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Flávio Aguiar – Diário a bordo do Cruzeiro Coronavírus

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Flávio Aguiar – Diário a bordo do Cruzeiro Coronavírus Dia 21, sábado, 14h30, hora de Berlim. Pela manhã fui ao supermercado da esquina. Pela primeira vez, havia fila na entrada, controlada por um vigia. Para entrar alguém, era preciso que uma outra pessoa saísse. Na fila havia poucas pessoas, mas ela era grande, devido à distância mantida entre elas. Depois de uma espera de quinze minutos, entrei. É desolador ver tantas prateleiras vazias. Não consegui encontrar farinha de trigo, que era um de meus objetivos, pois quero aprender a fazer pizzas caseiras. Em compensação – vitória! – consegui comprar um pacote de papel higiênico, coisa que hádias faltava em todos os super das redondezas. Estamos aguardando medidas mais radicais para a próxima segunda-feira.Parece que vão fechar tudo em Berlim, exceto mercados, feiras, farmácias e hospitais, centros de saúde, essas coisas. Na Baviera, no sul da Alemanha, estas medidas mais severas já estão em vigor. Minha companheira, Zinka, está dando aulas de português e de cultura brasileira para diplomatas alemães que serão nomeados para o Brasil, contratada pelo Ministério de Relações Exteriores. Jáfaz uma semana que ela dá aulas pelo skype. Instruiu-se com uma amiga nossa, também brasileira, que mora na Espanha e dáaulas de inglês também por skype. E acaba de fazer um curso supletivo, com certificado e tudo, dado por um instituto britânico, sobre omesmo assunto. Estamos em regime de quarentena voluntária a 90%. Só saímos para fazer compras necessárias e esticar um pouco as pernas pelas ruas próximas. Transporte público, nem pensar. Amigos, só pela internet ou por esta coisa fabulosa que acabam de reinventar: o telefone! Ainda vamos acabar voltando a escrever cartas. Conversamos hoje de manhã sobre a esquisita sensação de que o tempo parou, de que estamos vivendo dentro de uma bolha surreal. É assustador. Na entrada do prédio onde moramos háum chamado para que hoje, às 19 horas, saiamos no balcão para aplaudir os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao vírus. Parece que éum chamado da subprefeitura local. Da manhã à noite somos bombardeados por informes sinistros, de como o número de casos na Alemanha estáaumentando vertiginosamente (20.705 hoje), ou que o número de mortos na Itália e na Espanha cresce em proporções gigantescas. Corre a informação de que o número de novos casos na China caiu espantosamente: será a luz no fim do túnel? Para completar, temos de fazer o enfrentamento com as contínuas imbecilidades do clãdos Bolsonaro e do nosso ministro Ernesto Araújo, que resolveram nesta hora augusta brigar com os chineses. É dose! Bom, como não temos farinha suficiente para eu me iniciar nas pizzas, a Zinka foi comprar uma na feira mesmo, e eu vou fazer agora uma saladinha para o almoço. Até a próxima! Dia 22, domingo, 13h30. Neste momento, 23.129 casos na Alemanha, com 93 mortos (uma proporção considerada baixa) e 209 altas. O pior de tudo éa sensação de confinamento, acompanhada pelo sentimento de insegurança. Uma tossida gera uma espécie de pequeno pânico interior. Para combater a sensação de confinamento, […]

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Dia 21, sábado, 14h30, hora de Berlim. Pela manhã fui ao supermercado da esquina. Pela primeira vez, havia fila na entrada, controlada por um vigia. Para entrar alguém, era preciso que uma outra pessoa saísse. Na fila havia poucas pessoas, mas ela era grande, devido à distância mantida entre elas. Depois de uma espera de quinze minutos, entrei. É desolador ver tantas prateleiras vazias. Não consegui encontrar farinha de trigo, que era um de meus objetivos, pois quero aprender a fazer pizzas caseiras. Em compensação – vitória! – consegui comprar um pacote de papel higiênico, coisa que hádias faltava em todos os super das redondezas. Estamos aguardando medidas mais radicais para a próxima segunda-feira.Parece que vão fechar tudo em Berlim, exceto mercados, feiras, farmácias e hospitais, centros de saúde, essas coisas. Na Baviera, no sul da Alemanha, estas medidas mais severas já estão em vigor. Minha companheira, Zinka, está dando aulas de português e de cultura brasileira para diplomatas alemães que serão nomeados para o Brasil, contratada pelo Ministério de Relações Exteriores. Jáfaz uma semana que ela dá aulas pelo skype. Instruiu-se com uma amiga nossa, também brasileira, que mora na Espanha e dáaulas de inglês também por skype. E acaba de fazer um curso supletivo, com certificado e tudo, dado por um instituto britânico, sobre omesmo assunto. Estamos em regime de quarentena voluntária a 90%. Só saímos para fazer compras necessárias e esticar um pouco as pernas pelas ruas próximas. Transporte público, nem pensar. Amigos, só pela internet ou por esta coisa fabulosa que acabam de reinventar: o telefone! Ainda vamos acabar voltando a escrever cartas. Conversamos hoje de manhã sobre a esquisita sensação de que o tempo parou, de que estamos vivendo dentro de uma bolha surreal. É assustador. Na entrada do prédio onde moramos háum chamado para que hoje, às 19 horas, saiamos no balcão para aplaudir os profissionais da saúde que estão na linha de frente do combate ao vírus. Parece que éum chamado da subprefeitura local. Da manhã à noite somos bombardeados por informes sinistros, de como o número de casos na Alemanha estáaumentando vertiginosamente (20.705 hoje), ou que o número de mortos na Itália e na Espanha cresce em proporções gigantescas. Corre a informação de que o número de novos casos na China caiu espantosamente: será a luz no fim do túnel? Para completar, temos de fazer o enfrentamento com as contínuas imbecilidades do clãdos Bolsonaro e do nosso ministro Ernesto Araújo, que resolveram nesta hora augusta brigar com os chineses. É dose! Bom, como não temos farinha suficiente para eu me iniciar nas pizzas, a Zinka foi comprar uma na feira mesmo, e eu vou fazer agora uma saladinha para o almoço. Até a próxima! Dia 22, domingo, 13h30. Neste momento, 23.129 casos na Alemanha, com 93 mortos (uma proporção considerada baixa) e 209 altas. O pior de tudo éa sensação de confinamento, acompanhada pelo sentimento de insegurança. Uma tossida gera uma espécie de pequeno pânico interior. Para combater a sensação de confinamento, […]

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