Desapaga POA

Quem era Karaí Vicente? Território indígena e cosmologia para os Guarani e Kaigang

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Quem era Karaí Vicente? Território indígena e cosmologia para os Guarani e Kaigang O domínio das águas numa época em que o porto ainda era muito importante para Porto Alegre, provavelmente do início do século XX, com as duas torres da Igreja das Dores já concluídas. Foto: Acervo Museu José Joaquim Felizardo e Banco de Imagens do Programa Monumenta

A pesquisa, os textos e a elaboração dos roteiros da série sobre a QUESTÃO INDIGENA na história de Porto Alegre são de Clara Falcão, Guilherme Maffei Brandalise, João Maurício Farias e Kátia Almeida.
A equipe de locução conta com Clara Falcão, Leila Mattos e Carlos Raimundo.
Os áudios e a trilha sonora têm a direção e criação de Bebeto Alves, com participação do professor de canto e dança guarani Arlindo Kuarai.
A comunicação é do Marketing da Ju e a edição é de Vítor Ortiz.

Ministério do Turismo, Secretaria Especial de Cultura, Secretaria Estadual da Cultura e Fundação Marcopolo apresentam:

DESAPAGA POA – O podcast que chegou para desapagar os apagados da história de Porto Alegre: negros, negras, negres, indigenas e periferias, às vésperas da cidade completar 250 anos de sua data oficial de fundação.

Olá pessoal, estamos iniciando mais um episódio da série DESAPAGA POA.

Este projeto foi selecionado no edital Criação e Formação Diversidade das Culturas, da Secretaria Estadual da Cultura – SEDAC/RS – e Fundação Marcopolo e é realizado com recursos da Lei 14.017 de 2020 (a Lei Aldir Blanc).

Os episódios da série estão disponíveis nos principais agregadores de podcasts e são transmitidos, todos os sábados, pela rádio FM Cultura (107.7), apoiadora do projeto.

O DESAPAGA POA tem o apoio também do Matinal Jornalismo, revista Parêntese e RogerLerina.com; e os conteúdos detalhados (o roteiro para leitura, a bibliografia e as imagens da pesquisa) ficam disponíveis no site https://www.matinaljornalismo.com.br/desapagapoa

Neste episódio, vamos perguntar aos guarani e kaigang de que modo o mundo é visto, nas suas respectivas culturas, nas suas cosmologias, e quais suas compreensões sobre o significado da expressão “território”. Vamos também tentar entender um pouco mais sobre quem foi Karai Vicente, o guarani que guardava o portão de Porto Alegre e que aparece nos escritos dos crônicas antigos, Ari Sanhudo e Caldre e Fião.

PARTE 1

DIVERSIDADE COSMOLÓGICA E TERRITÓRIO NA VISÃO GUARANI

João Maurício Farias

Como se pode perceber no Episódio 3 do Desapaga POA, além da diversidade ecológica deste vasto território que foi batizado de Brasil, também havia uma imensa diversidade de povos quando das primeiras invasões dos colonizadores. No século XVI havia mais de 1000 etnias, cada qual com suas línguas, com suas culturas, seus modos próprios de vida e com cosmologias diferentes. Ou seja, com visões completamente diversas do cosmos. Ainda hoje, em pleno início da terceira década do século XXI, no ano de 2021, existem 305 povos falando 274 línguas diferentes no país.

Aqui em Porto Alegre, na capital do Rio Grande do Sul, convivemos com alguns destes povos, como os Mbyá-Guarani, os Kaingang e os Charrua.Cada qual com suas cosmologias e suas línguas preservada, apesar dos 521 anos de contato.

Ouça no áudio do episódio a fala Mbyá-Guarani sobre a história da criação do mundo pelas suas divindades na voz do Professor Laércio Kuarai, indígena graduando em história pela UFRGS.
O áudio traz parte da fala de Laércio na língua guarani e parte em português.

