Desapaga POA

O contexto da guerra guaranítica na fundação de Porto Alegre e a lenda da Obirici

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O contexto da guerra guaranítica na fundação de Porto Alegre e a lenda da Obirici O armazém da Bromberg & Cia, importadora de máquinas e equipamentos, em Porto Alegre. Foto: Acervo Museu José Joaquim Felizardo e Banco de Imagens do Programa Monumenta

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre a MEMÓRIA INDÍGENA na história de Porto Alegre que você vai ouvir neste episódio são de Clara Falcão, Guilherme Maffei Brandalise, João Maurício Farias, Lucas Samuel, Luciane Ouriques e Kátia Almeida.
A equipe de locução deste episódio conta com Carlos Raimundo Pereira e Clara Falcão.
Os áudios e a trilha sonora tem a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.
A comunicação é do Marketing da Ju. A edição é de Vitor Ortiz.

Olá pessoal, estamos iniciando mais um episódio da série DESAPAGA POA.

Este projeto foi selecionado no edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, da Secretaria Estadual da Cultura – SEDAC/RS – e Fundação Marcopolo e é realizado com recursos da Lei 14.017 de 2020 (a Lei Aldir Blanc).

Esta primeira série terá 10 episódios que estarão disponíveis nos principais agregadores de podcast, sendo transmitidos todos os sábados, pela rádio FM Cultura (107.7), apoiadora do projeto.

O DESAPAGA POA tem o apoio também do Matinal Jornalismo, revista Parêntese e RogerLerina.com; e os conteúdos detalhados (o roteiro para leitura, a bibliografia e as imagens da pesquisa) ficam disponíveis no site www.matinaljornalismo.com.br/desapagapoa.

Eu te convido a considerar a possibilidade de contribuir para que o canal DESAPAGA POA torne permanente, o que você pode fazer na vaquinha digital que abrimos no APOIA-SE . O valor único de contribuição é de R$ 5,00 mensais.

Importante lembrar que, independente da sua contribuição, todos os nossos conteúdos são de livre acesso e gratuitos.

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre a MEMÓRIA INDÍGENA na história de Porto Alegre que você vai ouvir neste episódio são de Clara Falcão, João Maurício Farias, Lucas Samuel, Luciane Ouriques e Kátia Almeida.

A equipe de locução deste episódio conta com Carlos Raimundo Pereira e Clara Falcão

Os áudios e a trilha sonora tem a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.

A comunicação é do Marketing da Ju. A edição é minha e eu sou o Vitor Ortiz.

Neste episódio vamos destacar que estima-se que havia entre um e dez milhões habitantes no território geopolítico do Brasil atual quando ocorreu a invasão européia, a partir de 1500. Veremos também que, no Sul, registros arqueológicos sobre o período anterior à chegada dos europeus, indicam que a região era habitada por diversas nações: tupi guarani, charrua, minuano e xokleng.

Inúmeros conflitos marcam este encontro entre colonizadores e povos originários no atual estado do Rio Grande do Sul e na Banda Oriental, o Uruguai, entre os quais os que ocorreram por dentro do próprio processo de implantação das missões jesuíticas e a guerra guaranítica, após a invasão bandeirante do território missioneiro, na metade do século XVIII.

Em Porto Alegre, cronistas do século XIX como Caldre Fião romantizaram esse encontro com lendas como a da Obirici, cujas lágrimas derramadas por um sofrimento de amor teriam feito surgir o arroio do Passo D’Areia. História esta contada por um velho índio chamado Karaí Vicente, que vivia numa casa do tipo das casas guarani junto ao portão da cidade no período de sua fundação.

Museu de Imagens Desapaga POA

ÁUDIOS DE DARCY RIBEIRO, AILTON KRENAK e SÔNIA GUAJAJARA (links na bibliografia)

PARTE 1

INDÍGENAS NO SUL DO BRASIL

Antes mesmo da invasão do Novo Mundo pelos europeus, o que hoje chamamos de Brasil eram terras densamente povoadas à milênios por populações que desenvolveram modos próprios de organização social. Os números são imprecisos, mas calcula-se que havia mais de 1.000 diferentes povos ou nações, com formas políticas, culturais e econômicas diversas.

Estimativas sobre o total de habitantes, antes de 1500, vão de 1 a mais de 10 milhões de pessoas. Essa população era composta por grupos de caçadores e coletores, aldeias agrícolas autônomas ou politicamente articuladas.

