquanto dali não os expulsou o falecido vigário José Inácio, (padre) de saudosa memória. Esta expulsão ou proibição deu causa a que o tesoureiro da Irmandade Francisco José Furtado promovesse a ereção da atual Igreja do Rosário.”

Assim, a construção da Igreja se deu no ano de 1828, depois de várias caixinhas de contribuição e peditórios por parte dos associados que foram importantes para a superação da falta de recursos, bem como para o trabalho na construção de suas paredes com o serviço gratuito, realizado aos domingos.

A primeira igreja foi erguida em um terreno na antiga rua do Bandeira (atual Vigário José Inácio), no centro histórico de Porto Alegre, sofrendo várias ampliações ao longo do tempo.

Concluídas às obras, os confrades do Rosário dedicaram-se aos cumprimentos dos compromissos mais importantes – que para eles eram a devoção do Rosário, de São Domingos e de São Benedito, a libertação dos cativos, o culto à alma dos mortos e a educação dos órfãos dos irmãos sem posse. A primeira procissão da Irmandade pelas ruas de Porto Alegre ocorreu somente trinta anos depois, em 1858.

Liane Susan Muller, que se aprofundou na pesquisa sobre a Irmandade e sobre o Jornal “O Exemplo”, estudando o período entre 1888 e 1920, conversou com o DESAPAGA POA:

“A irmandade do Rosário teve de fato um papel importantíssimo, preponderante no desenvolvimento da comunidade negra de Porto Alegre. Para além das questões mais ligadas à religiosidade, o luxo, a beleza, a ostentação das procissões da irmandade causava inveja às outras irmandades muito mais ricas, o que demonstrava um grau de organização extremamente eficiente. Nós temos a contribuição desta irmandade na criação das associações recreativas e beneficientes que vão se estabelecer, especialmente após a República, e que vão, ao mesmo tempo que a irmandade perde um pouco do seu protagonismo, assumir no seu lugar à luta contra o preconceito, pela inserção do negro em várias frentes na sociedade porto-alegrense. A Irmandade do Rosário também foi responsável por dar os primeiros passos na questão da educação desta população negra na cidade. Não podemos esquecer que ela foi determinante, por exemplo, em questões relativas à educação financeira, o que é algo que pleiteamos, de um modo geral, até hoje para que seja ensinado nas escolas, e que a Irmandada já fazia naquele tempo, auxiliando pretos e pretas à fundarem seus próprios negócios e terem uma autonomia maior. Haja visto que no seu pátio, no terreno da Irmandade, existiam construções onde em baixo era ocupado com negócios e em cima ficavam os quartos, a área de habitação e moradia. Então, ela desempenhou um papel fundamental para o crescimento intelectual, gerencial desta população negra de Porto Alegre.”

No decorrer das décadas a Irmandade do Rosário enfrentou uma série de problemas internos, como nos coloca ainda a arquiteta Nara Machado, a má administração e brigas internas com o Clero, levaram a Irmandade à falência.

Em 1930, seus bens foram entregues a paróquia ligada a Cúria Metropolitana.

A polêmica da destruição da igreja erigida pelos irmãos do Rosário em 1828 e a possibilidade de construção de uma nova edificação perdurou anos e mesmo tombada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a sua demolição ocorreu na década de 1950, dando lugar ao atual prédio situado no mesmo local, na rua Vigário José Inácio.

PARTE 3

PRESENÇA NEGRA NO RIO GRANDE DE SÃO PEDRO

A presença negra em Porto Alegre é marcante desde os tempos mais antigos da cidade – ao contrário do que muita gente pensa Brasil afora, com a difusão de uma imagem equivocada do Rio Grande do Sul, visto por muitos como uma terra de brancos, ideia que ganhou corpo com a chegada dos imigrantes, principalmente alemães e italianos, entre outros, ao longo do século XIX e início do XX.

No continente de São Pedro – especialmente nas vilas e freguesias de Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande, Rio Pardo e Viamão – os primeiros lugares a serem ocupados pela colonização portuguesa – sempre houve uma expressiva população negra, pelo menos desde o século XVIII, sendo a região, inclusive, o trajeto de introdução clandestina de escravizados nas estâncias do lado espanhol, o que até 1735 era feito através do porto de Colônia do Sacramento.