Assim como nas diferentes visões da criação do mundo e nas diferentes formas de estar e agir no mundo, cada povo vai compreender os seres que estão no seu entorno de maneiras também diversas. Por exemplo: para os Guarani cada ser da existência possui uma entidade, um ser protetor, tipo um “dono” que regula e protege a existência deste ser. E aqui incluem-se: árvores, animais, rochas, pedras, vento, chuva, trovões… enfim, todos e todas… Logo, para a realização da caça de um animal ou para a derrubada de uma árvore, por exemplo, é preciso que o indígena dialogue com este “dono/protetor”, a fim de que lhe seja permitida aquela caça ou aquela árvore.

Do mesmo modo, a concepção de terra e território para os indígenas é diferente da que nossa sociedade mantém, baseada na alta concentração urbana, em cidades, ou com a exploração intensiva dos recursos da natureza e ou ainda com a altíssima produção industrial e consumo em massa. Como diz David Yanomami: “somos a sociedade da mercadoria”.

O professor Laércio fala ao Desapaga POA também sobre a visão e sobre a compreensão de território, ao explicar o que seria o “Yvyrupá”, expressão equivalente na língua Guarani:

Ouça no áudio do episódio a fala do Professor Laércio Kuarai, indígena graduando em história pela UFRGS, sobre o significado de yvyrupá para os guaranis.
O áudio traz parte da fala de Laércio na língua guarani e parte em português.

Como muitas vezes nos explicam os Guarani, para eles, antes da chegada dos invasores, seu território não estava limitado ou regulado pelas fronteiras inventadas pelos Estados-nações. Havia o Yvyrupá sem as linhas fronteiriças da separação geopolítica do Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil. O povo Guarani transitava livremente por toda esta vasta região.

Espaço físico, biológico e “espiritual” oferecido pelas divindades criadoras do mundo: Nhanderu Tenondé (pelo grande pai criador) e Nhandexi (a grande mãe protetora), bem como por Tupã, Jakairá, Nhamandu (a divindade solar), e Jaxi (a divindade lunar).

Para estes indígenas, a criação dos Estados nacionais – criadas a partir das colônias européias – além de dizimar grande parte de seus parentes, com as epidemias, assassinatos e escravização efetivamente ocorridas desde a chegada dos Europeus, fez surgir diversos empecilhos para o seu livre caminhar e também para que pudessem assegurar ao povo Guarani as melhores condições para sua existência: um exemplo deste empecilho advém do acelerado desmatamento da Mata Atlântica, que resultou fatalmente na redução da fauna e flora, e, consequentemente, na redução dos recursos disponíveis para sua sobrevivência.

A própria concepção de propriedade privada de uma área, de uma fazenda, uma sesmaria, uma chácara, não existia para os povos indígenas, pois em sua língua não há nenhuma palavra equivalente para esta ideia de posse privada do terreno. Para eles, cercas e título de propriedade privada são conceitos estranhos ao yvyrupá, o território – que é considerado pra eles uma dádiva das divindades a seus filhos. Algo que não se compra e não se vende.

PARTE 2

OS POVOS DAS MARGENS DO GUAÍBA

Guilherme Maffei Brandalise

Porto Alegre foi fundada em um local considerado estratégico pelos portugueses. O fato da península, entre o delta e o lago, escolhida para a povoação servir como uma fortaleza natural em três direções e ter a visão privilegiada do topo do morro central são exemplos desse pensamento.

Para os que habitavam as margens do Guaíba por milhares de anos antes desse momento descrito anteriormente, havia outros motivos para que essa região fosse estratégica. Fatores como a convergência dos quatro rios no Guaíba, que também se conecta com a Lagoa dos Patos; a transição de biomas do pampa para a mata atlântica, e da mudança suave na paisagem de planície litorânea para planalto acidentado.