Segundo Manuela Carneiro da Cunha, no livro História dos Índios no Brasil, o contato com os colonizadores foi o responsável pela mortandade de grande parte da população nativa do Novo Mundo. As diversas epidemias, associadas as guerras de conquista, a escravização e o apresamento de indígenas, as fomes, a desestruturação social e a fuga para regiões desconhecidas como estratégia de autodefesa, bem como a exploração do trabalho indígena, tudo isto contribuiu para a dizimação dos indígenas.

Ainda hoje, pouco se sabe sobre a história destes povos que habitavam o Brasil antes da colonização européia. Contudo, não há dúvidas que o contato e as relações instituídas entre colonizadores e povos originários foram responsáveis pelas configurações étnicas e socioculturais existentes hoje.

Algo que é importante ressaltar é que os indígenas não foram passivos, como em geral a narrativa tradicional fez parecer. Eles foram protagonistas importantes na construção de suas próprias histórias contribuindo também na formação do que se tornaria o Brasil.

Pesquisas históricas, antropológicas e os movimentos indígenas afirmam cada vez mais que os acontecimentos, mesmo depois da colonização, foram interpretados por lógicas próprias dos povos originários. Mesmo em um contexto violento, eles reconstruíram suas histórias e souberam se adaptar.

Considerando que as estratégias empregadas pelos colonizadores foram mais ou menos as mesmas nas diferentes regiões do Brasil, os grupos indígenas, por sua vez, agiram e reagiram ao contato de distintos modos. É assim que a presença e a contribuição dos povos originários na formação de Porto Alegre constitui um caso exemplar desse processo.

Os registros sobre o período mais próximo à chegada dos europeus ao território da Banda Oriental e do Continente de Viamão – onde no final do século XVIII surgiu formalmente a Vila do Porto dos Casais – indicam que a região era habitada por diversas nações de guaranis, charruas, minuanos, guenoas carijós e tapes. Próximo dali, onde começa a serra geral, habitavam os Guaianases e Kaaguás, como eram chamados os antepassados dos Kaingangs e Xoklengs.

A partir do século XVII, portugueses e espanhóis começaram a adentrar o território que hoje é o Rio Grande do Sul. Bandeirantes que vinham em busca de mão de obra escrava e missionários jesuítas foram os primeiros colonizadores que os grupos indígenas tiveram contatos na região.

A partir de 1680, com a fundação do posto avançado do Império Português no rio da Prata, chamado de Colônia do Sacramento, a inserção de portugueses no território se intensificou, assim como o contato com os povos originários. Pesquisas como a do historiador Eduardo Neumann mostram que as cidades da região do Prata foram construídas com mão de obra indígena, tanto do lado dos portugueses quanto dos espanhóis.

Seja lutando contra os colonizadores, atacando suas instalações ou a favor deles, como milícias, os diversos grupos indígenas da região Sul sentiram a pressão dos portugueses e dos espanhóis que disputaram a hegemonia desse território.

PARTE 2

ALIANÇAS E CASAMENTOS DE PORTUGUESES E INDÍGENAS

Era comum durante o período colonial que as sociedades indígenas estabelecessem alianças com os colonizadores. Essas alianças respondiam a interesses de ambas partes e muitas vezes eram consolidadas através de casamentos entre os europeus e as filhas dos chefes indígenas.

Para os portugueses, essas alianças eram meios de expandir seus territórios e conseguir escravos nativos. Para os indígenas, eram meios de conseguir mercadorias europeias e aliados para somar contra outros grupos indígenas rivais.

As relações de parentesco estabelecidas por meio dessas alianças demonstram como os europeus também tiveram que se adaptar às culturas nativas, sendo inseridos em rivalidades e dinâmicas já existentes antes da sua chegada.

Exemplo disso foram os casamentos de Rafael Pinto Bandeira com filhas de lideranças indígenas importantes. Rafael foi um militar oriundo de uma das famílias lagunenses vinda para os Campos de Viamão no início do século XVIII, a família de Francisco Pinto Bandeira, que ficou conhecido por liderar as tropas lusas no território do Rio Grande do Sul no século XVIII. Ele se casou duas vezes com mulheres indígenas: primeiro, com a filha de um cacique minuano; e, segundo, com uma índia tape das Missões.