Para os anos em que não foi realizada nenhuma contagem oficial de moradores, os róis de confessados registram, fogo por fogo, ou seja, casa por casa, a quantidade de pessoas que por aqui viviam, classificando-as como brancas, indígenas, negras africanas, escravizadas, forras ou livres, homens ou mulheres, crianças e adultos. Os róis eram um tipo de registro e conferência que os padres tinham que fazer de todo o rebanho da sua jurisdição no período da quaresma, percorrendo casa a casa, chamadas de fogos exatamente por serem visíveis de longe. No percurso do padre, uma fumacinha saindo do meio da mata ao longe indicava a existência de uma casa, e certamente de pessoas que lá residiam. O padre chegava para saber se haviam confessado seus pecados, se as crianças já tinham sido batizadas e se os jovens estavam crismados, e desse modo os róis de confessados viravam um levantamento completo, uma espécie de censo demográfico. É com base nestes róis que se podemos saber mais detalhes sobre a população do período em foco.

Entre os moradores de Porto Alegre da virada dos 1800, no conjunto de pessoas negras, uma parte expressiva era de africanos. Ou seja, de negros recém chegados, diferentes dos escravizados crioulos, que já nasceram no Brasil.

Em sua passagem pela Fazenda Boa Vista, em Viamão, o viajante e botânico francês Auguste Saint-Hilaire registra que, naquele momento, em julho de 1820, cerca de 80 negros mina – vindos da região da Costa da Mina – trabalhavam nas lides da estância e na intalação de um curtume que estava sendo empreendido no lugar.

Na antiga Vila de Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre, por volta do ano 1800, segundo os levantamentos de população da época, mais da metade do total de moradores era negra, parcela esta formada por escravizados criolos e africanos, libertos ou forros – e ainda por negros livres.

Em 1802, de um total de 4.183 moradores de Porto Alegre, 1672 eram escravizados. Este número representa quase 40% da população, sendo os demais 60% formado por homens e mulheres livres. Nestes livres, contudo, também havia as pessoas negras livres. A população branca, portanto, formava a menor parte dos habitantes da Vila.

A forte presença de negros no Porto dos Casais é indicada também pelo pesquisador Luciano Gomes, no trabalho Uma cidade negra: estrutura econômico-demográfica e diferenciação social na formação de Porto Alegre 1772 a 1800:

“A fundação da Vila da Madre de Deus de Porto Alegre destinava-se a criar um centro comercial e de poder para a Capitania do Rio Grande de São Pedro. Isso implicava no estabelecimento de comerciantes, oficiais do governo, alfaiates, boticários, carpinteiros, calafates e tantos outros profissionais. Como em qualquer outro lugar da América Portuguesa, muitos dos serviços necessários foram delegados a pessoas escravizadas. Desde os cuidados da casa, o carregamento de mercadorias, a venda de alimentos e até serviços especializados, como a culinária e o artesanato. No cinturão rural de Porto Alegre, praticamente todos os proprietários rurais, a maioria açorianos, possuía cativos. Uma boa parte de outros moradores da região, chefes agregados à propriedade de terceiros também os possuíam. A ampla presença de escravizados deve-se, justamente, à grande demanda de trabalho no porto, no comércio ou nas lavouras de trigo. Havia também africanos ou descendentes de africanos que eram libertos ou livres em Porto Alegre, ainda no século XVIII. Em diferentes pesquisas foram encontrados pequenos comerciantes que vendiam alimentos, que produiam, lavradores com pequenas propriedades de terras e artesãos. Havia um liberto que trabalhava na Câmara e outro ainda, que nós descobrimos, sabia ler e escrever. Na América Portuguesa, a escravidão era uma instituição plástica. Servia para obter trabalhadores para praticamente todos os tipos de trabalho e em Porto Alegre não foi diferente.”

Para comprovar a maioria de negros e negras da população neste período, Luciano utilizou como fontes os róis de confessados de que falamos anteriormente, baseando-se também nas relações de moradores mandadas fazer pelos presidentes da Província do Rio Grande de então, nos mapas de população e produção e, ainda, nos livros de casamento e batismo.

Estudos mais recentes, como o ensaio Demografia da guerra – Porto Alegre e a guerra dos Farrapos – de Ana Silvia Volpi e Dário Scott, salientam outros aspectos que nos levam a problematizar a relação número de escravizados e o total da população na Vila da Madre de Deus de Porto Alegre, naquele contexto de virada de século.

A posição pluvial, entre o Jacuí, o Guaíba e a Lagoa dos Patos era muito favorável para todo o tipo de negócio, inclusive e também para a reprodução do tráfico negreiro, embora não exista uma documentação que ateste a dimensão ou forneça detalhes dessa ocorrência.