A abundância de rios e florestas garantiram a permanência de grupos indígenas nessa região. Mas havia mais que apenas sobreviver, havia que conhecer outras paisagens, buscar locais melhores, e isso inevitavelmente levava a encontros entre diferentes grupos e etnias, promovendo dinâmicas históricas próprias. É sempre importante ressaltar que os povos indígenas têm histórias, e as contam através de suas linguagens, culturas, mitos e principalmente nas palavras dos anciãos e das anciãs.

Se houvesse na época algum posto avançado, talvez uma patrulha ou um porteiro, que anotasse as movimentações humanas pelas margens do Guaíba, saberíamos melhor como essas dinâmicas operavam, mas as coisas não eram assim.

Sem cercas nem fronteiras como conhecemos hoje, os povos dessa terra circulavam de maneiras que ainda ecoam nas caminhadas e movimentações dos indígenas atuais. Essa movimentação livre pelo território promoveu encontro de povos dos pampas, os Charruas e Minuanos, povos do planalto, da família linguística Jê, os Kaingang e Xokleng, e os povos da família linguística Tupi-Guarani, nos campos e florestas às margens dos grandes cursos d’água.

Assim, essas terras foram palco de migrações, conflitos e encontros antes mesmo de constar em qualquer mapa do velho mundo. Apesar de termos poucas informações sobre esses encontros no passado, podemos afirmar que eles ocorrem até os dias de hoje, nas encruzilhadas da redenção, na rua da praia e nas periferias. Locais onde o cruzo dos saberes ancestrais foi, e segue sendo fundamental para continuidade desses povos e para a construção do que hoje chamamos de Porto Alegre.

Durante o período anterior à chegada dos europeus e africanos, esses diferentes grupos chegavam às margens do Guaíba vindo atrás de recursos… Mas e depois da colonização, o que mudou? Cada etnia e grupo indígena, vendo o mundo de sua própria maneira, lidou com esse processo histórico de forma diferente.

Por exemplo, existiam aqueles que escolheram negociar com as autoridades da província. Existem diversos relatos escritos de Kaingangs recebidos por presidentes da província, cargo equivalente ao de governador. Sabemos também que caciques Charruas vinham para a cidade negociar sua participação nos conflitos que ocorriam na tumultuada fronteira entre os impérios português e espanhol.

Vindo até o palácio no centro de Porto Alegre, em longas jornadas a pé e a cavalo – no caso Charrua – lideranças indígenas demonstraram que, além de guerreiros, eram hábeis negociadores, e exigiam respeito aos seus povos na sua relação com o Estado.

Não foram poucas as traições das autoridades aos indígenas.

PARTE 3

O PERSONAGEM KARAÍ VICENTE

Guilherme Maffei Brandalise

Se existe algum personagem da história de Porto Alegre que poderia ser o “porteiro” da cidade, esse alguém é Karaí Vicente. Somos apresentados a ele por Caldre e Fião, cronista do século 19 com duas referências geográficas: o quartel do 8º e o Potreiro de Nossa Senhora, também chamado de Ibicuiretã, ou ainda, Passo d’Areia.

Segundo a planta de Porto Alegre feita por Luis Pereira Dias em 1839, o Quartel do 8º era o primeiro edifício que encontrava quem quer que cruzasse o portão da cidade, justamente em frente à ‘praça do portão’, que recebia os chegantes na Porto Alegre dos séculos XVIII e XIX. Se acreditarmos na história do cronista, podemos supor que Karaí Vicente foi desalojado para a construção do quartel do 8º e que logo passou a ver um muro feito de madeira e terra cortando o que um dia foi seu lar.

Talvez ao longo de sua vida esse personagem tenha visto o surgimento da cidade que hoje conhecemos como Porto Alegre, tudo acontecendo ao redor de sua casa.

Segundo outro cronista de Porto Alegre, Ary Sanhudo, o tal Karaí Vicente vivia em um casebre de taipa e junco, (entre aspas) “ali na rampa da moderna praça Argentina”, e era protegido do governador Marcelino, já que este (entre aspas outra vez) “votava especial cuidado aos índios locais”, na opinião de Sanhudo.