Estes relacionamentos auxiliaram a legitimar a ocupação portuguesa dos Campos de Viamão, incluindo Rio Pardo e Porto Alegre, demonstrando como o apoio indígena fora determinante nas estratégias da sociedade colonial no estado.

A Coroa Portuguesa chegou ao ponto de ter políticas explícitas de incorporação dos indígenas às sociedades coloniais, como foi o caso do Diretório dos Índios, legislação instituída na gestão de Marquês do Pombal (na segunda metade do século XVIII), que estabeleceu o incentivo ao casamento de colonos com indígenas, oferecendo como contrapartida a primazia na ocupação de cargos públicos nos aldeamentos para os filhos deste tipo de formação matrimonial.

AS MISSÕES E A PRESERVAÇÃO DA LIBERDADE DOS GUARANI

Apesar de que os primeiros encontros entre missionários jesuítas e carijós do litoral sul tenham se dado ainda no século XVI, foi apenas a partir do século XVII que foram fundadas as missões jesuíticas, também chamadas de reduções. Este sistema consistia em reunir várias parcialidades indígenas em um mesmo local, para facilitar a conversão ao catolicismo e o controle do território pelos impérios coloniais.

Importante ressaltar que os indígenas guarani ingressaram nas reduções jesuíticas tendo em conta a existência de uma combinação política com os padres que primava pela preservação de sua liberdade, devido aos constantes ataques dos bandeirantes paulistas.

As assim chamadas “bandeiras”, eram expedições exploratórias que atacaram e destruíram reduções e aldeias, levando milhares de indígenas escravizados para trabalhar nas plantações de São Vicente e São Paulo.

A aceitação dos guaranis à redução não significou a perda do seu potencial de rebeldia, pois, a par de ser um ambiente direcionado pela catequese jesuíta, sabe-se que nas reduções os indígenas transformaram suas crenças e costumes e criaram novas práticas culturais e políticas.

Aconteceu também de alguns indígenas recusarem a vida nas missões, pois queriam manter seus modos ancestrais de ser e hábitos que os padres consideravam hereges, como a poligamia, as danças rituais, entre outros costumes que não eram permitidos nas reduções.

O TRATADO DE MADRI E A GUERRA GUARANÍTICA

A milhares de quilômetros de distância do continente de São Pedro, as duas potências Ibéricas costuraram um acordo que mudaria drasticamente a forma de ocupação do território sulino do Brasil e da Banda Oriental (hoje Uruguai).

O Tratado de Madri, de 1750, estabeleceu a troca da posse portuguesa de Colônia do Sacramento, no hoje Uruguai, pelo território, até então espanhol, dos 7 Povos das Missões. O acordo fatalmente afetaria a vida dos guaranis, pois previa que 30 mil indígenas deveriam abandonar o lugar onde estavam vivendo, as Missões, e transmigrar para outros territórios.

Os indígenas, porém, reconheciam o território das reduções como seu e não aceitaram abandoná-lo como ditava o tratado. Essa desobediência resultou no que foi denominado guerra guaranítica (1754-1756), diante da qual as coroas ibéricas acabaram por se unir para derrotar os guaranis missioneiros.

Foi nesse contexto de conflitos entre indígenas missioneiros e exércitos ibéricos que surgiu a figura de Sepé Tiaraju, líder heróico da rebelião dos guaranis. Hoje, sua figura é homenageada em um painel de azulejo em frente ao Mercado Público de Porto Alegre, com os dizeres: “Essa terra tem dono!”

O ambiente de guerra e incerteza atrapalhou os planos de demarcação do Tratado de Madri pelo general e vice-rei Gomes Freire de Andrade. O acordo entre as potências ibéricas previa a colonização do território das missões por casais açorianos. As dificuldades de demarcação acabaram consolidando a fixação dos casais na região que viria a se tornar a Vila de Porto Alegre, além de também outros lugares, como Viamão, Rio Grande, Rio Pardo e em outros pontos do então Continente de São Pedro.

Dessa forma, a revolta indígena alterou o quadro da colonização e os rumos de sua história, levando à formação do “Porto dos Casais”, justamente por conta da chegada e fixação dos açorianos em 1752.