O Cais do Valongo no Rio de Janeiro, por exemplo, recebeu cerca de um milhão de africanos escravizados em 40 anos, tornando-se, deste modo, o maior porto receptor de cativos do mundo. Sua existência e seu reconhecimento como tal só foi revelado em 2011 pelas escavações e prospecções arqueológicas durante as recentes obras de revitalização do Porto Maravilha.

Seu funcionamento começou em 1811, quando foi construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio com o objetivo de esconder o local onde atracavam os navios negreiros, a fim de mascarar a continuidade tráfico mesmo diante da pressão estrangeira em contrário.

Este período corresponde a mais ou menos ao mesmo de que estávamos tratando no que tange a grande presença de negros em Porto Alegre.

Por esta época, os portugueses não podiam mais contar com o Porto de Colônia do Sacramento, no rio da Prata, para passar escravizados para o lado espanhol, mas provavelmente continuaram o tráfico de outras formas.

Considerando a inexistência de um banco de dados sobre a movimentação de escravizados pelo cais da alfândega de Porto Alegre, e tantas interrogações a serem respondidas sobre o período escravista no Rio Grande do Sul, fica a expectativa de que possa haver mais investimento em pesquisa, especialmente nos campos da história e da arqueologia, para que possamos saber mais sobre isso especialmente sobre aqueles primórdios do século XIX, quando a prática do tráfico seguia intensa, mas fora disfarçada de diversos modos.

FECHAMENTO

Este foi o segundo episódio do canal DESAPAGA POA / O podcast que chegou para desapagar os apagados da história de Porto Alegre: negros, negras, negres, indigenas e periferias, às vésperas da cidade completar 250 anos de sua data oficial de fundação.

Esta primeira série terá 10 episódios e estará disponível nos principais agregadores de podcast, sendo transmitida também, todos os sábados, às 14 horas, pela rádio FM Cultura (107.7), apoiadora do projeto.

Os conteúdos detalhados (o texto para leitura do roteiro deste episódio que você acabou de ouvir a bibliografia e as imagens da pesquisa) estão disponíveis no site www.matinaljornalismo.com.br/desapagapoa.

E se você gostou e também quer apoiar, compartilhe os episódios e participe da vaquinha digital no site www.apoiase.com.br/desapagapoa. Com R$ 5,00 mensais você ajuda a manter os conteúdos gratuitos.

O DESAPAGA POA reúne uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas e, neste episódio contou com o trabalho de Jane Mattos, Manoel José Ávila, Orson Soares, Pedro Vargas e Regina Parente. .

A equipe de locução conta com Lucas Samuel, Clara Falcão e Carlos Raimundo Pereira.

Os áudios e a trilha sonora tem a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.

A comunicação é do Marketing da Ju. A edição é minha e eu sou o Vitor Ortiz.

No próximo episódio, vamos buscar as conexões perdidas com os povos indígenas que habitavam o território onde surgiu Porto Alegre e o atual mapa geopolítico do Rio Grande do Sul: guaranis, tapes, carijós, kaigagns, xoklens, charruas, minuanos e guenoas, buscando demonstrar sua extraordinária diversidade.

Vamos saber mais também sobre a índia Obirici, uma invenção branca ou uma lenda indigena?

Acompanhem, em breve estaremos aqui outra vez para mais um episódio do canal DESAPAGA POA.

BIBLIOGRAFIA

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  • SCOTT, Ana Silvia Volpi; SCOTT, Dario. Gerar filhos fora do matrimônio: ilegitimidade e família na Capitania-Província do Rio Grande de São Pedro, Brasil – Revista da Demografia Histórica, v XXXVI, p. 167-195, 2018.
  • GOMES, Luciano. Camponeses e pequenos escravistas: estrutura econômica, reprodução social e vínculos extradomiciliares de produtores rurais em Porto Alegre e Viamão, décadas finais do século XVIII. Tese (doutorado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.
  • GOMES, Luciano. Uma cidade negra: escravidão, estrutura econômico-demográfica e diferenciação social na formação de Porto Alegre, 1772 – 1802. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.
  • SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Tradução de Adroaldo Mesquita da Costa. Porto Alegre: Martins Livreiro (4a.edição).
  • ORTIZ, Vítor. Histórias de Viamão – Histórias do Rio Grande – Personagens e fatos da Primeira República na Velha Capital. Porto Alegre: Libretos, 2015.
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