Os cronistas dessa época, não raras vezes, adequavam suas histórias para o que acreditavam, e uns fatos ficavam de fora enquanto outros eram acrescentados. Mas vale nos fazermos algumas perguntas: de quê o governador quereria proteger os indígenas? Da escravização? Da violência a que eram vítimas?…

Marcelino teria protegido o indígena guarda do portão da cidade, mas não protegeu as terras indígenas do esbulho, já que foi construída uma cidade murada no quintal da casa de taipa e junco do Karaí Vicente!

O que fica evidente é que, se não haviam indígenas quando da fundação de Porto Alegre, como afirma a história tradicional, para que ressaltar essa preocupação do governador?

Em um aspecto Caldre e Fião e Ary Sanhudo concordavam: Karaí Vicente era um sobrevivente, um resquício do passado que estava ali na encruzilhada entre a cidade, recém inventada, e os campos e florestas aos poucos sendo apropriados ao projeto colonial. Lendo bem de perto estes relatos dos cronistas antigos de Porto Alegre, logo se percebe que a visão dominante entre eles sobre os indígenas era justamente essa: os indígenas eram vistos como resquícios do passado e que, portanto, logo desapareceriam sob a modernidade.

Sim, o Karaí Vicente das crônicas antigas é um personagem simbólico dessa visão de mundo, onde o indígena era romanceado como um primitivo brasileiro, e que logo daria lugar aos modernos brasileiros, seja lá o que isso significasse.

Outra visão comum entre os dois cronistas, Caldre e Fião e Ary Sanhudo, é que Karaí Vicente estava ali, muito presente onde já estava muito antes da fundação de Porto Alegre, e ali continuou, permanecendo durante vários anos, inclusive servindo como “guarda da povoação”. Concordamos que é um cargo que requer um certo grau de confiança, uma fidelidade, pois uma traição do guarda do portão poderia ser fatal numa invasão. Ainda assim, Karaí Vicente permaneceu nessa função até 1782 quando teria sido morto, segundo diz Ary Sanhudo, sem explicar quais as causas de sua morte.

Os cronistas, ao escreverem uma história que apagava os indígenas, dizendo que aquele (entre aspas) “era com certeza um dos últimos”, ou ressaltando que era um dos índios que ainda existia, reforçaram o mito de que não havia indígenas quando Porto Alegre foi fundada, ao mesmo tempo, eles estavam contando justamente a história de um indígena que ai estava!

Parece que essa contradição pode nos ajudar a entender tanto o esquecimento quanto a permanência dos indígenas, principalmente guarani, na região de Porto Alegre. Na verdade, eles nunca deixaram de estar nesse espaço, se adaptaram às circunstâncias e as condições a que eram submetidos pelas leis e práticas genocidas da Colônia, do Império e depois da República.

Para completar a descrição desse personagem, há algumas informações importantes a acrescentar. Primeiro, o nome Karaí, nas comunidades Mbyá-Guarani de hoje, é uma das quatro denominações de nomes tradicionais.. Karaí também designa um sujeito sábio, um pajé ou o mais velho da comunidade, se for mulher, Kunhã-Karaí.

Nas aldeias Guarani atuais, geralmente existe um “casebre de taipa e junco”, tal como o cronista descreve, que é a opy, a casa de reza. Essa construção é feita intencionalmente desse modo tradicional, e é o centro cultural e religioso de uma aldeia Guarani.

Com essas informações, fica a pergunta: Karaí Vicente era um pajé?

Sabemos pelos cronistas que era um “velho índio”, e também já sabemos que era respeitado pelo governador da época, Marcelino Figueiredo. Uma das características de um pajé é ser respeitado dentro de sua comunidade e fora dela.

Seria seu “casebre” uma casa de reza tradicional? Sendo assim, cadê o resto da aldeia do Karaí Vicente? Por que apenas esse “índio velho” recebe atenção dos cronistas? Onde estariam os jovens?