“Sobre esse contexto, o professor de História da UFRGS, Eduardo NÓIMANN (Neumann), que tem como um de seus temas de pesquisa a história indígena na América colonial, acrescentou…”

A INFLUÊNCIA DA QUESTÃO GUARANI NA FUNDAÇÃO DE PORTO ALEGRE

A importância dessa revolta dos indígenas missioneiros foi apagada dos registros históricos que traziam notícias sobre a fundação oficial da Vila de Porto Alegre, ocorrida em 1772, ficando em destaque somente a epopéia açoriana, ou as deliberações de autoridades como a do então governador José Marcelino Figueiredo, que teria decidido pela transferência da Câmara do Arraial de Viamão para Porto Alegre. Tal omissão não deixa de ser um efeito da violência perpetrada pelos colonizadores contra as sociedades indígenas na região, negadas até no direito de ter seu legado reconhecido na história regional.

Em que pese a violência física e simbólica, os povos originários desenvolveram inúmeras formas de resistir ao empreendimento colonial. Ainda hoje os indígenas afirmam a sua presença diversa em Porto Alegre território que abriga as aldeias dos povos Guarani-Mbyá, Guarani-Nhandeva, Kaingang e Charrua; onde indígenas provenientes de distintas regiões do Brasil e da América do Sul caminham, trocam e fundam alianças.

As lutas para defender o seu território e a resistência para viver sua cultura e modos de vida são legados que permaneceram através dos séculos nos povos que indigenizam ainda hoje o território de Porto Alegre.

PARTE 4

A LENDA DA OBIRICI

“Diziam os velhos da tribo que – d’alem do Guaíba – um grupo de indígenas Tapes foram se instalar nos Campos de Viamão. Depois, o grupo separou-se em dois: o maior, Tapiguaçu, levantou toldos e tabas ao sul dos Morros, nos locais conhecidos hoje como sendo Viamão e Belém; o grupo menor, Tapimirim, se instalou em Ibicuiretã, ou seja, nos morros e planícies onde hoje é o Passo de Areia.

Assim começa uma das lendas mais conhecidas sobre indígenas na história de Porto Alegre, escrita por José Antônio do Vale Caldre e Fião, cronista integrante do Parthenon Literário. Segundo consta em seu texto, ele teria entrevistado um velho índio, chamado Karaí Vicente, quem teria lhe contado a história de Obirici.

As versões destes cronistas da elite intelectual de Porto Alegre do século XIX, demonstram o quanto a figura do indígena habitava o imaginário da sociedade burguesa e letrada da época como um estereótipo que, mais do que tratar efetivamente dos povos que habitaram a região e das relações estabelecidas entre eles, produziu uma uma visão romantizada.

Os indígenas Tapi não reconheciam cacique nenhum, segundo Caldre e Fião, e nomeavam o mais bravo guerreiro como chefe de guerra, sendo este investido pelo conselho dos mais velhos do grupo. Esse sociedade tinha como hábito cultural realizar grandes jogos públicos na vasta praça no centro da aldeia em dias solenes, com a presença de todos da aldeia, inclusive o Karai ou Pajé. Nesses jogos, as mulheres eram recompensadas por sua agilidade e graça, recebendo cocares de penas de papagaio e enfeites de pedras finas.

“A lenda de Obirici é uma história sobre esse povo que teria habitado a região de Porto Alegre antes da chegada dos colonizadores. A protagonista é uma mulher enamorada do chefe, que perdeu nos jogos públicos com arco e flechas, para uma outra mulher, o direito de casar com aquele bravo guerreiro. Essa mulher era Obirici que entristecida pela derrota e a perda do seu amado, se pôs a chorar inconsolavelmente. Suas lágrimas foram tantas que se transformaram em um curso d’água chamado Ibicuiretã, ou Passo d’Areia. Na atualidade, Porto Alegre mantém, no bairro de mesmo nome, um viaduto e uma estátua em homenagem à índia Obirici.”

Guilherme Maffei, historiador e um dos pesquisadores do GT Indígena do projeto Desapaga POA nos conta melhor como é que Caldre Fião se referiu à lenda:

GUILHERME: “Conta uma lenda da tribu dos tapí-mirins que uma formosa donzela enamorada do chefe dos guerreiros se finara em pranto por ter sido vencida nos jogos públicos por outra não menos formosa e mais feliz – e que tupã, arrebatando-a para a morada dos imortais, transformara no arroio gemedor que ali corre, as lagrimas da moça sensível, cujas águas quasí divinas são remédio para as saudades das que amaram guerreiros mortos em combate.” (Caldre e Fião, 1943: 418-421) Além de Caldre e Fião, outros cronistas da cidade, em diferentes momentos, também registraram essa lenda com suas penas ou canetas, como Augusto Porto Alegre, Sebastião Leão e Walter Spalding.”