Encontramos aqui um mecanismo narrativo de apagamento da história, pois se só existissem os velhos, as histórias morreriam com eles.

Não podemos esquecer ainda os mecanismos legais de apagamento e branqueamento da população, por exemplo, a incorporação deliberada de jovens indígenas na sociedade colonial através do trabalho para os colonos. Nesta condição de trabalhador rural, tal qual um peão de estância ou um lavrador, numa relação de trabalho livre ou escravizada, tais jovens indígenas deixavam de ser indígenas aos olhos das autoridades, sendo registrados como ‘pardos’, ‘caboclos’, ‘chinas’, ‘bugres’ entre outros designativos. Infelizmente, ideias assimilacionistas que querem apagar as presenças originárias ainda se fazem presente nas políticas públicas em pleno século XXI.

Para pensar criticamente os relatos sobre indígenas nas crônicas de Porto Alegre antiga é importante tentar perceber os mecanismos – sutis ou explícitos – que fazem com que sua cultura e identidade sejam diluídos em outras narrativas. Por exemplo, trazer a informação de que estavam lá, mas fazer questão de ressaltar que estavam, mas “não por muito tempo”.

Embora tenha havido um deliberado esforço de apagamento, percebemos que mesmo com toda a violência física e simbólica não conseguiu-se eliminar a cultura e a identidade Guarani na região do Guaíba.

Nas aldeias, nas ruas do centro, nas telas de cinema e mesmo nas redes sociais a cultura tradicional indígena sobrevive e se fortalece. Se estivessem por aqui no século XXI, os cronistas perceberiam com espanto que identidades como a dos Guarani permaneceram vivas, mesmo atingidas por rupturas drásticas como a da modernidade ocidental.

PARTE 4

OS KAIGANGUES

Esta diversidade de cosmovisões podemos constatar comparando a visão de mundo Guarani com a perspectiva Kaigang na história que estes últimos contam sobre a criação do mundo na sua perspectiva. Ouçam o que nos diz Dona Iracema, uma “kujá” – liderança espiritual e política do povo Kaigang que mora no Morro Santana, em Porto Alegre:

Ouça no link de áudio do episódio, o depoimento de Dona Iracema na língua kaigang e em português, exclusivo para o DESAPAGA POA.

Apesar de historicamente terem povoado às regiões centro, serra e norte do Rio Grande do Sul (Passo Fundo, Canela, Gramado e Caxias, por exemplo), os Kaingang também mantiveram muitos contatos com os povos que estavam presentes na região onde foi fundada Porto Alegre.

TERRITÓRIO KAIGANG E VISITAS ÀS LIDERANÇAS INDÍGENAS AOS GOVERNADORES EM PORTO ALEGRE

Guilherme Maffei Brandalise

O mundo para os Kaingang nasceu dividido em duas metades: Kamé e Kanhrú [Kairu]. Todos os seres que existem são de uma metade ou de outra, e há grande complementaridade entre as duas, tanto na natureza, quanto nas relações entre pessoas.

Para esse povo, o Brasil é chamado de Gá Mág [Gá Mbãn], ou terra grande, seu antigo território, que ia desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. O historiador Luis Fernando Laroque aponta os limites desse território histórico: o rio Tietê ao norte, e os rios Ibicuí e Jacuí ao sul, a oeste a serra geral e – a leste – até a província argentina de Misiones.

Porém nunca iremos entender o Gá Mág [Gá Mbãng] se pensarmos no conceito ocidental de território, ou seja um “espaço geográfico que define e delimita a soberania de um poder político.”

Para o povo Kaingang, o território é feito nas relações e na vida. É um espaço que se mantém através dos seres que o habitam, sejam eles Kamé ou Kanhrú.

Assim, não se limita apenas pelo espaço de “moradia”, e inclui também espaços de coleta e plantio de alimentos, de caminhadas, de relações com os outros, sejam humanos, animais, vegetais ou espirituais.

Durante o século XIX houve uma ruptura nas relações que formavam esse território devido à forte pressão colonizadora em todo o território Kaingang, expulsando-os de suas casas e vitimando muitos grupos.

Esses processos afetaram também a região do Guaíba, que era frequentada pelos Kaingang há muito tempo, como aponta os relatos de cronistas – por exemplo, na Lenda de Obirici – e achados arqueológicos, inclusive no centro da cidade, nas obras de duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, próximo ao gasômetro, onde, em 2014, foram encontradas pontas de flecha atribuídas aos antepassados dos Kaingang.

Os primeiros aldeamentos oficiais de indigenas kaigang foram criados em meados do século XIX, em razão da expulsão havida em decorrência das diversas colônias de imigrantes instaladas sobre o seu território ancestral, sobre à região em que viviam no que hoje é o Rio Grande do Sul.

O historiador Fábio Kuhn aponta que até 1939 chegaram quase 160 mil imigrantes italianos e alemães, transformando profundamente a região nordeste do estado. Para a instalação desses empreendimentos coloniais, foi necessária a abertura de estradas, a derrubada de florestas e a demarcação das propriedades. No mesmo período, a partir da década de 1840, foi instituída a política de aldeamentos no norte do estado. Segundo o historiador Kaingang Danilo Braga:

“O aldeamento vem a ser um acontecimento importante na vida dos Kaingang, pois esta forma de agrupamento nada mais era do que uma tentativa de manter essa população sob controle e confinada em um lugar definido.

Esta concentração populacional de certa forma pretendia eliminar a ideia de uma unidade existente entre as duas famílias, no caso a Kamé e a Kairukré, através da ação missionária.

Seguido aos aldeamentos, veio o regime tutelar e os abusos dos órgãos indigenistas, durante todo o século passado. Além disso, era preciso liberar todas as terras para os projetos coloniais, então quaisquer indígenas que não aceitassem se aldear passava a ser alvo de coação e perseguição, sempre marcadas por muita violência.

Apesar dos processos históricos que levaram a diversas rupturas na vida social dos Kaingang, os caminhos dos antigos não se perderam. Se mantiveram vivos nas jornadas das lideranças que vieram várias vezes até Porto Alegre em busca de seus direitos.

Diversos caciques e suas famílias visitaram a capital desde o início do século XIX, alguns mantendo relações de confiança com o governo gaúcho.

É o caso do cacique Doble, que colaborou no aldeamento de alguns grupos indígenas e atacou outros que não aceitaram as novas regras.

Por esses serviços, recebeu benesses, víveres e a confiança das autoridades. Recebeu também traição, que lhe deram em forma de roupas infectadas com varíola, episódio que causou um surto dessa doença em seu grupo e a sua morte, em 1864.

Outras lideranças que sabemos que visitaram a sede do governo são os filhos do cacique Fongue, João Coitó e Wagetó em 1847; Nicofé, Chico e Maneco no ano seguinte.

Já em 1908, o cacique de Nonoai Antonio Pedro foi recebido pelo governador Carlos Barbosa, e denunciou a invasão de suas terras e a perseguição de seu grupo pelos intrusos.

Pela lógica indígena, essas visitas eram como missões diplomáticas que permitiam as relações entre grupos distintos e entre os indígenas e o governo.

Na tradição Kaingang, em especial, essas visitas eram fundamentais na boa relação entre diferentes lideranças, como atesta o engenheiro belga Alphonse Mabilde, que esteve entre os Kaingang no século XIX. Era também, ainda naquela época, uma forma de lutar contra a invisibilidade étnica frente ao Estado branco, no Rio Grande do Sul.

Não apenas os Kaingang, mas os Charrua também enviaram missões diplomáticas à Capital. O historiador Sérgio da Costa Franco, em seu livro Porto Alegre: ano a ano, registra que em 18 de julho de 1806 um cacique Charrua chamado Dom Gaspar, que vivia no sítio Varara Vi aí, compareceu ao palácio do Governo ma Rua da Igreja, atual Duque de Caxias.