A lenda da Obirici é uma das conexões de Porto Alegre com os povos indígenas que habitavam o território onde surgiu a cidade. A lenda chegou aos tempos atuais através desses primeiros escritores e historiadores da cidade, o que nos leva fatalmente à seguinte constatação: trata-se de uma lenda sobre os indígenas, e não exatamente uma lenda indígena.

JOÃO MAURÍCIO FARIAS: AS CONTRADIÇÕES DA LENDA

“Sobre esta lenda é possível pensarmos como uma potente forma de apagamento, pois ela mistifica a presença indígena. Estudos e pesquisas sobre os povos Tupi-Guarani demonstram que os jogos públicos com arco e flechas, por exemplo, referidos, difícilmente teriam de fato ocorrido, já que este instrumento de caça e guerra era interditado, proibido, para a utilização por qualquer mulher da aldeia.
Caso uma mulher tocasse no arco, o guerreiro perderia a pontaria e também sua virilidade. Assim como o cesto, era um instrumento feminino, sendo interditado aos homens. De outra parte, os Guaranis deste período não praticavam o amor romântico – tal qual a visão européia reproduzida na história contada por Caldre Fião – e muitas vezes um hábil guerreiro poderia ter mais de uma esposa.
É claro que isso não significa que devemos abandonar esses relatos e tratá-los como simples e pura mentira, pois eles trazem informações importantes quando bem analisadas. No campo da história e da antropologia existem métodos que nos permitem extrair informações importantes mesmo de relatos que sabemos serem enviesados. O primeiro passo é reconhecer isso. Depois, é importante cruzar os relatos com outras informações com outros relatos, como de pesquisas arqueológicas, etnológicas e históricas, assim como ouvir os próprios povos indígenas.”

O comentário é de outro integrante do Grupo de Pesquisa do projeto Desapaga POA, mestre e doutorando em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, João Maurício Farias. Refletindo sobre as colocações feitas por ele, nos perguntamos o que podemos aproveitar da lenda da Obirici para “desapagar” a história indígena de Porto Alegre?

ENTENDENDO MELHOR A LENDA

Comecemos então por tentar entender melhor o que Caldre Fião quis dizer com a expressão “tribos d’além do Guaíba”:

As pesquisas arqueológicas até aqui desenvolvidas nos mostraram que os primeiros povos filiados à tradição Tupi-Guarani chegaram à região de Porto Alegre há mais ou menos 1.800 anos, vindos provavelmente embarcados em canoas pelos rios da Amazônia e também via deslocamentos a pé.

Mas como se sabe que os tapi, citados por Caldre Fião, pertenciam a este povo tupi guarani? Estudos mais recentes demonstram que a região já estava sendo habitada a pelo menos 9 mil anos por diversos grupos.
Deste modo, poderiam ser também os antepassados dos povos Jê – os Kaingang e os Xokleng de hoje – ou ainda os pampeanos – como os charrua, considerando especialmente a diversidade dos grupos que habitavam o território do atual mapa geopolítico do Rio Grande do Sul.

No entanto, uma série de outros indícios apontam que os tais tapi, a que o cronista se referiu na lenda, eram mesmo os tupi guarani: A começar pela forma como ele nomeia os dois grupos, chamando-os de tapiguaçu e tapimirim. Em língua guarani, guaçu significa grande e mirim, pequeno, diferença certamente relacionada ao tamanho de suas populações.

Além deste ponto, as pesquisas arqueológicas já desenvolvidas no entorno de Porto Alegre confirmam que, após sucessivas ocupações, os tupi-guarani consolidaram seu domínio sobre esse território, provavelmente conquistando-o de outros grupos antes da chegada dos colonizadores. Fato sobre o qual não se pode ter notícias precisas.

PARTE 5

TAPIGUAÇUS E TAPIMIRINS

A lenda também nos remete a essa questão ao registrar que, “…apesar de serem inimigos dos Tapiaguaçu, os Tapimirins protegiam seus rivais dos ataques dos Coroados que vinham dos cerros e florestas do Itacolomi, região situada ao Norte de Gravataí.”