Ele representava um grupo de 150 pessoas que estava em busca de proteção “para viver em paz e sossego” no lugar onde estavam. Os termos propostos ao grupo indígena foram os seguintes:

Se os Charrua não atacassem as estâncias, e em tempo de guerra ajudassem a defender o Reino de Portugal na região, poderiam viver em paz em suas terras.

Esses movimentos não estão apenas no passado, pois os povos indígenas nunca puderam deixar de lutar por seus direitos. Em junho de 2013, o então governador Tarso Genro recebeu lideranças das três etnias do Rio Grande do Sul – charrua, guarani e kaingang – que pediram ajuda para questões de demarcação das terras indígenas. Vale ressaltar que hoje, praticamente todos os processos de demarcação estão paralisados e tramita no Congresso Nacional a proposta de uma nova legislação que pretende acabar com as demarcações.

O que estas vindas de indígenas a Porto Alegre para tratar de seus assuntos com as autoridades dos governos brancos demonstram é que sempre estiveram em curso diversas estratégias de defesa de seus direitos e suas culturas e que predominava uma disposição para o diálogo.

Tais episódios exemplificam algo que por muito tempo tentou se apagar: as diversas formas como os povos originários resistiram e se impuseram frente às situações, tanto no período imperial quanto no século XXI.

É provável que, tal como hoje, no passado, ou, dizendo-se de outro modo, em qualquer outro momento da história, também fosse possível perceber os indígenas percorrendo as ruas de Porto Alegre: Kaingang, Guarani, Charrua passeando ou fazendo seu poraró pela praça da Alfândega, subindo em direção à praça da matriz, ou nos campos da Várzea.

Se pensamos que essas práticas de circulação indígena já duram milhares de anos, temos que admitir que talvez tenhamos nos deixado enganar. Não existem territórios indígenas dentro da cidade, existe uma cidade dentro de um enorme território indígena.

PARTE 5

TERRITÓRIOS INDÍGENAS NO CENTRO DE PORTO ALEGRE

Clara Martinez Falcão

Ao andar pelo Centro Histórico Porto Alegre, não menos de repente surgem nas paredes, em locais estrategicamente visíveis, cartazes com os dizeres (abre aspas) “ÁREA INDÍGENA”, ou então com desenhos de um simpático personagem que tem seu rosto pintado e uma pena na cabeça que lembra uma criança indígena ou como dizem os guarani “kyringué”.

Xadalu Tupã Jekupé é o nome do artista mestiço (forma como ele se apresenta), natural do Alegrete, mas residente em Porto Alegre desde meados dos anos 1990, que através da serigrafia, da pintura e da fotografia criou uma série de intervenções artísticas tratando das questões indígenas no centro da cidade. Suas obras são capazes de desapagar a presença da cultura indígena.

Uma dessas obras, o Indiozinho, se tornou popular também na internet, tendo sido propagada em diversos países do mundo, conforme o próprio Xadalu explica, em entrevista concedida para o programa “Singulares”, da TVE, depois de ter seguido sugestão de um amigo de usar também esse recurso comunicativo da web:

“…Comecei a trabalhar esta figura do indiozinho e comecei a espalhar pela cidade, que era repovoar uma cultura que havia sido destruída, que estava sendo destruída. Eu nem conhecia na época a internet, ai ele me falou (o amigo que lhe deu a sugestão), você tem que postar na internet e no momento que eu fiz isso viralizou e artistas do mundo inteiro pedem pra, como disseram, despertar o indiozinho que tem dentro deles. ” (XADALU)

Sua arte tem traços da cultura pop misturados com características tradicionais da arte dos mbyá-guarani, como se pode perceber nos desenhos de onças, macacos, corujas, entre outros animais que estão colados nas paredes da cidade e que foram inspirados nos artesanatos em madeira dos mbyá. Na arte de Xadalu essa referência é somada a cores marcantes que chamam atenção de quem, ao circular pelo centro, cruza com sua arte.

As intervenções de Xadalu podem também causar estranhamento a quem passa por um local cotidiano como o viaduto da Borges, a esquina Democrática ou em alguma parada de ônibus e se depara com os cartazes em verde e amarelo com os dizeres: ÁREA INDÍGENA.

O crítico de arte Paulo Herkenhoff escreveu sobre o impacto dessa obra quando ela começou a ser espalhada pelo centro de Porto Alegre em 2005: (abre aspas) “Os guaranis entenderam que era um espaço para seu artesanato; os comerciantes sentiram-se ameaçados. Um cacique pediu a Xadalu que espalhasse pelo centro. Numa noite, Xadalu colou 1000 deles!. ÁREA INDÍGENA é um dispositivo anti-desterritoriaação,” destaca o famoso curador de arte. Herkenhoff acrescenta que “Xadalu reivindica o reconhecimento das terras guaranis e a reterritorialização das aldeias e o reconhecimento simbólico da Tekoha”. [Fonte: http://www.xadalu.com/]

A expressão “ÁREA INDÍGENA” contrasta com as placas da área de quartéis, próxima à Igreja das Dores, onde diversas placas junto às calçadas do entorno indicam que se trata de “ÁREA MILITAR”.

Cotidianamente podemos nos encontrar com os mbyá-guarani no centro de Porto Alegre, onde vendem seus artesanatos aos juruá (não indígenas) e praticam o que chamam de “poraró”. Segundo Luciane Ouriques a dependência de tais práticas na economia dos Mbya se relaciona com a insuficiência de terras ambientalmente e legalmente adequadas que garantam a manutenção do modo de ser tradicional.

A antropóloga ressalta também que (abre aspas) “a proximidade das aldeias aos grandes centros urbanos do Estado faz com que os Mbyá reconheçam esse espaço como um lugar para habitar, andar, encontrar parentes, recriar tradições e ganhar a vida.”. Desse modo, o “poraró” guarani transforma o espaço urbano porto-alegrense realmente em ÁREA INDÍGENA, apropriada pelos indígenas, entre outros motivos, como meio de sobrevivência, significando resistência e promoção de suas culturas, e, ao mesmo tempo, acesso à suas artes e saberes. Desde a negociação em tempos coloniais até o tempo presente, o centro de Porto Alegre segue sendo um espaço de presença indígena, o que contraria a ideia de que os indígenas não estavam ali quando chegaram os colonizadores. Não só estavam, mas como também continuam.

FECHAMENTO

Este foi o sexto episódio da série DESAPAGA POA.

Esta primeira série terá 10 episódios que ficam disponíveis nos principais agregadores de podcast, sendo transmitidos todos os sábados, pela rádio FM Cultura (107.7), apoiadora do projeto.

O DESAPAGA POA tem o apoio também do Programa EcoViamão, do Instituto Federal do RS, Campus Viamão.

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Em breve estaremos aqui outra vez para mais um episódio do DESAPAGA POA.

BIBLIOGRAFIA

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  • Oliveira, João Pacheco de. O Nascimento do Brasil e outros Ensaios: “pacificação”, regime tutelar e formação de alteridades. Rio de Janeiro, ContraCapa, 2016.
  • Reportagens:
  • “Em Porto Alegre, é encontrado material arqueológico inédito”. SUL21: 5 de fevereiro de 2014. Disponível em: https://www.sul21.com.br/cidades/2014/02/em-porto-alegre-e-encontrado-material-arqueologico-inedito/
  • Índios são recebidos por governador do RS após protestos. Portal Terra, 4 de junho de 2013. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/indios-sao-recebidos-por-governador-do-rs-apos-protestos,7b86c979df11f310VgnVCM4000009bcceb0aRCRD.html
  • (Fonte: Poraró Mbyá e a indigenização do Centro de Porto Alegre, RS -Luciane Ouriques Ferreira e José Cirilo Pires Morinico).
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