Tais coroados são os antepassados dos atuais Kaingang, cujo território principal são as terras altas da Serra e do Planalto, do Sul até São Paulo.

A lenda da Obirici é possivelmente uma construção de Caldre e Fião – jornalista, médico e professor que viveu em Porto Alegre entre 1824 e 1876 – a partir das histórias que ele teria ouvido de Karaí Vicente, um guarani seu contemporâneo que guardava o portão da cidade, ou de outro indígena com quem conversou. Ao serem transpostas para a escrita, essas histórias tornam-se suscetíveis às influências da visão de mundo de quem as escreveu. Neste caso, fica a evidente romantização da lenda remete à forma como os povos indígenas foram idealizados na sua incorporação à brasilidade pelos intelectuais da época, o que nos obriga a problematizá-la.

Outro exemplo de como o contexto influenciou o cronista fica transparente no fato de ele ter deixado de se referir aos povos pampeanos, que no século XIX já haviam sido fortemente perseguidos e exterminados enquanto grupos organizados. Caldre Fião, porém, cita os coroados, que, em sua época, travavam guerras contra as frentes de colonização no norte do estado. Ou seja, os coroados eram parte da realidade vivenciada pelo cronista, enquanto os pampeanos talvez não mais o fossem e por isso foram omitidos.

Não deixa de ser interessante reparar que, apesar de quase cem anos após a ocupação do território indígena pelos colonos luso-brasileiros, em meados do século XIX, época em que Fião escreveu a lenda da Obirici, ainda estava presente na memória local esta história dos tempos em os povos originários eram os únicos habitantes dessas terras.

A lenda enfatiza a história de uma mulher que, ao chorar, deu vida ao arroio Ibicuiretã, arroio este que posteriormente teve seu nome aportuguesado para arroio Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre, hoje soterrado por um piso de concreto. .

Nessa região, um dos viadutos mais movimentados da cidade leva o nome de Obirici e um monumento de bronze em sua homenagem foi construído em 1975 para relembrar a lenda, que apesar de contada e recontada, permanece, ainda bastante ignorada na memória de Porto Alegre.

Como se sabe, a maior parte das ruas e monumentos da cidade homenageiam militares e políticos. Fazendo com que esses ditos “heróis” sejam mais conhecidos e cultuados do que outros personagens que fizeram tanto ou mais parte história. Entretanto, se observarmos com cuidado, podemos perceber que tanto no passado, quanto no presente, coexistiram e coexistem diversas tradições, hábitos e palavras que apontam para a histórica presença indígena em Porto Alegre. Nomes de lugares como Nonoai, Itapuã, Guaíba, Jarí, entre outros, demarcam a geografia da cidade e guardam o conhecimento indígena em sua designação.

Abundam palavras de origem guarani na toponímia da cidade, fato que aponta não só para a presença indígena nas suas origens, mas também para uma presença atual.

TERRITÓRIOS DE HOJE

Territórios indígenas de hoje se prestam também para demonstrar o vínculo histórico com a geografia da região. Muitas vezes, porém, esse vínculo não é respeitado. Localizada no bairro Lami, a aldeia Pindó Poty – nome que significa flor da palmeira ancestral – é reconhecida como uma ocupação tradicional dos Mbyá guarani. Mesmo sendo ocupada pelos Indígenas, o processo legal de demarcação pela Funai iniciado em 2012, não avança.

Sabe-se também que mesmo as demarcações legais são frequentemente desrespeitadas: invasores mudam cercas de lugar, invadem o território, impedem a pesca, derrubam plantações agrícolas, constroem moradias e ocupam o espaço de forma irregular. A comunidade, ameaçada, acaba não conseguindo usufruir de seus espaços cotidianos de vida, de fato e de direito.

Essa diificuldades são em parte testemunhadas aqui no Desapaga POA pelo indígena indígena Mbya-Guarani Hélio Gimenes, um dos coordenadores da Comissão de Terras Yvyrupá, presente no apoio ao movimento de autodemarcação e defesa do território ancestral Guarani da Pindó Poty, no Lami.

“…Meu nome é Hélio Gimenis Fernandes, eu sou coordenador da Comissão Guarani-Yorupá, uma organização que tem aqui no país, criada pelo próprio guarani pra defender o direito indígena, direito que tem na Constituiçao também, defender escolarização, saúde, e tudo mais que deve ser (que seja) respeitado pelo não-indígena, que tem muitas organizações no país, órgãos, poderes… E nós, povos indígenas, criamos uma organizaçãoguarani Yurupá, que significa território… Sempre falamos que para nós indígenas não existe fronteira, por isso essa nome de Comissão Yorupá. Eu sou coordenador dessa Comissão e represento os guarani desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo, de seis estados da faixa litorânea.
Então, quero falar um pouquinho sobre a situação aqui do Lami. Aqui, esta área pequena que os guarani ocupam, que era do município… Aqui em Porto Alegre, antes de todos os estados brasileiros se formarem já existia aldeia guarani aqui, só que depois desta organização do Estado, o guarani já vem usando, ocupando, só que ai vem o não-indígena invadindo. É nesse sentido que estamos aqui no Lami, numa área que era grande e foi diminuindo porque o não indígena vem invadindo sempre. Depois disso, o município aqui se adonou, se apropriou da terra do indígena, né? Estes sete hectares que os guarani estão ocupando agora o município se adonou, se apropriou. Como falei, os guarani já vem ocupando aqui há muitos anos, e é terra do Guarani e não do pessoal aqui do Lami, né? Há muitos anos o guarani está aqui e vem sofrendo por este pedacinho de área pra ter paz pra fazer seu plantio, sua casa de reza e viver a cultura dele, seu modo de vivência, o modo do povo guarani…”

Outro lugar que demonstra a forte relação dos indígenas com as margens do Guaíba é a Ponta do Arado, no bairro Belém Novo. Lá foram identificados registros arqueológicos que confirmam a presença milenar dos guarani na região. Tais registros, contudo, não tem sido suficientes para a legalização das áreas indígenas da cidade. As famílias Mbya Guarani que vivem no local e o reivindicam como sua morada tradicional, além das dificuldades burocráticas para legalização das áreas, sofrem com constantes ameaças.

Guaíba em guarani significa Água Grande. Para este povo originário, a água é o centro da vida. E quando pensamos sobre os principais cursos d’água da região podemos perceber que outros diversos rios, entre os quais alguns que formam o Delta, têm nome Guarani: o próprio Jacuí, o Caí, o Taquarí o Vacacaí, o Gravataí e o Capivari.

Os guarani que encontramos hoje não só representam a mesma presença indígena ancestral como, além disso, contribuem grandemente para enriquecer o patrimônio cultural da cidade, demonstrando a pluralidade e diversidade da sua formação.

Em Porto Alegre, felizmente, são frequentes os encontros com os guarani-mbyá, no largo dos Medeiros, na praça da Alfândega ou no Brique da Redenção, havendo ainda os kaingang, charrua e xokleng.

Entre as diversas questões da pauta indígena na atualidade estão, além das questões de reconhecimento da sua territorialidade, a necessidade de serem respeitados na sua cultura: nas formas próprias como estabelecem sua organização social e nos seus modos de entender e conviver com a natureza.

FECHAMENTO

No próximo episódio, quarto do DESAPAGA POA e o segundo da série PERIFERIAS, vamos lembrar que becos povoados por cortiços eram uma realidade da Porto Alegre do final do século XIX, quando teve início um duradouro processo de transformações urbanas que levou à transferência higienizadora dos mais pobres para fora do hoje chamamos centro ou proximidades do Centro, culminando nos anos 1970 com a transferência dos moradores da Ilhota para a Restinga. Fenômeno semelhante ao ocorrido com os casebres da antiga Doca das Frutas, várias vezes transferidos de lugar, acabando por serem alojados no Mato Sampaio.

O episódio 4, trará ainda um olhar para uma periferia do centro tão antiga quando a cidade: as Ilhas do Guaíba ou o Bairro Arquipélago, assim definido por determinação legal em 1959.

Acompanhem, em breve estaremos aqui outra vez para mais um episódio do canal DESAPAGA POA.

BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS:

Áudios no episódio:

Publicações:

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  • LAROQUE, Luiz Fernando da Silva. Fronteiras Geográficas, éticas e culturais envolvendo os Kaingang e suas lideranças no sul do Brasil. (1889-1930) UNISINOS, 2007
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